Atrás nas urnas, Sanders supera Biden no apoio de artistas

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Se tudo der errado na corrida democrata para "Bernie Sanders -como as previsões indicam que dará-, o pré-candidato progressista de 78 anos pode largar a política para encontrar uma nova carreira nas artes.

Com boa presença de palco e energia para aguentar uma agenda intensa de compromissos, o senador pelo estado de Vermont bem poderia investir em sua faceta musical como cantor folk.

A mudança não seria exatamente uma novidade na vida do pré-candidato democrata: Sanders já lançou um disco, em 1987, quando ainda era prefeito da pequena cidade de Burlington.

"We Shall Overcome" não era bem um álbum apenas de Sanders, mas de Sanders e outros 30 artistas de Vermont, algo como um "We Are the World" com o hoje senador no lugar de Michael Jackson.

Mas o que se manteve daquela época para os dias atuais é a capacidade de reunir artistas ao seu redor.

Impopular entre representantes do establishment do Partido Democrata, ele atropela Joe Biden quando o assunto é apoio do meio cultural.

Trata-se de um cenário inverso, uma vez que o ex-vice-presidente, favorito a conquistar a chance de enfrentar o presidente Donald Trump em novembro, acumula o respaldo de quase todos os democratas desistentes no decorrer das primárias.

Ou seja, de um lado a senadora Amy Klobuchar, do outro, a banda de rock Strokes. De um lado, o ex-prefeito Pete Buttigieg, do outro, a vencedora do Oscar pela atuação em "Os Últimos Passos de um Homem", Susan Sarandon.

Biden também tem suas celebridades, como a atriz Mia Farrow e o escritor George R. R. Martin, autor de "As Crônicas de Gelo e Fogo", que deu origem à série de TV "Game of Thrones". Mas a quantidade de artistas que apoiam cada um dos pré-candidatos é incomparável.

Só o site Artists4Bernie (artistas por Bernie, em português), por exemplo, reúne hoje 3.756 assinaturas. A quantidade de bandas que querem Sanders como presidente dos Estados Unidos é tão grande que até foi criado o termo "Bernchella", referência ao festival de música na Califórnia.

Na carta para formalizar apoio ao senador, os signatários afirmam que produtores culturais são em grande parte trabalhadores precários, "lutando sem benefícios, segurança financeira e ao capricho do mercado".

A arte seria então uma área mais inclinada a atrair pessoas "que já são privilegiadas às custas dos menos privilegiados e, muitas vezes, mais talentosos", diz o texto.

Assim, argumentam que propostas como o Medicare para Todos, um sistema de saúde universal e gratuito como o SUS, além das promessas de cancelamento de dívidas estudantis e de universidade pública gratuita, criariam um ambiente cultural mais igualitário.

A maioria dos que assinaram a carta é pouco conhecida, mas chama a atenção a chancela de nomes como a celebrada fotógrafa Nan Goldin, a cantora M.I.A e a ex-baixista da banda Sonic Youth, Kim Gordon.

Gordon, por exemplo, chegou a gravar um divertido vídeo no qual incentiva eleitores a apoiar Sanders na Super Terça, etapa mais importante das prévias democratas. Como sabemos, não deu certo.

O esforço da musa indie, no entanto, mostra que, assim como os apoiadores populares do senador, as celebridades abraçam a campanha do progressista com fervor.

Entram nessa lista o ex-White Stripes Jack White, o grupo de hip-hop Public Enemy e os Strokes, que se apresentaram em comícios de Sanders --no caso da banda de rock, até a polícia chegar, como aconteceu em New Hampshire.

Para os rappers, apoiar o pré-candidato criou um racha. Flavor Flav, um dos fundadores da banda, desentendeu-se com o líder Chuck D após o anúncio de que ele faria um show -sob o nome Public Enemy Radio- num evento de campanha de Sanders em Los Angeles.

A estridência de quem apoia o senador contrasta com a timidez dos cabos eleitorais de luxo do ex-vice presidente.

Além de Mia Farrow, para quem Biden "entende o que realmente faz dos EUA um país grande" e que "trará estabilidade por meio de sua experiência de vida e decência", a exuberante cantora Cher foi uma das poucas figuras famosas a apoiar o democrata favorito publicamente.

Sabe-se a partir de registros eleitorais que o casal de atores Tom Hanks e Rita Wilson doaram à campanha do democrata. Outro ator, Alec Baldwin, provavelmente o melhor imitador de Trump nos Estados Unidos, deu a entender num programa de TV que Biden é seu candidato.

Ainda que o Trump de mentira definitivamente não seja um apoiador do Trump de verdade, o presidente, por sua vez, também tem seus amigos no meio cultural. Jon Voight, outro hollywoodiano e hoje mais conhecido como pai de Angelina Jolie, é um apoiador de longa data.

Em seu Twitter, publica vídeos para defender o republicano, nos quais destaca qualidades que enxerga em Trump -sábio, homem de respeito, pai, marido, amigo- e apela a argumentos religiosos - "ele faz o que Deus quer para proteger esta nação".

Nesse grupo, junto ao ator, estão dois músicos: Kid Rock e Ted Nugent, presenças frequentes em comícios republicanos. Já o rapper Kanye West declarou apoio a Trump anos atrás, mas recuou em 2018, dizendo-se "usado" pelo presidente republicano.

Tudo isso para um ano depois voltar atrás outra vez porque "não toma decisões com base na cor".

Kanye, porém, não é o único a mudar de rumo. Clint Eastwood passou a apoiar Michael Bloomberg, um dos pré-candidatos que já desistiram da nomeação democrata, ainda que aprove "certas coisas" feitas pelo atual presidente, como disse em entrevista ao Wall Street Journal.

O diretor de "Os Imperdoáveis" e "Menina de Ouro", entre outros filmes, porém, classificou o panorama político de obsceno e disse reprovar a maneira "pouco gentil" com que Trump se comporta no Twitter.

Agora, sem um preferido na disputa, ele se junta a um batalhão de artistas que viram seus candidatos desistirem, como Gwyneth Paltrow, Michael J. Fox e Sharon Stone, apoiadores de Pete Buttigieg, John Legend e Scarlett Johansson, para quem a favorita era Elizabeth Warren.

Ficou para o próximo capítulo.