Áudios revelam como foi a ação da PM em Paraisópolis

Os moradores de Paraisópolis fizeram protestos após a ação da PM deixar nove jovens mortos (Foto: Reprodução/TV Globo)

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Para investigadores, novas evidências provam versão de policiais sobre início do massacre

  • Corregedoria vai analisar também o histórico do GPS das viaturas no dia

Áudios analisados pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) confirmam que a polícia estava perseguindo um suspeito em uma motocicleta no dia 1º de dezembro, quando uma ação da PM deixou nove jovens mortos em Paraisópolis. Para os investigadores, as gravações atestam a veracidade da versão dos policiais sobre o início da confusão.

Na gravação, obtida pela TV Globo, os agentes da Polícia Militar alertam o comando de operações (Copom) sobre a perseguição às 3h41 da madrugada. Eles avisam que o suspeito está na Rua Herbert Spencer:

"Copom, Herbert Spencer. Jogou pra cima da equipe aí", diz o chamado.

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No jargão policial, “jogar para cima” significa atirar contra os PMs. Militares que estavam nas proximidades de Paraisópolis informam onde está uma das viaturas:

“105 (número da viatura). Herbert Spencer com Ernest Renan”.

O local fica no coração de Paraisópolis. Naquele momento, os policiais se aproximavam do baile da DZ7, o pancadão mais famoso da comunidade. Menos de cinco minutos depois do início da perseguição, os policiais voltam a se comunicar com o Copom pelo rádio:

“Copom, 2 indivíduos armados numa XT 660, preta. O garupa, armado, camisa branca. Efetuou vários disparos contra as equipes".

"Passa maiores [informações] aí, a multidão está se evadindo da viatura aí. Pela Herbert Spencer, sentido Pasquale".

Eles ficaram 20 minutos sem dar notícias ao Copom – pelos áudios, não é possível saber o que aconteceu durante esse período.

Testemunhas afirmam que os militares fizeram uma ação violenta de dispersão, encurralando os jovens entre duas vielas estreiras e usando bombas de gás e balas de borracha contra eles. Os PMs, por sua vez, alegam que foram atacados por paus, pedras e garrafas arremessados pelos frequentadores do baile – e então deram início à ação que deixou nove jovens com idades entre 14 e 23 anos mortos, e outros 12 feridos.

Quando os policiais voltam a entrar em contato com o Copom, pedem que o resgate seja acionado – o que indica que o tumulto já havia acontecido e que vítimas precisavam de socorro.

“Copom, aciona o resgate na Ernest Renan com Adolfo Lutz. Teve correria, pisoteamento, pode acionar mais de um resgate para o local, QSL”

Após 28 minutos, os agentes da PM avisam a central que vão levar as vítimas para o hospital.

A Corregedoria da Polícia Militar agora analisa o histórico do GPS das viaturas no dia 1º de dezembro para entender onde elas estavam posicionadas, o que pode ajudar a entender se os veículos foram utilizados para encurralar as vítimas.

40 pessoas já foram ouvidas sobre o incidente, e os seus depoimentos foram anexados ao inquérito. No boletim de ocorrência, as nove mortes foram registradas como suspeitas provocadas em um acidente, e não como Morte Decorrente de Intervenção Policial (MDIP).