Atriz Bruna Campello lutar pela equidade de gênero no humor ao assumir programação do Rio Retrô Comedy Club, no Uptown

Um lugar capaz de levar o público de volta ao passado. Logo ao entrar, o visitante se depara com uma pequena banca de jornais e revistas, com exemplares de outras épocas. Nas paredes dos dois andares, prateleiras sustentam objetos como máquina de escrever, rádio e mimeógrafo, uma espécie de impressora arcaica, além de modelos antigos de itens como televisão, bicicleta, calculadora e piano. Chama a atenção ainda um enorme quadro em homenagem a comediantes que já se foram. Uma paródia da “Última ceia”, pintura de Leonardo da Vinci, a peça traz Chico Anysio como Jesus, acompanhado de nomes como Dercy Gonçalves, Mussum, Paulo Silvino, Zacarias e Ronald Golias.

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A decoração descrita é do Rio Retrô Comedy Club, no Uptown. Uma das primeiras casas dedicadas à comédia na cidade, com foco no stand-up, o local, que tem como um dos sócios o humorista Paulinho Serra, agora está sob a coordenação artística de uma mulher, que comanda a programação do espaço, o que pode ser considerada uma quebra de paradigma no universo do humor.

Atriz, humorista e roteirista, Bruna Campello, que assumiu este mês, já fez diversas participações em programas humorísticos da TV Globo, como “Os caras de pau” e “Zorra total”, e em novelas como “Império”, “A regra do jogo” e “Babilônia”. Além de profissional, a artista tem uma relação afetiva com o espaço. Afinal, foi onde conheceu seu marido, o também comediante Rodrigo Dionarpe, no dia da inauguração, em 5 de dezembro de 2019. Um ano depois, os dois começaram a namorar, e ela engravidou de Francisco, que hoje tem nove meses de vida e a acompanha em todos os shows.

— É revolucionário uma mulher estar não só no palco, mas idealizando as noites de uma casa como o Rio Retrô, tendo um olhar cuidadoso para as mulheres comediantes. A equidade de gênero no elenco é muito importante, e eu vou conseguir olhar para esse lado — afirma Bruna. — Nós, geralmente, somos muito preteridas nesse universo. Com frequência, os panfletos de humor anunciam cinco homens e uma mulher, por exemplo. Parece que somos cota. Muitas vezes, homens vestidos de mulher se dizem humoristas femininos. Mas humor feminino é feito por mulheres.

Seu outro objetivo à frente do espaço é fortalecer a cena da comédia stand-up no Rio, como conta:

— Muitos talentos foram para São Paulo por falta de oportunidade aqui. Quando percebi essa evasão, pensei que precisávamos nos unir e montar uma programação para reter e potencializar os artistas da cidade. E o Rio Retrô tem muita infraestrutura para o stand-up, é o aconchego da comédia carioca. Estamos no caminho da reconstrução, com uma agenda regular e uma galera boa se apresentando.

Programação inclui noites temáticas e solos femininos

A proposta de consolidar a comédia stand-up no Rio levou Bruna Campello a criar diferentes projetos no Rio Retrô. Um deles é o de noites temáticas, como “O puro suco do Rio de Janeiro”, em que os comediantes se debruçam sobre peculiaridades cariocas; “Quem vem lá”, em que os humoristas interpretam personagens; e “Experimenta”, com piadas criadas a partir de notícias que viram memes.

— O “Experimenta” acontece uma vez por mês e é uma noite para testar piadas. Uma semana antes, convido cerca de dez humoristas, sugiro quatro temas e cada um escolhe o seu para criar a sua apresentação, que é aberta ao público. O comediante ainda ganha o vídeo para divulgar nas redes sociais — explica Bruna. — Os ingressos, que custam R$ 30, neste dia saem pela metade do preço.

Outra noite temática é a “Caruso convida”, em que o ator Fernando Caruso, no ar na novela “Cara e coragem”, apresenta-se ao lado de dois comediantes convidados por ele.

— Charlie Chaplin já dizia “que um dia sem riso é um dia perdido”. Estamos vivendo tempos muito difíceis, com o preço das coisas subindo e o salário ameaçado de ser congelado. Então, ter um lugar onde podemos nos encontrar para nos divertir é muito saudável, especialmente agora que a grade da Globo está sem programas de humor. No Rio Retrô, o público vai assistir ao vivo a profissionais que também trabalham na TV — pontua Caruso.

Na noite de personagens, uma das interpretações de Paulinho Serra é a de um traficante gay. O comediante sobe ao palco também com um espetáculo de improviso.

— Eu e os outros sócios escolhemos uma mulher para a coordenação artística porque é difícil pensarmos com a cabeça delas. Há decisões que, tomadas por uma mulher, ficam muito mais acertadas. E a Bruna é uma pessoa que vive da comédia há bastante tempo. Então, espero tudo de melhor da gestão — diz Serra.

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A programação de novembro inclui três solos femininos, como o “Com todo respeito”, da comediante Ju Querido.

— No meu show, transformo situações do meu dia a dia em piadas e ponho holofotes, de forma bem humorada, em temas como machismo — conta Ju. — No início da carreira, tive dificuldade de me sentir incluída nesse universo porque, em vez de ser considerada engraçada, a mulher é sempre tida como maluca, mesmo tendo competência. Daí a importância de ter um olhar feminino comandando o humor.

A casa começou a oferecer ainda cursos na área da comédia. Criador do Comédia em Pé, o primeiro grupo de stand-up do Brasil, o ator Cláudio Torres Gonzaga, que também integra a programação da casa, ministra aulas de roteiro de humor.

— É um curso que busca dar uma base bem ampla para quem deseja montar uma esquete, um stand-up, uma série de TV ou um filme — diz Torres.

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A programação e os ingressos estão disponíveis no Sympla.

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Com 150 lugares, o Rio Retrô é um espaço intimista, onde o público tem um contato muito próximo com o comediante que se apresenta. No primeiro andar, fica um restaurante. Já o palco ocupa o segundo piso, onde a plateia pode comer enquanto assiste aos shows. Próximo à escada, um quadro estampa Paulo Gustavo. Graças ao artista, hoje se comemora o Dia Estadual do Humor, criado ano passado, na data de nascimento do humorista, 30 de outubro, em sua homenagem.

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