Ator faz sucesso em cemitérios encarnando personagens famosos da nossa historia

·4 min de leitura

RIO — Ele sonhava em fazer novelas. Mas, há sete anos, o ator Tiago Atzevedo (assim com "t" no sobrenome), que também é jornalista, foi chamado para um trabalho inusitado, num cenário repleto de túmulos, e que financeiramente era irrecusável. Não era personagem de filme de terror: Tiago iria interpretar mortos famosos ligados ao Rio. As atuações seriam in loco, ao lado do historiador Milton Teixeira, que faz visitas guiadas a cemitérios. No primeiro tour, ele foi vestido de fardão de imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) no São João Batista, em Botafogo. Mas depois vieram Elke Maravilha, Cazuza, Clara Nunes, Oswaldo Cruz, Carlos Drummond Andrade, Estácio de Sá...

— O primeiro que fiz foi para homenagear os imortais da ABL. É um personagem fictício, baseado em Brás Cubas, de Machado de Assis — lembra ele, que acabou mais tarde virando o próprio escritor. — Então, eu não sou guia. Eu complemento o trabalho do guia. Enquanto o guia apresenta os túmulos das personalidades e as histórias curiosas por trás da vida e morte de cada um, eu apareço em um dos túmulos, interpretando o próprio defunto e conto, em primeira pessoa, as histórias da pessoa em questão.

Esse roteiro diferente pela história de figuras do Rio de Janeiro fez mais sucesso do que se esperava, e Tiago e Milton Teixeira acabaram convidados para liderar visitas ao Cemitério da Penitência, no Caju. Nesse tempo, Tiago fez o papel de mais de 30 personalidades. Por causa da pandemia, os passeios deram uma parada. Mas, com a flexibilização das regras sanitárias, no último sábado o ator voltou à ativa, por ocasião do feriadão de Finados. Desta vez, em Itaboraí, onde mora, na pele do escritor Joaquim Manuel de Macedo, autor de "A moreninha", nascido na cidade da Região Metropolitana. Foi sua estreia com o escritor, imortal da ABL, que está enterrado no Cemitério Municipal São João Batista, no Centro de Itaboraí, e tem o túmulo tombado pelo município.

Tiago não medo dos mortos. Mas já protagonizou algumas aventuras fantasmagóricas:

— No São João Batista, em Botafogo, uma amiga foi assistir a uma visita em que homenageei o Cazuza. Ela era muito fã dele; ela inclusive o conheceu. No final da visita, ela veio me parabenizar, dizendo: "Tiago, parabéns, ficou lindo! Quando você entrou pela segunda vez de branco me arrepiei toda!". Só que eu não entrei uma segunda vez, nem de branco... Ou seja, tem muitas histórias do além aí...

No Cemitério da Penitência, uma vez ele e Milton Teixeira levaram um grande susto, que a todos pareceu vingança de um morto. O caso serviu de inspiração para um novo personagem, fora da lista de famosos e históricos.

— Trata-se de um português, Manoel Joaquim, que ninguém sabe quem foi. Virou um personagem fixo. A ideia veio durante uma visita, em que Milton Teixeira passou pelo túmulo dele zombando: "Com esse nome, esse cara não pode ser japonês!". Nessa zombaria, com o povo rindo, um vaso cheio de água suja que estava em cima do túmulo dele cai em cima do professor. Ficou todo mundo assustado. E eu passei a interpretar essa cena, com o morto avisando que ele nunca mais vai zombar com a cara de ninguém.

Fora esse caso em particular, os textos interpretados por Tiago são baseados em entrevistas e falas reais dos personagens. Ele procura ser bem humorado, mas há situações em que é impossível escapar da emoção. Junto ao túmulo de Clara Nunes, um dos mais visitados do São João Batista, os fãs não seguram as lágrimas quando Tiago faz sua atuação em cima de uma suposta carta psicografada. Elke Maravilha é outra que faz o maior sucesso: como ela não tinha jazigo no São João Batista, a sua gaveta foi transformada em perpétua pela direção do cemitério.

É o ator, que também trabalha como jornalista na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), quem produz maquiagem e figurino. Sia intenção agora é voltar a realizar as apresentações no cemitério de Botafogo encenando Oswaldo Cruz, médico, epidemiologista e sanitarista, que na primeira década do século XX empreendeu campanhas contra as principais doenças da então capital federal: febre amarela, peste bubônica e varíola. O jovem cientista sofreu muita resistência, e sua atuação a favor da vacinação em massa contra a varíola motivou até rebelião militar. Graças a ele, houve uma mudança de mentalidade e a febre amarela chegou a ser considerada erradicada no Rio. A interpretação do médico no cemitério começa assim: "Tomem a vacina!"

— Assim como teve que lutar paras as pessoas se vacinarem contra a febre amarela, hoje ele volta para que as pessoas se vacinem contra a Covid. Porque ainda tem gente que não quer se vacinar ou que não foi tomar a segunda dose. O apelo de Oswaldo Cruz é para que tomem a vacina! — afirma Tiago, que, na sessão de fotos, estava à vontade e fazia graça em meio aos túmulos do São João Batista. Com todo o respeito:

— Eu já falei que, quando morrer, quero ser enterrado no São João Batista. Já conheço a galera toda de lá, não vou ter problemas de adaptação — ri o ator.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos