Áudios, protestos e investigações: a tempestade de Bolsonaro

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SAO PAULO, BRAZIL - JULY 03: People take part in a demonstration against the Brazilian President Jair Bolsonaro's handling of the COVID-19 pandemic in Sao Paulo, on July 3, 2021. Thousands of Brazilians took to the streets Saturday to protest against President Jair Bolsonaro, who faces an investigation over an allegedly corrupt Covid vaccine deal. (Photo by Cristina Szucinski/Anadolu Agency via Getty Images)
Foto: Cristina Szucinski/Anadolu Agency (via Getty Images)

Não é só um detalhe no ordenamento numérico.

Chamado de 01 pela filha e a mulher de Fabrício Queiroz, em um áudio de WhatsApp obtido pelo UOL, Jair Bolsonaro foi lançado ao topo da hierarquia de um suposto esquema de desvio de recursos públicos eufemisticamente chamado de “rachadinha”. O diminutivo esconde a gravidade da acusação.

O que se investiga é se Bolsonaro e família retinham e colocavam no bolso o salário de seus funcionários no legislativo. A suspeita, reforçada pelo áudio de uma ex-cunhada do hoje presidente — que se queixa em um dos áudios da demissão do marido por devolver apenas parte do salário combinado com o ex-capitão— coloca Bolsonaro pai no centro das suspeitas. Não é exatamente uma surpresa, mas o conjunto dos áudios é a materialidade que faltava.

Até então, um dos mantras de seus apoiadores, alguns já envergonhados pela escolha de 2018, era que eles elegeram o pai, não os filhos —como se o deputado na época fosse um disciplinador disposto a puxar a orelha dos filhos quando se desviavam do bom caminho.

Os áudios sugerem que Bolsonaro era o mentor da malcriação. Uma malcriação bancada pelo eleitor ao longo dos anos. E que, de grão em grão, daria para comprar até mansão em área nobre da capital.

A revelação mina ainda mais a imagem, artificialmente construída, de vigilante da luta anticorrupção que serviu como aditivo da campanha de Bolsonaro a presidente.

Em Brasília, fala-se abertamente da possível existência de outras gravações capazes de complicar a vida do ex-capitão.

Bolsonaro é investigado por supostamente prevaricar no estranho caso das compras das vacinas indianas. Ele foi avisado que havia pedregulho na encomenda e nada fez para evitar.

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Bolsonaro já não é o deputado do fundão da sala com uma equipe paga para que ele e os filhos nada fizessem de útil em seus tempos de parlamentares. Ele é o presidente responsável por tomar medidas que afetam diretamente a vida da população.

Já são 524 mil mortos em uma pandemia em que o país poderia ter se saído muito melhor do que se saiu.

Em guerra com estados, prefeituras, STF e parte do Congresso, o governo federal demorou a adquirir vacinas, espalhou inverdades sobre máscaras, distanciamento social e o imunizante desenvolvido por seu adversário em São Paulo, estimulou aglomerações, vendeu como milagre uma série de medicamentos sem eficácia, apostou na imunidade de rebanho e colheu novas variantes que levou compatriotas a morrerem sufocados, sem cilindro de oxigênio, em hospitais superlotados.

Não fosse o suficiente, agora se descobre que pessoas sem as qualificações mínimas foram recebidas no Planalto para propor negócios vergonhosos envolvendo aquisição de vacinas, que não tinham, e supostas propinas por dose. Foram pegos com a boca na botija e hoje se digladiam em público escancarando segredos que só surpreendem quem nunca se perguntou o que faziam Bolsonaro e família nos tempos das rachadinhas.

Mesmo os mais entusiastas apoiadores do governo teriam vergonha de dizer que por trás das patadas do ex-capitão havia um mente brilhante, pacificadora e apta ao desafio histórico a que se propôs. O despreparo do hoje presidente sobre assuntos básicos já causou espanto até em seus auxiliares mais próximos.

A partir de agora, soará cada vez mais estranho colocar honestidade e Bolsonaro na mesma frase.

Vai ver é por isso que ele tem subido o tom, ameaçado não entregar o cargo em caso de uma derrota quase certa na eleição e postado mensagens que mais confundem do que esclarecem seus seguidores inflamados.

Ganha um curso intensivo de comunicação de crise com Carlos Bolsonaro quem entender o que o presidente quis dizer com o seguinte tuíte postado no domingo à noite, quando uma reportagem do Fantástico destrinchava as mensagens de um cabo da PM envolvendo propinas no ministério da Saúde: “Vamos supor uma autoridade filmada numa cena com menores (ou com pessoas do mesmo sexo ou com traficantes) e esse alguém ("Daniel") passe a fazer chantagem ameaçando divulgar esse vídeo”.

A insanidade cansa. Já deu o que tinha que dar. É o que as ruas demonstraram, mais uma vez, no fim de semana.

É o que prometem continuar demonstrando enquanto essa insanidade, que de ingênua não tem é nada, continuar.

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