Aumento de queimadas pode intensificar colapso na saúde na Amazônia, diz estudo

Dimitrius Dantas
Queimadas em São Felix do Xingu, divisa com Altamira, no Pará

SÃO PAULO - Os estados da região amazônica poderão ser palco de duas crises simultâneas nos próximos meses, alertam pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais. Os cientistas apontam que o crescimento do desmatamento na região nos últimos meses e a poluição das queimadas poderá aumentar ainda mais a incidência de doenças respiratórias entre a população amazônica.

A conclusão está em uma nota técnica assinada por três pesquisadores dos dois órgãos, formulada para auxiliar a tomada de decisões do governo para a região da floresta em 2020. De acordo com o documento, caso o ponto da virada da curva de infecções da Covid-19 não ocrra imediatamente, no mês de maio, "certamente haverá sobreposição das queimadas com a pandemia".

A previsão é baseada em dados e parte de uma realidade assustadora: a taxa de desmatamento entre agosto de 2019 e 14 de maio de 2020 já representa 89% da área desmatada do ano anterior. No mesmo período, também foram detectados 78.443 focos de queimadas na Amazônia, quantidade maior do que no mesmo período de 2018 e 2019.

No ano passado, as queimadas na região causaram uma crise internacional, quando líderes mundiais questionaram a capacidade do governo brasileiro de lidar com a proteção da floresta. O presidente Jair Bolsonaro chegou a convocar as Forças Armadas para lidar com a expansão do desmatamento na região.

De acordo com Luiz Aragão, do INPE, um dos pesquisadores que assinam a nota técnica, é urgente que a epidemia de Covid-19 seja controlada o quanto antes e o governo adote uma postura que diminua os focos de queimada na região.

— Quanto mais tempo demorarmos para controlar a epidemia, mais provável é que uma grande quantidade de pessoas afetadas por Covid estejam também expostas à fumaça das queimadas. Isso pode aumentar o número de doenças por Covid, junto com um elevado número de doenças respiratórias por queimadas — afirma.

De acordo com os pesquisadores, as elevadas taxas de desmatamento observadas neste ano induzirão a um aumento da poluição do ar e, consequentemente, intensificarão a demanda por atendimento no Sistema Único de Saúde.

Pesquisas nos Estados Unidos e na Holanda já indicaram uma relação entre a incidência do coronavírus e a exposição à poluição. De acordo com estes estudos, esse poderia ser um dos motivos para o fato da Covid-19 afetar principalmente as populações mais idosas, expostas aos materiais particulados há mais tempo.

A situação piora também em razão de fatores climáticos: o Oceano Atlântico registra um aumento de temperatura, fenômeno que gera seca na região sudoeste da floresta, nas proximidades do estado do Acre. A temporada de queimadas costuma aumentar durante os meses de junho e julho.

"Caso a demanda por internações devido a problemas respiratórios induzidos por queimadas aumente concomitantemente à pandemia de COVID-19, espera-se um agravamento e possível colapso da saúde pública em diversos estados, incluindo os da Amazônia brasileira", afirmam os pesquisadores.

Para Luiz Aragão, a Garantia da Lei e da Ordem (GLO) utilizada pelo governo federal para a utilização das Forças Armadas pode ser uma das medidas que evitem o crescimento do desmatamento e, consequentemente, das queimadas nos próximos meses. O perigo, afirma o cientista, é que as queimadas, aliadas à seca causada pelo aumento da temperatura do Oceano Atlântico, ajude o fogo a se espalhar mais rapidamente.

— O desmatamento é um fator que aumenta as fontes de ignição na Amazônia. Toda área desmatada é seguida de fogo. Pode induzir que essas queimadas se tornem incêndios florestais — diz.

No documento, ele e outros cientistas apontam algumas das medidas que podem ser adotadas pelos governos federal, estaduais e municipais para minimizar o dano. Contudo, o cientista deixa claro que é necessária a adoção de uma política de longo prazo para o combate ao desmatamento na Amazônia.

— Tem que ser uma estratégia de estado em que o governo seja facilitador dessa estratégia. Isso passa por educação ambiental, planejamento orçamentário que consiga contemplar esse tipo de ação, medidas de punição. Já tem a GLO como uma medida profilática, mas ela não vai ser suficiente. Se o desmatamento for controlado, a possibilidade de queimada diminui — afirma.