Atos anti-Bolsonaro puxados pela esquerda têm adesões tímidas e nova ausência de Lula

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SÃO PAULO, SP, 02.10.2021: BOLSONARO-PROTESTOS - Manifestantes voltam às ruas neste sábado (2) em protestos pelo impeachment do presidente Jair Bolsonaro. Na foto, manifestação na Avenida Paulista. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)
SÃO PAULO, SP, 02.10.2021: BOLSONARO-PROTESTOS - Manifestantes voltam às ruas neste sábado (2) em protestos pelo impeachment do presidente Jair Bolsonaro. Na foto, manifestação na Avenida Paulista. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

SÃO PAULO, SP, RIO DE JANEIRO, RJ, BRASÍLIA, DF, E BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - As manifestações pelo impeachment do presidente Jair Bolsonaro em São Paulo e diversas cidades pelo país, neste sábado (2), foram lideradas por movimentos e partidos de esquerda e contaram com adesões tímidas à direita, apesar dos esforços de organizadores para que os atos tivessem amplitude ideológica.

Estiveram ausentes tanto presidenciáveis da chamada terceira via como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nome que lidera a disputa para 2022 e que foi exaltado pelos manifestantes nas ruas, mas até o momento não compareceu a um protesto da Campanha Nacional Fora Bolsonaro.

O ato na avenida Paulista reuniu 8.000 pessoas, segundo estimativa da Secretaria de Segurança Pública do Governo de São Paulo, pouco acima dos 6.000 participantes medidos no ato de 12 de setembro, promovido pela direita, mas bem abaixo dos 125 mil estimados no protesto bolsonarista do 7 de Setembro —todos ocorridos na avenida Paulista.

Os organizadores estimaram 100 mil pessoas em São Paulo e um total de 700 mil no país e no exterior. Foram contabilizados 314 atos em 304 cidades em 18 países.

Nas diversas capitais do país, a crise econômica foi lembrada e dividiu espaço com o impeachment de Bolsonaro nos cartazes. Em São Paulo, um botijão inflável de gás de cozinha exibiu o preço de R$ 125 em frente ao Masp.

No Rio de Janeiro, Fortaleza, Recife e Salvador, manifestantes empunharam faixas com menções à inflação, à fome e ao desemprego.

Em São Paulo, onde os organizadores concentram esforços para exibir uma versão nacional da manifestação, apenas Ciro Gomes (PDT) compareceu entre os pré-candidatos ao Planalto. Mais cedo, ele esteve no ato realizado no centro do Rio de Janeiro.

A dificuldade em furar a bolha de esquerda petista e promover um ato amplo ficou evidente pelas vaias a Ciro durante sua fala na avenida Paulista. O pedetista deixou o local com seu carro sob ataques de pedaços de pau.

No palco, ao ser vaiado, Ciro afirmou que "meia dúzia de bandidos travestidos de esquerda acham-se donos da verdade". "O povo brasileiro é maior do que o fascismo de vermelho ou de verde e amarelo."

Ciro, que tem sido crítico ao PT, defendeu o impeachment de Bolsonaro e disse que a medida é necessária para evitar um golpe. Seus apoiadores aplaudiam, enquanto os opositores vaiavam e xingavam —chegou a haver uma briga entre os manifestantes.

Em seu discurso no Rio, Ciro pediu união contra Bolsonaro e recebeu tanto aplausos como gritos contrários.

Lula mais uma vez optou por não comparecer. Segundo interlocutores, o ex-presidente pretendia evitar dar um tom eleitoral aos atos, além de demonstrar preocupação com aglomeração em meio à pandemia do coronavírus —o petista tem 75 anos.

Líderes da esquerda alinhados a Lula, como Guilherme Boulos (PSOL) e Fernando Haddad (PT), que pretendem se candidatar ao Governo de São Paulo, foram aplaudidos pelo público.

"A gente não pode recuar. Depois do dia de hoje, é momento de avançar, e não de recuar", afirmou Boulos.

"Não vamos nos iludir por cartinha escrita por Bolsonaro com Michel Temer [MDB]", disse, em referência ao texto divulgado pelo presidente após os atos de raiz golpista de 7 de Setembro.

Haddad, ex-prefeito de São Paulo, afirmou que “essa desgraça de governo tem que acabar antes da eleição, porque o povo não aguenta mais".

"Estamos aqui porque o povo quer comer e o Bolsonaro não deixa. Estamos aqui porque o povo quer estudar e o Bolsonaro não deixa. Estamos aqui porque o povo quer trabalhar e o Bolsonaro não deixa", afirmou.

O discurso de Haddad foi feito pouco depois de Ciro ter sido vaiado. O petista abriu sua fala dizendo que os manifestantes "não podem perder de vista" o que estão fazendo nas ruas, que é se manifestar contra o presidente.

Ao deixar o local, Haddad disse que a tentativa de agressão a Ciro foi "lamentável".

Mais cedo, ao discursar no palco, Antonio Carlos, dirigente nacional do PCO, defendeu Lula e chamou Ciro de "canalha". A fala irritou os militantes pró-Ciro, que xingaram o PCO em coro.

Logo após a fala, organizadores do protesto tomaram o microfone e voltaram a defender a união entre pessoas de diversas ideologias contra Bolsonaro.

Na noite deste sábado, Ciro divulgou um vídeo afirmando que foi às ruas “sabendo, de antemão, que poderia enfrentar a fúria e a deselegância de alguns radicais”.

“Os radicais, seja da esquerda, seja da direita, nunca me intimidaram. E nunca me intimidarão. [...] As ruas não têm dono. E a democracia não tem senhores”, afirmou o pedetista, ressaltando que a política ensina ser preciso união contra um inimigo coletivo.

“Esta luta está apenas no começo e ela será mais rapidamente vitoriosa quando todos aprenderem quem é o verdadeiro inimigo e quem é o verdadeiro alvo. Para defender a democracia, voltarei às ruas tantas vezes seja necessário e ao lado dos que queiram sinceramente se livrar de vez de Bolsonaro e de todo atraso que ele representa.”

A rodada de protestos contra Bolsonaro neste sábado foi a sexta organizada majoritariamente pela esquerda desde maio. Como nas edições anteriores, predominou a cor vermelha, mas, desta vez, houve algumas adesões de políticos da direita —antes basicamente limitadas a alas do PSDB, PSL, Cidadania e Solidariedade.

Depois dos atos de Bolsonaro no 7 de Setembro, tanto a oposição à direita como à esquerda buscaram expandir o escopo ideológico das suas ações e conseguiram alguma diversidade —porém longe de promover uma “reedição das Diretas Jᔠou de fazer frente à multidão verde e amarela na avenida Paulista no feriado da Independência.

Entidades que organizaram os atos deste sábado ressaltaram sua importância pela união de políticos de 21 partidos, mas alguns representantes, devido a outros compromissos pessoais, enviaram apenas vídeos exibidos no palco em frente ao Masp —o que os poupou de vaias.

O deputado Paulinho da Força (SP), presidente do Solidariedade, por exemplo, foi chamado de golpista por alguns. Ele apoiou o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016.

Militantes atribuíram os gritos a integrantes do PCO, que abertamente foram contra a presença de críticos de Lula na manifestação.

Em sua fala, Paulinho criticou o crescimento do desemprego e disse que é preciso "se livrar" de Bolsonaro.

O vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (PL-AM), a senadora Simone Tebet (MDB-MS), o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), e o ex-senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) enviaram vídeos em que saúdam a união de forças diferentes para combater Bolsonaro.

Já o protesto pelo impeachment organizado por MBL (Movimento Brasil Livre) e VPR (Vem Pra Rua), no último dia 12, não teve a adesão do PT ou de movimentos sociais próximos ao petismo. Houve participação de políticos do PDT, PSB e PSOL e, sobretudo, de nomes da terceira via —que foram ausências neste sábado.

Na ocasião, também lida como uma resposta ao dia 7 bolsonarista, estiveram presentes, em São Paulo, Ciro, Tebet, João Doria (PSDB), Luiz Henrique Mandetta (DEM) e Alessandro Vieira (Cidadania-SE) entre os presidenciáveis, além de João Amoêdo (Novo). O governador do Rio Grande do Sul, também presidenciável, Eduardo Leite (PSDB), participou do ato em Porto Alegre.

O próprio MBL chegou a participar de reuniões de organização dos atos deste sábado, mas decidiu não convocar sua militância.

Um dos principais organizadores das manifestações, Raimundo Bonfim, da Central de Movimentos Populares, afirmou que a mobilização foi positiva e destacou a dificuldade de realizar seis atos em pouco mais de quatro meses em meio à pandemia.

Ele admitiu que nomes da direita que eram esperados não compareceram e afirmou ser preciso continuar a superar divergências e intensificar a pressão popular pelo impeachment.

“Ainda que timidamente, os atos foram um pouco mais amplos do que as outras cinco mobilizações. Hoje, mais uma vez, a luta passou uma mensagem para a sociedade de que é possível. Foi uma demonstração de que a população não está disposta a esperar 2022 para derrotar Bolsonaro nas urnas”, afirmou.

Ele afirma que “um sentimento de revolta” surge não só dos ataques à democracia, mas da crise econômica. Bonfim observou ainda que, no lugar da vacinação, já avançada no país, a questão social apareceu com mais força.

Sem uma união plena de forças de esquerda e de direita tanto no dia 12 de setembro como neste sábado, além de um público menor do que o do 7 de Setembro bolsonarista nas duas ocasiões, aumentam as expectativas sobre o dia 15 de novembro.

No feriado da Proclamação da República, a oposição promete voltar às ruas. A tentativa será a de promover uma unificação mais simbólica, como foram as Diretas Já.

Os atos deste sábado foram organizados ou tiveram a participação da Campanha Nacional Fora Bolsonaro (fórum de entidades majoritariamente de esquerda), além de Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, Direitos Já, Movimento Acredito, centrais sindicais, UNE, Coalizão Negra por Direitos, Somos 70%, MTST, MST, Comissão Arns, Uneafro e Central de Movimentos Populares.

Tabata Amaral (PSB-SP), Marcelo Freixo (PSB-RJ), Orlando Silva (PC do B-SP), Carlos Siqueira (PSB), Gleisi Hoffmann (PT), Carlos Lupi (PDT), Manuela D’Ávila (PC do B) e Fernando Alfredo (PSDB) foram alguns dos políticos e dirigentes partidários presentes na avenida Paulista, que reuniu representantes ainda de siglas menores de esquerda, como PCB, PCO, UP e PSTU.

O presidente da Comissão Arns, José Carlos Dias, e a presidente de honra, Margarida Genevois, participaram do ato na avenida Paulista, onde empunharam uma faixa pelos direitos humanos.

Em Brasília, no fim da tarde, os manifestantes chegaram a ocupar as seis faixas da Esplanada enquanto caminhavam do Museu Nacional em direção ao Congresso.

O ato teve a adesão de movimentos da esquerda, como sindicatos, organizações e estudantis e partidos como PT, PSB, PSOL, PC do B e PDT.

Além de carregarem faixas com críticas ao governo, os manifestantes inflaram um botijão de gás e um saco de arroz com a imagem do ministro Paulo Guedes (Economia) para reclamar do preço dos combustíveis e dos alimentos. Também houve frases contra a reforma administrativa e a privatização dos Correios.

Na capital federal, a adesão foi menor se comparada aos atos de 7 de Setembro a favor de Bolsonaro, mas foi maior que a organizada pelo MBL. A Polícia não divulga estimativa de público.

No Rio, a agenda de reformas e privatizações também foi alvo de crítica. Ao lado do palco na Cinelândia, havia um boneco inflável gigante de Lula e outro de um carteiro, contrário à venda dos Correios.

Bandeiras de partidos políticos ligados à esquerda e movimentos sociais dominaram o ato. Também foi possível observar o verde e amarelo de bandeiras do Brasil, usado em manifestações bolsonaristas.

Em Belo Horizonte, houve passeata pela região centro-sul, com integrantes do MST à frente.

​Apesar da expectativa de que a manifestação atraísse representantes de centro e centro-direita, a manifestação foi pela presença de partidos da esquerda como o PCdoB, PSOL e PT.

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