ATUALIZADA - Por 3 votos a 2, Supremo decide soltar José Dirceu

3 - Dirceu recebeu 'tratamento diferenciado' do STF, diz Dallagnol

LETÍCIA CASADO E JOSÉ MARQUES

BRASÍLIA, DF, E CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - O STF (Supremo Tribunal Federal) concedeu habeas corpus ao ex-ministro José Dirceu poucas horas depois de o Ministério Público Federal no Paraná apresentar nova denúncia contra o petista.

A decisão de soltar o ex-ministro, preso pela Lava Jato desde agosto de 2015, foi tomada nesta terça (2) pela Segunda Turma do tribunal por 3 votos a 2.

Votaram pela soltura Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski. Mendes classificou o gesto dos procuradores que atuam em Curitiba de uma "quase brincadeira juvenil" e disse que eles tentaram pressionar o tribunal a manter o petista preso.

Os ministros Celso de Mello e Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF, se manifestaram pela manutenção da prisão preventiva.

Caberá agora ao juiz Sergio Moro, que havia determinado a prisão preventiva, analisar quais medidas cautelares, como uso de tornozeleira eletrônica, recolhimento domiciliar e pagamento de multa, por exemplo, serão aplicadas a Dirceu.

O petista já tem duas condenações na Lava Jato, que somam 34 anos de prisão. O habeas corpus a seu favor segue tendência do STF nos últimos dias de conceder liberdade a pessoas presas sob determinação de Moro, que conduz a Lava Jato na 1ª instância.

Na semana passada, os ministros acataram recursos do ex-tesoureiro do PP João Carlos Genu e do pecuarista José Carlos Bumlai.

O ex-deputado Eduardo Cunha, preso e condenado pela Lava Jato, aguarda uma resposta do STF a um pedido de liberdade. Não há previsão de o julgamento entrar na pauta da corte, mas seus advogados apostam na soltura diante das últimas decisões.

O decreto de prisões preventivas de condenados somente em 1ª instância tem sido o principal argumento dos ministros para conceder a liberdade. Para eles, esse tipo de prisão só se justifica contra quem recebeu sentença a partir da 2ª instância.

Ao votar pela soltura de Dirceu, Dias Toffoli afirmou, por exemplo, que a prisão preventiva é a "derradeira medida a que se deve recorrer" se outras ações cautelares, como tornozeleira eletrônica, não se mostrarem adequadas.

Voto vencido, Fachin, que relata a Lava Jato no tribunal, citou precedentes para manter presos preventivos na cadeia a fim de evitar que continuem cometendo crimes.

Para o ministro, há indícios de materialidade e autoria dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro na determinação da prisão de Dirceu e, por isso, ele deveria continuar detido.

O Ministério Público Federal alegou que o petista deveria continuar preso porque "a presunção de inocência fica fragilizada pela sentença condenatória", segundo palavras do subprocurador-geral Edson Oliveira de Almeida.

'JUVENIL'

Repercutiu no julgamento o gesto dos procuradores da Lava Jato de, horas antes da sessão do Supremo, apresentar denúncia contra Dirceu sob a acusação de recebimento de R$ 2,4 milhões das empreiteiras UTC e Engevix, em troca de contratos com a Petrobras, entre 2011 e 2014, antes, durante e depois do julgamento do mensalão.

O procurador Deltan Dallagnol disse que "houve precipitação" em divulgar a acusação em razão do HC de Dirceu que seria analisado pouco depois em Brasília. O objetivo, segundo ele, era trazer à tona novos elementos, "que podem ser ou não considerados pelo Supremo".

Outras quatro pessoas também foram denunciadas, entre elas o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto. A acusação diz que houve 33 crimes de lavagem de dinheiro para permitir o recebimento das quantias por Dirceu.

"A liberdade de José Dirceu representa um grave risco à sociedade, tanto em razão da gravidade concreta dos crimes praticados, como em razão da reiteração dos crimes e ainda em função da influência que ele tem no sistema político-partidário", afirmou o procurador.

Ao dar seu voto a favor da liberdade de Dirceu, Gilmar Mendes classificou a postura dos procuradores de "quase uma brincadeira juvenil".

"São jovens que não têm a experiência institucional e a vivência institucional, e por isso fazem esse tipo de brincadeira", disse. "Se nós cedêssemos a esse tipo de pressão, nós deixaríamos de ser supremos. Curitiba passaria a ser Supremo. E nenhum juiz passaria a ser Supremo".

O advogado de Dirceu, Roberto Podval, disse que a decisão "mostrou que ele não precisava estar preso". Esse homem ficou injustamente preso por dois anos".