Atos pró-governo mostraram a força ou o desespero de Bolsonaro?

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SAO PAULO, BRAZIL - SEPTEMBER 07: Supporters of President of Brazil Jair Bolsonaro gather as they wave flags during a demonstration during Brazil's Independence Day at Paulista Avenue on September 07, 2021 in Sao Paulo, Brazil. Brazilians have taken the streets as they commemorate their Independence Day to show both support and rejection for Jair Bolsonaro's administration. (Photo by Cristina Szucinski/Anadolu Agency via Getty Images)
Fã de Bolsonaro mostra apoio ao presidente durante ato em SP. Foto: Cristina Szucinski/Anadolu Agency (via Getty Images)

No calor das manifestações pró-Bolsonaro de Sete de Setembro, muita gente correu para cravar perspectivas distintas, a depender de onde se olha, sobre o futuro do governo após a ameaça explícita do presidente que promete ignorar qualquer ordem de Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal que tem feito o entorno mais radical do bolsonarismo dançar no miudinho.

A primeira análise tirada a fórceps veio do próprio presidente: as ruas deram a ele o recado, o endosso e o apoio mais do que suficiente para, a partir de agora, agir como bem quiser, e não como manda a lei e o compromisso, assumido na posse, com a Constituição.

O que, para uns, foi uma demonstração de força, para outros foi um ato de desespero. Houve quem cravasse que o governo Bolsonaro acabou, que ele trocou o plano de governo por um projeto de poder, e que este projeto envolve o emparedamento improvável de outros Poderes e de quem mais estiver no seu caminho.

Acabar, como se viu no dia 8, o governo não acabou.

Fosse assim, ao menos parte dos ministros que embarcaram com ele já teriam passado no RH da firma e entregado seus crachás. Até o momento em que escrevo, isso não aconteceu.

O argumento é que o governo que ele prometeu montar, e chegou a dar o pontapé inicial no longínquo 2019, já não existe; este que aí está seria só um arremedo composto por quem agora está disposto a ir para o tudo ou nada.

Mas nem isso é exatamente novo. A equipe como foi montada se desintegrou ao longo do segundo ano de governo. A baixa mais simbólica foi a de Sérgio Moro, que selou definitivamente o divórcio do ex-capitão com a Lava Jato, espécie de mola propulsora de onde saltou em direção ao Planalto.

Outro chavão emitido sem moderação ao longo do dia é que Bolsonaro está isolado. A tese só reforça o argumento de seus apoiadores, segundo quem o grosso da imprensa e dos formadores de opinião vendem uma realidade paralela. Ora, como pode estar isolado um presidente que acaba de levar uma multidão para a principal avenida do país?

A pergunta leva a outras indagações. A principal delas é em relação ao número de pessoas que no feriado do Dia da Independência vestiram verde e amarelo e gritaram que estão com Bolsonaro ainda que ele pular do precipício. Os protestos do dia 12, organizados pela oposição, podem ser maior? Podem. Mas isso não apaga o fato de que Bolsonaro é ainda capaz de mobilizar seus apoiadores mais fiéis. E eles são hoje 25% do eleitorado.

O que dá para fazer com isso são outros 500.

Às vésperas da manifestação, coalhada aqui e ali com faixas e cartazes de teor golpista, passou longe de ser infundado o temor de que a mobilização seria o início, e não um ato com hora para acabar, de algo prestes a explodir. 

O ato em Brasília, neste sentido, tinha um peso ainda maior do que o da Paulista. Houve, de fato, quem tenha ido até a capital federal para fincar uma bandeira do bolsonarismo no cume dos prédios do Supremo e das torres do Congresso. Isso não aconteceu. E só poderia acontecer se as forças de segurança escaladas para conter a revolta engrossasse a marcha e anunciasse que, juntos, eles só sairiam de lá com a cabeça de Alexandre de Moraes e outros traidores da pátria, na visão deles, na bandeja.

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Seria uma vitória de Pirro. Bolsonaro e seus subordinados mostraram até aqui que eles só são bons de serviço quando se trata de criar inimigos. Ainda que conseguisse tirar Alexandre de Moraes do caminho, nada garante que no feriado de 15 de novembro ou mesmo antes o presidente não chamaria um novo ato para mirar em outro algoz. Longe dos apoiadores anônimos, as autoridades que hesitam em dizer “eu autorizo” sabem que esse inimigo pode ser eles amanhã.

Para quem não se lembra, até pouco tempo as ruas estavam mobilizadas para pedir a saída de Rodrigo Maia do comando da Câmara dos Deputados. Maia deixou o posto há mais de seis meses. Bolsonaro ganhou a queda-de-braço ao instalar em seu lugar um aliado estratégico: Arthur Lira (PP-AL), deputado que hoje tem as chaves do cofre e o mapeamento da nomeações oficiais. 

O governo seguiu sem rumo. 

Não à toa em nenhum momento de suas duas falas em tom de ameaça Bolsonaro abordou qualquer plano para combater o desemprego, a crise econômica, o repique da inflação, a alta do dólar, fortalecer o sistema público de saúde e transformá-lo numa grande parede de contenção de futuras ondas pandêmicas.

Nem o mais fiel apoiador do ex-capitão acredita que tudo isso será construído com a simples remoção de Alexandre de Moraes do caminho.

Esse enfrentamento o Senado já avisou que não topa. Como, antes, a Câmara não topou a tese de que, sem voto impresso, não haverá eleições limpas em 2022.

Bolsonaro insiste nas duas pautas. A ameaça mais explícita é que, se os ex-colegas do Congresso não embarcarem nessa, ele mesmo ditará os rumos. Para isso vai ele precisará trafegar em alguns atalhos que levam aos crimes de responsabilidade previstos em lei.

Há, de fato, um impasse ali. Ou ele cumpre a promessa, e manda uma banana para qualquer ministro do Supremo que hoje ou amanhã mandar a polícia enquadrar o grupo, ou sua fala entrará para a história como a maior bravata já dita em público por um líder político.

Mas nem esse possível recuo aparentemente é capaz de mover a disposição de seus apoiadores. Não se imagina que amanhã os que foram às ruas à espera da revolução lotem as vias públicas novamente para dizer “presidente, eu te autorizei e você me decepcionou”.

Quem viu no Dia da Independência um líder fora de si, num grau nunca antes visto ou imaginado, é porque a memória curta impede de buscar no passado recente a declaração feita a uma semana das eleições, quando, em um vídeo transmitido na mesma Avenida Paulista, ele prometeu mandar adversários para a “ponta da praia”, local onde opositores eram executados na ditadura, e jurou que no novo país prestes a nascer eles não teriam vez e as mordomias seriam cortadas em uma limpeza “nunca vista na história do Brasil”.

Bolsonaro ainda é aquele holograma do telão. O inimigo só mudou de nome. Saiu a “petralhada” e entraram o STF, os governadores, prefeitos, ex-ministros. A diferença é que aquele holograma, uma vez eleito, em vez de cantar “se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”, chamou para a boquinha os próceres do centrão, alguns dos quais o chamavam de fascista ainda outro dia, caso de Ciro Nogueira (PP-PI), seu atual ministro da Casa Civil.

Do chão das manifestações, o símbolo do novo Brasil prometido por Bolsonaro se converteu na vergonhosa tietagem a Fabrício de Queiroz, ex-PM e ex-assessor da família acusado de ser o operador do escândalo das rachadinhas —farto de provas, materiais e atestados de movimentações atípicas. Uma pica do tamanho de um cometa, para ficar na descrição feita pelo próprio.

Alguns deles levaram na camisa a defesa de gente como Roberto Jefferson, comandante do PTB preso e condenado por corrupção e que, uma vez solto, passou a vocalizar armado as ameaças golpistas do presidente. Eis a metamorfose do cidadão de bem: um ex-mensaleiro e ex-integrante da tropa de choque de Fernando Collor. Que estava, aliás, ao lado de Bolsonaro no ato em Brasília.

Como um tanque blindado trôpego que cospe fumaça, Bolsonaro levou o retrato atual de seu governo para delírio dos fãs, que acreditam em qualquer coisa, e o arrepio de quem tem um compromisso mínimo com o país. O de Bolsonaro é só destruição e falatório, mas isso não significa que ele está liquidado.

Líderes dos partidos de centro, fundamentais para a queda de Dilma Rousseff há cinco anos, já falam abertamente em impeachment. Mas não basta querer. É preciso que muito mais gente queira. A começar pelo vice, Hamilton Mourão, até aqui uma figura dúbia na escalada da tensão. Outra peça-chave é Arthur Lira. Outra ainda é Augusto Aras, que acaba de ser reconduzido para a Procuradoria Geral da República.

Quem souber o que fazer com a multidão em fúria que foi às ruas no Dia da Independência estará mentindo. No feriado, eles voltaram para casa após a mise-en-scene do capitão em Brasília. Podem até retomar os atos em caso de segunda ordem. Terão forças para carregar um capitão politicamente enfraquecido, mas popularmente não isolado, menos ainda liquidado, até o fim do mandato?

Difícil. Como é difícil, para quem agora mostra disposição em apostar todas as cartas no impeachment, buscar forças em um país fragmentado, cheio de hematomas do processo do último impeachment, para adiantar em alguns meses o fim de um governo emparedado entre a quase absoluta falta de ideias e a disposição real para a guerra de seus apoiadores mais apaixonados.

Bolsonaro tem pouco tempo para encontrar um partido e dizer que está no jogo em 2022. Se não encontrar guarida para esse projeto, sob o risco de os dirigentes da futura legenda serem fagocitados por ele e seu grupo, o tal do tudo ou nada estará mais nítido. Ou será uma partida perdida por W.O ou um jogo com outras regras. Parte da torcida diz que topa. Falta combinar com os árbitros e com a maioria do país que já entendeu que dali não sairá mais nada que preste.

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