Aumento de abandono e maus-tratos a animais durante pandemia gera preocupação e onda de solidariedade no Rio

Gilberto Porcidonio
·4 minuto de leitura

RIO — Com dois aninhos, o vira-lata Kanté ganhou novos donos em agosto do ano passado, durante a pandemia, depois de ter sido abandonado pelas ruas da cidade. Porém, Kanté, quando chegou em sua casa nova na Freguesia, mal conseguia interagir com o casal de contadores Thainá Capute e Alex Bastos, os seus novos donos. Extremamente medroso a ponto de se esconder sempre que uma nova visita chegava à residência, Thainá soube, por meio da primeira cuidadora, que Kanté tinha sido jogado de um carro em movimento quando tinha apenas 4 meses de idade. Para superar os seus traumas, o cãozinho batizado com o sobrenome do jogador de futebol francês N'Golo Kanté, estrela do Chelsea, precisou de uma adestradora por um mês e meio.

— Agora ele está bem melhor e brinca muito, faz tudo o que não fazia. Se, antes, ele tinha pavor de rua, hoje ele ama passear. Se eu pudesse, adotava outros até, mas agora não consigo — disse Thainá.

Também da Freguesia, o designer Wallace Rotti também percebeu que, no bairro da Zona Oeste e também nos arredores, o abandono de animais virou uma constante durante este período. No fim do ano passado, ele ajudou a recuperar uma cadela abandonada e, nesta semana, viu que um casal de pitbulls foi deixado amarrado em um poste da Rua Zoroastro Pamplona.

— Eram dois cães dóceis com mais de três anos, que, com certeza, foram bem tratados por um tempo e que, agora, estão amarrados em um poste. Se tem algo que me machuca muito é ver esse tipo de coisa. Na Taquara, isso também acontece com outros cachorros de raça — percebe Wallace.

A percepção dos moradores condiz com os dados da Prefeitura. A Secretaria Municipal de Proteção e Defesa Animal (SMPDA) informou que, somente no segundo semestre do ano passado, início da pandemia, as denúncias de abandono de animais contabilizadas pelo serviço 1746 já ultrapassavam 2.950 chamados — sendo que, em 2019, foram 2.100 durante o ano inteiro. Neste ano, o sistema já reuniu 240 denúncias até o momento.

Protetora de animais há 11 anos, a cabeleireira Erica Carrijo tem um abrigo com 30 animais em Jacarepaguá e percebe que, conforme a condição financeira das pessoas foi piorando por conta da crise, que os abandonos aumentaram. Além disso, muitos animais que ela resgata e que ficam temporariamente em seu abrigo antes de serem adotados chegam lá muito traumatizados por conta das violências que sofreram, precisando ser tratados com florais pela veterinária local, Andrea Lambert, e também por adestradores.

— No dia 18 de janeiro, eu fiz um resgate que foi muito marcante. Havia uma cadela prenha, em situação de rua e que estava prestes a parir. Quando cheguei ao local, descobri que ela tinha dono e, pelas pistas, encontrei que, na casa, havia mais quatro cadelas amarradas e desnutridas, com problemas de pele, e que ainda estavam amamentando os seu filhotes. Foi algo muito forte — relata Erica, que fez denúncia à polícia, que realizou o resgate. — Não sabemos por quais outros abusos elas passaram, mas o ex-dono era um típico acumulador.

Na última quinta-feira, um caso chocou os cariocas: um buldogue francês foi deixado para se afogar na Praia de Copacabana pelo seu próprio dono, que foi levado à 12ª DP (Copacabana). Além deste crime, uma mulher foi presa por suspeita de tentar afogar uma cadela no mar da Praia da Macumba, no Recreio. No mesmo dia, o presidente da comissão de defesa dos animais da câmara, o vereador Luiz Carlos Ramos Filho (PMN) esteve no Centro de Controle de Zoonoses da prefeitura, em Santa Cruz, e levou um susto. Embora a capacidade do centro seja para 140 animais, hoje ele está com 247 abrigados e alguns dos recintos que deveriam abrigar apenas um cão feroz, já estão com dois ou três.

— Abrigo não é bom pra ninguém. Temos que arrumar um lar para esses animais — disse o vereador, que pretende pretende promover uma campanha para a adoção dos animais do CCZ pelas mídias sociais.

Em janeiro, a comissão recebeu 153 chamados, via redes sociais e telefone, de denúncias de maus-tratos, contra 47 no mesmo período do ano passado. O parlamentar defende que a punição para este tipo de crime seja mais pesada.

Em abril do ano passado, a Sociedade União Internacional Protetora dos Animais (Suipa) havia informado que o número de animais abandonados pelas ruas do Rio havia aumentado por conta da crença falsa de que os bichinhos transmitiam a Covid-19. Além disso, as adoções e doações de rações e outros itens também caíram por conta da suspensão dos eventos externos de adoção.