Auditor fiscal adverte quem tenta ocultar dinheiro com criptomoedas: ‘Conseguimos fazer o rastreio’

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"A operacionalização de criptomoedas é legal para quem opera e para quem investe. Pode haver a aplicação. Mas algumas pessoas acham que a transação da moeda digital pode ser ocultada, e que a Receita Federal e os órgãos fiscalizadores não conseguirão rastrear. Essa falsa percepção faz e que muitas delas (que ganham dinheiro com caixa dois, lavagem de dinheiro e transações ilegais) coloquem os montantes em criptomoedas na tentativa dessa ocultação. É equivocado. Conseguimos fazer o rastreio".

É o que adverte o auditor fiscal Michel Lopes Teodoro. Ele faz parte da força-tarefa que investiga as movimentações suspeitas da GAS Consultória, empresa do ex-garçom Glaidson Acácio dos Santos, de 38 anos, conhecido como “Faraó dos bitcoins”, que movimentou R$ 38 bilhões nos últimos seis anos.

Há pelo menos dois anos a GAS Consultória, que tem sede em Cabo Frio, está sendo investigada por movimentações suspeitas. Além dela, diversas empresas de criptomoedas no país também estão sob analise da Receita Federal.

Por estar sob sigilo de Justiça, Teodoro evitou falar sobre o caso da GAS. Mas O GLOBO apurou que, a partir de 2019, as altas transações em dinheiro vivo e em cartão de débito levantou a suspeita dos auditores, que passaram a analisar as transações feitas pelo empresário e sua mulher, a venezuelana Mirelis Yoseline Diaz Zerpa, sócia de Glaidson na GAS Consultoria.

A Polícia Federal sustenta que quase metade dos R$ 38 bilhões — R$ 16,7 bilhões —passou pelas contas do também ex-pastor apenas nos últimos 12 meses. Os dados são do Relatório de Inteligência Financeira (RIF) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), ao qual O GLOBO teve acesso. Para os investigadores, as cifras são impressionantes. O RIF aponta ainda operações de Glaidson com pelo menos 8.976 pessoas — sendo 6.249 físicas e 2.727 pessoas jurídicas. O documento consta em relatório do Ministério Público Federal (MPF) e da Polícia Federal (PF) que embasou o pedido de prisão do ex-garçom.

De acordo com o MPF, ao citar o negócio de Glaidson, “o esquema criminoso está em franca operação e cresce em proporção geométrica”. Segundo o órgão, a GAS movimentou em 2018 pouco mais de R$ 1 milhão. No ano seguinte, o aumento nas contas da empresa foi exponencial: R$ 477.648.698,03 (crédito) e R$ 476.238.943,04 (débito). Já a movimentação financeira relativa a Glaidson, dizem os procuradores, foi de R$ 294.271.823,15 (crédito) e R$ 296.417.678,95 (débito).

O auditor Teodoro destaca que “com o cenário atual, e em uma aplicação dentro de um mercado volátil, quem oferece valores exorbitantes de rendimento está fazendo algo de errado”. Por isso, segundo ele, a Receita tem como objetivo investigar crimes contra a economia e a concorrência desleal.

— Nesse cenário da economia, você não tem rendimento expressivo, principalmente de 10% ou mais. Dificilmente a pessoa terá lucro de 1% ou 2% ao mês. Se uma empresa dentro de um mercado volátil oferece esse valor, algo está errado. Isso só vai se sustentar enquanto as pessoas colocarem dinheiro (na pirâmide). Quando elas desacreditarem, esse sistema acaba ruindo e elas perderão tudo.

O auditor faz um alerta:

— O nosso papel, como órgão fiscalizador, é alertar sobre empresas que não possuem registros e estão a margem da lei. Investir em criptomoedas é legal. Mas a população tem que ficar alerta quando for investir. Muitas empresas de moedas virtuais são sérias e legais.

Teodoro explica que toda empresa que faz movimentações com moedas virtuais, ou pessoas que investem, precisam informar à Receita a origem desses recursos e como obtém a rentabilidade.

De acordo com a Receita Federal, os investigados teriam tentado sonegar Imposto de Renda. Um relatório do órgão destaca que, em 2020, “há claros indícios de sonegação fiscal por parte das empresas de Glaidson e de Mirelis: independentemente da forma de tributação, (…) a GAS pagou R$ 587.966,37 tendo uma movimentação financeira de R$ 2.060.334.707,32”. A Receita sustenta que “a renda da GAS não condiz com a alta movimentação financeira”.

O que chamou a atenção dos investigadores, em relação empresa, foram os altíssimos valores movimentadores em espécie e em débito. Em abril, a Polícia Federal apreendeu R$ 7 milhões em dinheiro vivo da empresa. O montante seria transportado por helicóptero para São Paulo.

A PF suspeita de movimentação de recursos em benefício de terceiros e possível sonegação fiscal. E, como não encontrou justificativas nem fundamentos econômicos ou legais para tal movimentação financeira analisada, cita a possibilidade de haver indícios de crime de lavagem de dinheiro.

— As empresas, obrigatoriamente, têm que informar a origem dos recursos e explicar para Receita como conseguem tal rentabilidade. É normal o crescimento patrimonial. Mas, para isso, é preciso ser declarado e, naturalmente, pagar os impostos em cima da evolução patrimonial. Quem investe e quem movimenta as criptomoedas precisam informar seus rendimentos à Receita — conclui o auditor.

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