ATUALIZADA - Marcelo Odebrecht presta depoimento e reafirma que Palocci era o 'Italiano'

BELA MEGALE E ESTELITA HASS CARAZZAI

BRASÍLIA, DF, E CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - O empresário Marcelo Odebrecht prestou nesta segunda-feira (10) seu primeiro depoimento à Justiça depois de fechar um acordo de delação premiada.

Herdeiro do grupo Odebrecht, ele reafirmou que o ex-ministro Antonio Palocci era o "Italiano" apontado em planilha de repasses de propina da empresa, segundo a reportagem apurou.

O empresário detalhou os mecanismos de pagamento de vantagens indevidas ao ex-ministro.

Palocci, segundo ele, era o principal interlocutor da empresa no governo do ex-presidente Lula.

Marcelo falou durante cerca de duas horas e meia ao juiz Sergio Moro, na Justiça Federal do Paraná.

A íntegra do depoimento está sob sigilo, assim como o acordo de delação premiada dos executivos da empreiteira, que ainda não foi tornado público pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

O interrogatório fez parte da ação contra Palocci, acusado de interceder em favor dos interesses da Odebrecht.

Ele foi mencionado em planilhas apreendidas na empreiteira que demonstram o pagamento de R$ 128 milhões em vantagens indevidas, segundo a denúncia.

A defesa do ex-ministro nega irregularidades.

Segundo a reportagem apurou, Marcelo ainda reafirmou que o ex-presidente Lula tinha o apelido de "amigo" em suas anotações, e mencionou o ex-ministro Guido Mantega, que apontou como sendo o "pós-Itália" na planilha apreendida pela PF.

O advogado Nabor Bulhões, que defende Marcelo Odebrecht, não quis comentar o teor da audiência na saída da Justiça Federal.

Durante o interrogatório, o juiz Sergio Moro foi informado da publicação de trechos da audiência em alguns veículos de imprensa. Ele prometeu apurar o vazamento.

Além de Marcelo, também presta depoimento nesta segunda o executivo Rogério Santos de Araújo, que era diretor da empreiteira.

Outros seis executivos e ex-diretores da Odebrecht, incluindo o patriarca Emílio Odebrecht, já foram ouvidos na mesma ação, todos delatores da Operação Lava Jato.

Devido ao sigilo, nenhum dos depoimentos foi tornado público.

A única exceção foi o depoimento de Emílio e do executivo Márcio Faria, que, por um erro no sistema da Justiça Federal, apareceram por alguns minutos na consulta eletrônica.

Na ocasião, Emílio afirmou que jamais tratou de pagamentos ilícitos com Palocci, mas "não tem dúvidas" de que ele pode ter sido um dos operadores do PT e recebido recursos em favor do partido.

Ele disse que o ex-ministro era "um homem sensato e bem informado", e que gostava de debater sobre o futuro do país com ele.

Era sua orientação, afirmou, que outros executivos da Odebrecht levassem a membros do governo "agendas de diálogo", com "contribuições daquilo que era importante para o país".

OUTRO LADO

O advogado de Palocci, José Roberto Batochio, não quis comentar o teor da audiência, sob o argumento de que ela está em segredo de Justiça.

Ele vem afirmando que o ex-ministro é inocente e que "Italiano" não se refere a Palocci, mas "é um apelido em busca de um personagem".

Em nota, o Instituto Lula afirmou: "O ex-presidente Lula teve seus sigilos fiscais e telefônicos quebrados, sua residência e de seus familiares sofreram busca e apreensão há mais de um ano, mais de cem testemunhas foram ouvidas em processos e não foi encontrado nenhum recurso indevido para o ex-presidente. Lula jamais solicitou qualquer recurso indevido para a Odebrecht ou qualquer outra empresa para qualquer fim e isso será provado na Justiça. Lula não tem nenhuma relação com qualquer planilha na qual outros possam se referir a ele como 'Amigo', que nem essa planilha nem esse apelido são de sua autoria ou do seu conhecimento, por isso não lhe cabe comentar depoimento sob sigilo de justiça vazado seletivamente e de forma ilegal".

Mantega tem negado envolvimento em irregularidades.