Atrizes são presas no Irã após aparecerem em público sem hijab em apoio a protestos

As autoridades iranianas prenderam duas renomadas atrizes locais após elas manifestarem seus apoios à onda de protestos que acontecem no país desde setembro, quando a jovem Mahsa Amini, de 22 anos, morreu três dias depois de ser presa em Teerã por não usar o hijab devidamente.

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Hengameh Ghaziani, de 52 anos, conhecida pelo trabalho nos filmes "Days of life" (2012), de Parviz Sheikh Tadi, e "As simple as that" (2008), de Reza Mirkarimi, e Katayoun Riahi, premiada pelo trabalho em "The last supper" (2002), de Fereydoun Jeyrani, foram presas após aparecerem em público sem o hijab, tradicional véu preconizado pela doutrina islâmica.

Em vídeo publicado no último sábado (19), em seu perfil no Instagram, Ghaziani aparece sem a vestimenta e comenta na legenda: "Talvez esse seja meu último post. Deste momento em diante, independente do que aconteça comigo, saibam que, como sempre, estou do lado do povo do Irã até meu último respiro".

A imprensa oficial do governo do Irã confirmou a prisão das atrizes por incitar e apoiar atos violentos contra o país e por manter contato com "mídias de oposição". Riahi foi detida após dar uma entrevista sem hijab para uma emissora britânica em que manifestava apoio aos protestos locais.

Presa pela polícia da moralidade pelo uso incorreto do véu, Amini morreu em setembro. Desde então, mais de 2 mil pessoas foram acusadas, metade delas em Teerã, desde que começaram os protestos há dois meses, segundo os números do Poder Judiciário iraniano.

Apesar dos protestos que tomaram conta do país, no entanto, a ausência de partidos de oposição estruturados, sindicatos autônomos e de representação popular alternativa é um fator limitante para a mudança no regime. Para isso, seria necessário que parte dele se aliasse à reivindicação das ruas, num cenário bastante improvável dada a complexidade da estrutura de poder no país.

Histórico

O hijab está no centro da política iraniana desde antes da Revolução Islâmica, quando o país era governado pela dinastia Pahlevi. No reinado de Reza Xá Pahlevi, chefe de um golpe em 1925, as mulheres foram proibidas de usar tanto o chador, que cobre todo o corpo, quanto os lenços na cabeça. Professoras e alunas eram proibidas de frequentar as escolas com o véu, e mulheres nas ruas eram obrigadas a removê-lo, muitas vezes à força. Para o xá, que queria “modernizar” o país, o costume era considerado retrógrado, e o banimento da vestimenta era motivo de constrangimento para as mais religiosas, que também tiveram a liberdade de escolha tolhida na época.

Mais tarde, sob seu filho Mohammad Reza Pahlevi, o uso do hijab foi liberado, e muitas mulheres optaram por voltar às formas tradicionais de se vestir. O uso do véu ficou popular nos anos antes da revolução, como forma de expressão de oposição à monarquia e à ocidentalização do Irã.

Com o véu como estopim, um ponto que diferencia os protestos atuais é o fato de terem sido impulsionados por mulheres. Embora tenham uma longa história de ativismo político e mobilização no Irã, elas agora ocupam o centro de um movimento que carrega, além de outras demandas, pautas feministas.

Organizações de direitos humanos no exterior informaram que 15 mil pessoas foram detidas no contexto das manifestações, uma cifra que as autoridades iranianas negam.