Atos golpistas: invasão foi resultado de falhas em série, dizem especialistas em segurança pública

As falhas operacionais das forças de segurança há duas semanas em Brasília são fruto de uma sucessão de erros de planejamento que, na opinião de especialistas de segurança pública, deve motivar alterações nos protocolos adotados atualmente. Entre as principais falhas está a desarticulação entre as polícias dos diferentes Poderes, que subestimaram alertas das áreas de inteligência.

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A pedido do GLOBO, esses especialistas analisaram vídeos que mostram a ação — ou omissão — da polícia ante os manifestantes golpistas, além dos depoimentos de autoridades e presos pelo vandalismo.

Para Cássio Thyone Rosa, presidente do Conselho de Administração do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o “policiamento que tínhamos até hoje vinha se mostrando suficiente”. A partir de agora, contudo, os órgãos terão que rever suas estratégias.

— Depois desse momento de crise, esse evento terá de ser analisado e estudado, para que aprendamos com os erros e mudemos o protocolo, se necessário. Toda doutrina de prevenção está baseada na alimentação de um processo para evitar a repetição.

Cássio Thione lembra que Brasília é palco de manifestações há décadas, e o aparato de segurança pública sempre esteve preparado para conter atos. Se já houve manifestações com até 200 mil pessoas, como uma de proporção menor deu tão errado? Thyrone Rosa questiona a comunicação da intenção de realizar a manifestação à Secretaria de Segurança Pública, exigência para qualquer ato na capital.

A Secretaria de Segurança Pública do DF deveria ter feito um planejamento operacional e repassado para suas unidades policiais determinando como seria a ação no dia, explica o especialista. Ele crê ser impensável que a inteligência não tenha detectado o grau de ameaça, já que a chegada de centenas de ônibus à capital era só “a ponta do iceberg”.

— Houve uma falha de planejamento evidente. Se eu coloco um número insuficiente de policiais, corro um risco de que a barreira de segurança seja transposta rapidamente — disse ele.

— Não tinha tropa especializada, escudos, cães, blindado, não tinha nada. E o número de policiais era ínfimo. Bastou um grupo radicalizar que eles entraram.

Para Thyone Rosa, os policiais destacados não eram os mais indicados: eram principalmente agentes que fazem monitoramento nas ruas, e não de batalhões especializados. Um exemplo foi o policial que acabou derrubado do cavalo no meio da multidão.

— Um policial de choque ou cavalaria nunca se isola: ele não pode entrar na multidão sozinho. Ver policiais tirando selfie durante a ação mostra o despreparo— disse José Vicente da Silva Filho, coronel reformado da PM-SP e ex-secretário nacional de segurança.

O número insuficiente de policiais para conter a turba foi agravado pela falha no planejamento. José Eduardo Pereira, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), disse em depoimento ter 40 homens para a segurança do Planalto. Mas o jornal “O Estado de S. Paulo” revelou que o GSI dispensou parte do efetivo na véspera.

Welliton Caixeta Maciel, pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Violência e Segurança da UnB, aponta que há muito o que se esclarecer sobre a participação de cada força de segurança dos Poderes:

— Houve alguma intenção ao não empregar a quantidade suficiente de agentes e não haver uma estratégia conjunta ? Faltou plano, foi uma ação desarticulada. Protocolos existem e devem der revistos.

Para ele, o comportamento da PM foi omisso, pelo que mostraram as imagens, onde policiais tiravam selfies, filmavam a baderna e até tomavam água de coco. A seu ver, há necessidade de investigação minuciosa.

O plano de ação de como os policiais devem se portar geralmente é repassado no briefing que a Secretaria de Segurança Pública faz antes da manifestação. Via de regra, segundo os especialistas, não há nenhum tipo de orientação para “separar” manifestantes mais pacíficos dos mais radicais — o que põe pressão para investigar a suporta facilitação do acesso a áreas sensíveis do Congresso e indicação de saídas no Planalto.

— Em gestão de multidões, você tenta controlar a horda e organizar a dispersão, não é correr atrás para prender — diz Silva Filho, o ex-secretário de Segurança Pública.