Aumento da mortalidade levanta temores sobre propagação de coronavírus no sul do Iêmen

Guardas usam máscaras em frente ao hospital al Kubi em Aden, sul do Iêmen, 17 de maio de 2020

ONGs e profissionais dA saúde estão preocupados com a disseminação do novo coronavírus em Áden, uma grande cidade no sul do Iêmen, diante do aumento da mortalidade e da ausência de estatísticas confiáveis sobre a pandemia neste país em guerra.

No final de abril, o comitê encarregado de combater a doença COVID-19 no Ministério da Saúde do Iêmen anunciou os primeiros casos de contágio no país, a maioria deles registrados em Áden, cidade de 550.000 habitantes já afetada por surtos de dengue, malária e chikungunya.

O Departamento de Assuntos Civis, responsável pela emissão dos atestados de óbito, atualmente relata dezenas de mortes diariamente.

No sábado, Áden registrou "mais de 80 mortes causadas por diferentes epidemias", disse à AFP Sand Jamil, chefe do serviço, sem mencionar o novo coronavírus. Ele acrescentou que normalmente se emite por dia uma dúzia de atestados de óbito.

O número diário de mortos foi multiplicado por sete, disse Saddam al Haïdari, médico que trabalha em um hospital público de Áden, à AFP.

- "Catástrofe" -

Embora diferentes fontes não possam estabelecer com certeza que esse aumento está vinculado ao coronavírus, a ONG Save the Children o menciona claramente.

"Nossas equipes no terreno viram pessoas respirando com dificuldade e em colapso sendo devolvidas dos hospitais. Essas pessoas morrem porque não podem receber o tratamento que as salvaria", afirmou Mohammed Alshamaa, diretor de programa da Save The Children no Iêmen.

Para Yasser Bamallem, médico do Hospital Público Al Joumouriah, a situação é grave: "Estamos enfrentando uma catástrofe em Áden".

"Já havia uma luta contra a dengue e a chikungunya (...) com baixa mortalidade. Mas isso aumentou com a disseminação do novo coronavírus", disse à AFP.

Controlada por separatistas que reivindicam a independência do sul do país, Áden não está em confinamento. Não há testes de triagem de COVID-19 ou quarentena para os contagiados.

Foram realizadas campanhas de desinfecção, mas, na ausência de equipamentos, os hospitais deixaram de admitir pacientes com sintomas semelhantes aos da doença e os médicos abandonaram seus postos, segundo testemunhos do pessoal de saúde.

A Save the Children relatou na quinta-feira a morte em uma semana de cerca de 385 pessoas com sintomas semelhantes aos do novo coronavírus.

Três médicos morreram recentemente, disse Jamil ao jornal local Al Ayyam, sem especificar a causa das mortes.

- Números subestimados -

No hospital privado Al Kubi, as consultas aumentaram de 150 por dia, há algumas semanas, para mais de 400 hoje, diz o diretor da unidade Yasser al Nassiri, segundo a qual muitos pacientes apresentam sintomas semelhantes aos de COVID-19.

O Iêmen está imerso desde 2014 em uma guerra entre os rebeldes houthis, apoiados pelo Irã e que controlam várias regiões do país, incluindo a capital Sanaa, e o governo apoiado pela coalizão liderada pela Arábia Saudita em 2015.

Esse conflito causou a pior crise humanitária do mundo, segundo as Nações Unidas, e o colapso da infraestrutura de saúde.

Segundo uma contagem da AFP baseada em dados fornecidos pelo governo e pelos rebeldes, foram registrados 124 casos de contágio e 19 mortes no país até domingo. Mas esses números são amplamente subestimados, de acordo com Bamallem.