Atriz cega estrela peça infantil on-line com protagonista deficiente visual

Larissa Medeiros
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RIO — Bastou um amanhecer para tudo acordar diferente. Sem ventos, a música tocada pelas flautas que voavam pelo céu com a ajuda das pipas não soou mais nos ouvidos dos moradores da cidade de Ventaneira, apelidada como cidade das flautas pela atriz, bailarina e autora Moira Braga, que idealizou, escreveu e interpreta o menino Rudim na peça infantil “Ventaneira — A cidade das flautas”, com sessões on-line. O ápice da história acontece quando Paco, amigo do protagonista, percebe que Rudim é cego e o ajuda na missão de aprender a empinar pipas e construir flautas para trazer de volta o som do instrumento para Ventaneira. Como o personagem que criou, Moira, moradora de Botafogo, também não enxerga.

— Apesar de lúdica, a peça aborda a importância do respeito às diferenças e as potencialidades que existem dentro delas. O preconceito não vem conosco, nós apenas o criamos. O objetivo é refletir sobre como lidar com a deficiência. Ela não é um problema, é apenas uma das infinitas possibilidades de existência do ser humano, que precisa ser respeitada e entendida — diz Moira, que gravou o espetáculo num estúdio localizado no Jardim Botânico.

Dirigido e roteirizado por Rai Junior, antes de ganhar montagem on-line “Ventaneira” já havia sido apresentado como poema, dança, conto, peça infantil, livro e audiolivro. Segundo a atriz, o formato atual é o melhor para os recursos de audiodescrição e interpretação de libras, que foram levados para dentro da obra.

— No teatro, a audiodescrição e a libras ficam em um espaço reservado da história. O audiovisual acabou nos permitindo usar o intérprete também como personagem do enredo, dentro de uma janela, mas fazendo parte da trama — analisa.

Apesar de o enredo ser ficcional e ter sido concebido bem antes da pandemia, Moira faz um paralelo com o atual momento.

— A peça fala muito de amizade e possibilidades. Assim como na obra, os personagens precisaram se reinventar. É como se a pandemia fosse o cessar dos ventos na vida real. Mesmo na situação em que estamos hoje, precisamos tirar algo positivo disso. Se não percebermos o que precisa ser mudado, a pandemia não passará — reflete a artista.

A peça estará em cartaz hoje e amanhã, às 16h. O acesso é gratuito, pelo canal Palavra Z, no YouTube.

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