"Não é um caso isolado", diz ator vítima de agressão homofóbica

Ator foi agredido no rosto precisará passar por cirurgia. Foto: Arquivo Pessoal

Depois de muito tempo sem ir para uma balada, o ator Marcello Santanna, de 23 anos, resolveu sair para se divertir. Porém, a noite divertida acabou com o jovem sendo vítima de uma agressão homofóbica.

Em entrevista ao blog, Marcello afirmou que estava voltando para a casa em uma lotação com sua prima e um rapaz com quem estava ficando naquela noite. Dentro do transporte, ele estava dando uns “selinhos” no homem quando recebeu a ordem para descer do motorista do coletivo.

Depois de uma pequena discussão, ele desceu do transporte para evitar maiores problemas. Porém, ele afirma que foi espancado na região da face. Depois de registrar um boletim de ocorrência contra o motorista, o ator afirmou ao blog que as dores psicológicas são maiores do que as físicas.

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“Está irreconhecível a pessoa que estou. Ainda não sei quando vai ser essa cirurgia, quando vai ter vaga... mas agora estou tomando muito medicamento. Mas a dor psicológica é muito maior”, afirmou nesta segunda-feira (9).

Leia a entrevista completa:

O que aconteceu com você no dia da agressão?

Marcello Santanna: A gente estava voltando de uma festa na Paulista. [Estávamos] eu, minha prima e um rapaz. A gente desceu na Artur Alvim e pegou essa perua. É uma perua que a gente já conhece. Eu sentei entre eles e sentamos bem no fundo. Ficamos conversando, zuando, falando de como tinha sido boa a balada. Estava a maior alegria. Aí minha prima ficou zuando a gente falando que ela estava “de vela”. Aí brinquei com ela: “Ah, quer ver você ficar de vela agora?”. E aí comecei a beijar esse rapaz, mas meu nariz começou a sangrar. Aí a gente ficou falando sobre isso, sobre como meu nariz não sangrava faz tempo, mas que piorava com esse tempo seco. Aí ele ficava estancando o sangue e eu dei uns selinhos nele para agradecer o cuidado. Em dado momento, o motorista parou com tudo e falou: “Desce da minha perua agora”. Aí a gente falou: “A gente não vai descer. A gente pagou por isso”. Aí ele levantou e eu falei: “Não vou arrumar encrenca com ninguém, não”. Me despedi da minha prima, desse rapaz e desci.

Foi aí que começaram as agressões?

Marcello: Assim que eu cheguei na calçada. Eu não imaginei que ele ia fazer isso. Eu não lembro muito dos socos. Acho que para o meu cérebro foi um baque tão grande... eu só lembro de eu falando para ele: “Qual é a necessidade disso?”. Então ele voltou e simplesmente foi embora. Pra mim, tinha sido só um soco e já era. Mas minha prima e o rapaz desceram e eu falava: “Gente, tá tudo bem comigo”. Mas aí tinha muito sangue, começou a sair muito sangue do meu nariz, meus olhos incharam e eu não conseguia ver nada. Aí veio uma outra lotação, da mesma lotação, e o motorista parou perguntando o que tinha acontecido, falou que ia deixar a gente no posto policial. Ele deixou a gente lá sem nem precisar ser em um ponto. Aí eu entrei ali, conversei com os policiais e ele falaram que eu tinha que ir pro hospital. O corpo ainda estava quente e eu disse que não precisava. Mas eles levaram a gente na viatura e aí eu senti muita dor. No hospital, eu já fui na cadeira de rodas. Eu não estava nem conseguindo abrir o olho mais.

Você já tinha passado por algo parecido com isso?

Marcello: Eu nunca tinha passado por isso. As pessoas que tinham intimidade comigo nunca chegaram a brincar comigo. Eu nunca sofri alguma agressão na minha vida. Eu sempre fui pelo diálogo. Foi um choque muito grande. É triste de imaginar. Não só pelo fato do motivo, mas pela atitude e pela violência. Nenhuma violência justifica.

Ele falou algo homofóbico para você?

Marcello: Ele não falou nenhuma palavra pejorativa, mas a gente percebeu pelo olhar dele. Só pelo fato de nós estarmos em três e ele mandar só nós dois descer já mostra. E eu desci da lotação. Tudo ocorreu fora da lotação e eu estava de mãos levantadas.

O que você quer que aconteça com o agressor? Qual a pena que acha que ele deve ter?

Marcello: Eu não quero nada mais que a justiça. A gente já correu atrás, já fez boletim de ocorrência. Agora eu quero que a justiça seja feita. Eu só quero que ele seja penalizado pelo o que ele fez, que ele arque com as consequências. Passar impune não é correto. A cada dia mais a gente vê que as pessoas estão intolerantes…

Como você está?

Marcello: Eu estou com o rosto ainda quebrado. Meu nariz está quebrado, eu estou com os dois olhos inchados, ainda roxos.... tem uma parte da testa que está inchada também, que quebrou um ossinho. Está irreconhecível a pessoa que estou. Ainda não sei quando vai ser essa cirurgia, quando vai ter vaga... mas agora estou tomando muito medicamento. Mas a dor psicológica é muito maior. Eu fiz os exames agora e na quarta os médicos vão ver se estou pronto para fazer essa cirurgia e se tem vaga.

Como você vê a questão de ter que falar sobre algo tão íntimo desta forma?

Marcello: É algo que eu nem sei nem explicar. É algo muito íntimo meu. Eu tinha que ter um momento meu. Eu queria expor [que sou gay] de uma forma bonita. Eu queria expor em um momento especial. Eu fui violado.

O que você pretende fazer daqui pra frente? Sente que isso foi um chamado para a causa?

Marcello: Eu não sei se eu tenho um chamado pra isso, mas o fato de eu ter falado teve resultados positivos. Tenho recebido muita solidariedade, muito amor. O caso está como está hoje por causa do choque com essa tragédia. Muitas pessoas se colocaram no meu lugar. Muitas pessoas sabem que é assim nosso dia a dia. Não é um caso isolado. Todos nós estamos propensos a passar por isso um dia. As pessoas precisam aprender a respeitar.

O que você pretende fazer depois de se recuperar?

Marcello: Eu não sei muito ainda. É muito novo o que está acontecendo. É muita informação. Eu estou feliz pela repercussão, mas eu estou muito vulnerável ainda. O que eu quero é me recompor, criar mais coragem, voltar para a rotina de antes… quero poder incentivar as pessoas a serem o que elas querem ser. Se alguém quiser me chamar para participar de alguma coisa, claro que vou participar. É bom saber que existem pessoas que estão ao lado da gente.