Sem acesso à internet, alunos da rede municipal do Rio têm só 15 minutos de aulas por dia na TV

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  • Sem acesso à internet, alunos sofrem para estudar mesmo após mais de um ano de pandemia

  • RJ oferece, para quem não consegue acesso ao app, 15 minutos de videoaula por dia

  • Especialistas temem mais um "ano perdido" da educação no país

Da janela de casa, no Morro do Fubá, em Cascadura, Andreia Costa, de 41 anos, levanta o celular em busca de sinal de internet. Mãe de duas meninas, de 6 e 8 anos, matriculadas na rede municipal de ensino, ela não conseguiu acessar a plataforma de estudo remoto da prefeitura, o aplicativo Rioeduca em Casa. Sem conexão, as pequenas acompanham apenas as aulas transmitidas pelo canal da TV Escola. 

No entanto, o conteúdo oferecido na telinha para alunos excluídos digitalmente é escasso: são 15 minutos de videoaula por dia para cada ano escolar, exibidos pela manhã e reprisados à tarde. Nesse ritmo, considerando a carga mínima de 800 horas de aula por ano exigidas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, seriam necessários mais de oito anos para atingir a meta.

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Para famílias que não têm acesso à internet, além das videoaulas, a prefeitura oferece apostilas impressas que podem ser retiradas nas escolas e trabalhadas em casa. Porém, mães com pouca ou nenhuma formação reclamam da dificuldade de ensinar os filhos. A Secretaria municipal de Educação não sabe dizer quantos alunos estão nessa situação. Mas um dado deixado pela gestão anterior dá conta de que 13% dos cerca de 641 mil alunos não tiveram qualquer acesso ao ensino remoto em 2020.

Poucas aulas presenciais

A lenta retomada da educação preocupa pais e educadores. Após o último ano letivo ser dado como perdido, com as salas de aula fechadas desde março, o prefeito Eduardo Paes chegou a afirmar que o desafio da rede municipal em 2021 seria fazer “dois anos em um”. Porém, ao fim do primeiro trimestre, apenas 27% das 1.543 unidades da rede voltaram a funcionar, e apenas parcialmente: só alunos da pré-escola, 1º e 2º ano do ensino fundamental voltaram a ter aulas nas escolas que reabriram.

A ex-secretária municipal de Educação do Rio e professora da Fundação Getulio Vargas (FGV) Claudia Costin alerta que será preciso montar um sólido sistema de recuperação de aprendizagem para resgatar o tempo perdido. Antes disso, no entanto, será preciso consolidar um sistema híbrido. 

— O que vem acontecendo na Europa é um constante abrir e fechar das escolas até que se tenha um percentual mais expressivo da população vacinado. Por isso, é fundamental que o híbrido funcione. Acho que ao menos para alunos de famílias que recebem Bolsa Família será preciso dar chips e talvez até tablets — diz.

Nivelamento na rede

Costin também recomenda que se faça um nivelamento de todas as turmas, antes de entrar com matérias novas, para identificar possíveis desníveis e defasagens de aprendizado.

A defasagem já salta aos olhos na casa de Andreia, no Fubá. Ana Luisa, de 8 anos, matriculada no 3º ano do ensino fundamental na Escola Municipal Amapá, no bairro Colégio, já deveria estar alfabetizada, mas ainda tem dificuldade com as letras.

— Minha filha de 8 anos ainda não sabe ler. Peguei a apostila para tentar ensinar, mas não sou professora, achei a linguagem difícil — diz a mãe, que assiste com as filhas às aulas pela TV.

Mestre em Educação pela UFRJ e consultora do Fórum estadual de Educação, Lea Cutz Gaudenzi alerta que é preciso investir em um contato maior das escolas com as famílias para que o conteúdo físico seja trabalhado em paralelo.

— Essas videoaulas, que surgiram para ser uma solução, podem acabar tornando o ensino ainda mais precário se não forem bem utilizadas — afirma.

Na casa da artesã Juciane Gomes, de 38 anos, em Santa Cruz, o problema é ainda maior: com quatro filhos na rede municipal, ela não consegue sintonizar na TV Escola. Para tentar estudar, as crianças, que têm de 6 a 15 anos, disputam o único celular da família. Em meio à confusão, acabam passando a maior parte do tempo sem se dedicar aos estudos.

— Eu cuido para eles não ficarem na rua sem ter o que fazer, mas tem vezes que alguns ficam o dia inteiro sem estudar nada — diz ela. 

O secretário municipal de Educação, Renan Ferreirinha, reconhece o desafio e tenta desenvolver soluções. Segundo ele, existe um empenho por parte da pasta para oferecer às famílias excluídas digitalmente “ilhas de conexão”, que são espaços públicos onde os alunos poderão usar computadores com internet. Uma pesquisa mostrou que 77% das unidades da rede municipal estão aptas a disponibilizar esse tipo de conexão para a comunidade. Porém, por enquanto, as ilhas só estão disponíveis nas 11 coordenadorias regionais de educação (CREs) e em “algumas escolas da rede”, segundo a pasta, que pretende criar novos espaços em bibliotecas, naves do conhecimento, vilas olímpicas e museus.

— Temos que encarar a realidade híbrida daqui para a frente. Para isso, vamos estruturar muito bem o ensino remoto. É uma obsessão nossa a de que ninguém pode ficar para trás — diz o secretário.

Segundo Ferreirinha, todas as escolas foram orientadas a distribuir material físico para as famílias.

— Medimos a frequência dos alunos por meio das atividades que eles fazem, presencial ou remotamente. Se o aluno estiver fazendo só 20% das atividades, entramos com um programa de busca ativa, desenvolvido pelo Unicef. É dessa forma que chegaremos ao cálculo de 800 horas exigidas pela legislação — explica ele. — Se somar tudo o que estamos ofertando para o aluno, considerando TV, aplicativo e apostilas, até passa de 800 horas.

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