Atriz e cantora trans, A Maia será a Morte, linda e sedutora, em ‘Quanto mais vida, melhor’: ‘Precisei da ajuda de três terapeutas’

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“A Morte vem vestida pra matar! Vocês vão se apaixonar”, avisa Marcella Maia, intérprete da antagonista de “Quanto mais vida, melhor”, próxima novela inédita das sete da Globo, que estreia no próximo dia 22. A julgar pela foto acima, a primeira que mostra a personagem caracterizada, divulgada aqui com exclusividade, não restam dúvidas: além de poderosa, a Morte é bela.

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— A extensão de cabelo e as unhas compridas não são uma novidade pra mim, que estou sempre mudando de visual. Mas minhas tatuagens não couberam à personagem. Um air brush cobre os desenhos da minha pele para as gravações — conta a atriz e cantora de 30 anos, que adotou A Maia como nome artístico e faz sua estreia em novelas: — Eu já tinha participado de alguns testes na Globo. Quase entrei em “A dona do pedaço” (2019), mas não rolou porque eu era parecida fisicamente com Juliana Paes (protagonista da trama). Isso é levado em consideração numa escalação de elenco. Aí, em meio à pandemia, quando eu tinha acabado de me mudar para Lisboa, recebi uma ligação com o convite para “Quanto mais vida, melhor”. Fiquei sabendo que Fernanda Montenegro e Patricia Pillar chegaram a ser cogitadas para esse papel, mas o diretor (Allan Fiterman) viu meus trabalhos nacionais e no exterior e disse: “Tem que ser ela!”. Assim, voltei ao Brasil.

Mineira nascida na periferia de Juiz de Fora e criada em Brasília, A Maia é mulher trans. Há 11 anos, passou pela cirurgia de redesignação de gênero, na Tailândia. E há dez decidiu viver na Europa, onde já fez trabalhos badalados como modelo e atriz — desfiles nas semanas de moda de Londres e Milão, participações no filme “Mulher Maravilha” (2017) e no clipe “Like it ain’t nuttin”, da cantora americana Fergie, além da peça “Roda viva” (2018), de autoria de Chico Buarque e direção de Zé Celso Martinez Correa, estão em seu currículo.

— Meus papéis, geralmente, não têm relação com minha identidade de gênero. Esse também será assim. O fato de eu ser trans não precisa pautar o meu trabalho. Levo a atuação muito a sério e digo “não” para muitos personagens estereotipados. Acredito nesse posicionamento só quando ele é necessário, não invasivo — afirma A Maia, radicada atualmente no Rio, que se lançou na carreira musical em meados do ano passado e já tem quatro singles: "Pra Dá Dolce Bacana", "Se assuma", "Bad girl ressaca humana" e "Deu match".

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Embora a Morte tenha um peso sombrio no imaginário coletivo, ela será apresentada de maneira lúdica e leve na novela de Mauro Wilson. Quando aparecer, não dará susto em ninguém, ao contrário, se mostrará extremamente sedutora. E, graças a recursos de computação gráfica, ganhará superproporção em relação aos pobres mortais, como no filme “Querida, encolhi as crianças” (1989):

— Minha personagem é envolta em fantasia. O autor se inspirou na Malévola, da Disney, para construí-la. Eu assisti ao filme (de 2014) com Angelina Jolie várias vezes, foi meu material de estudo. Também peguei coisas de outros clássicos, como Elvira (a Rainha das Trevas, interpretada por Cassandra Peterson no longa-metragem de 1988), para tentar entender esse lugar subversivo. A gente não sabe o que é a Morte, ninguém morreu e voltou para contar. Ela pode ser tudo, início e fim. Pra mim, que sou espiritualista, representa o renascimento, o começo de um novo ciclo.

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A antagonista da história aparece no segundo capítulo, quando os personagens Guilherme (Mateus Solano), Paula (Giovanna Antonelli), Neném (Vladimir Brichta) e Flávia (Valentina Herszage) têm seus destinos cruzados por um acidente aéreo. Cara a cara com a bela dama de preto, eles são avisados de que ganharão uma segunda chance, mas que em um ano um deles fará sua passagem definitivamente. A Morte retorna, de vez em quando, para lembrá-los de que o tempo para resolverem suas vidas está correndo.

— Pessoas erram e precisam de outras chances. Eu não acredito nessa onda atual de cancelamento, sou cancelada desde que me entendo por gente. Meu coração é valente, mas, convenhamos, ninguém quer morrer, né? Estamos no país que mais mata pessoas trans. Também são mais de 600 mil mortes por Covid num governo de descaso total. É pesado. Precisei da ajuda de três terapeutas para encarar o processo de viver a Morte, mas está lindo! — entrega A Maia, que também se apoia na mãe, Luciane Cordeiro, de 49 anos: — Hoje, somos melhores amigas. Ela é professora e psicóloga. É louco, porque minha mãe errou comigo, e agora trata de uma menina trans de 11 anos que já tentou suicídio quatro vezes. A gente se reaproximou logo depois que eu fiz minha cirurgia, aos 19. Ela cuidou de mim.

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Em setembro, a artista se viu em mais uma das várias situações traumáticas de quase-morte por que já passou: foi violentada fisicamente numa viagem a Caraíva, na Bahia. Em depoimento à Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam), contou que saía da casa de amigos, quando foi abordada por um homem, que deu tapas no rosto dela, arranhou seus seios e tentou enforcá-la.

— O que houve ali foi mais um recorte do que acontece rotineiramente quando se fala em corpos trans. O simples fato de existirmos incomoda e gera ódio em machistas, que pensam: eu não posso desejar, então vou eliminar o meu desejo. Tive medo, gatilhos da infância vieram à tona. A luta pela vida é diária. E, apesar de tudo, estou na minha melhor fase. A história de A Maia é de superação, de uma mulher trans que saiu da periferia e chegou ao elenco principal de uma novela da TV Globo — orgulha-se ela, que só lamenta a ausência de uma telespectadora muito especial, que estava ansiosa por essa vitória: — Minha querida avó Marilene faleceu aos 71 anos, em maio, e foi muito duro pra mim perdê-la. Ela me ligava sempre, perguntando: “Quando você estreia?”. E, infelizmente, se foi sem ver. Ela morava em Juiz de Fora, morreu dentro da igreja. Estava orando a Deus e foi arrebatada. Foi uma passagem bonita. Isso me deixa em paz.

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