Aposta do governo em centrais térmicas de carvão polui ar do Vietnã

Eric San Juan.

Ho Chi Minh (Vietnã), 12 fev (EFE).- A decidida aposta das autoridades vietnamitas nas centrais térmicas de carvão para satisfazer o forte aumento da demanda energética fez disparar as emissões contaminantes e tornou insalubre o ar das principais cidades.

A mais afetada é Hanói, que em 2017 só teve 38 dias de ar saudável e quadruplicou os níveis médios mínimos da Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo um recente relatório do Centro Vietnamita de Inovação e Desenvolvimento Verde (GreenID).

Além do tráfego e da indústria circundante, o relatório aponta as 20 usinas energéticas de carvão em torno da capital como um dos principais fatores para que a qualidade do seu ar esteja entre as piores do Sudeste Asiático.

Nguyen Thi Khanh, diretora do GreenID, destacou em uma recente conferência em Hanói que países como China e Coreia do Sul "estão dando as costas para o carvão porque representa um perigo para a saúde".

"É hora de escolhermos um novo modo de desenvolvimento que não represente o sacrifício do meio ambiente e do ar limpo", ressaltou Khanh.

Mas vozes como a de Khanh, embora cada vez mais numerosas, não alteram os planos das autoridades vietnamitas, que viram no carvão uma fonte de energia barata para suprir as crescentes necessidades da indústria e dos consumidores, que aumentam mais de 10% a cada ano.

O formidável desenvolvimento econômico das três últimas décadas disparou a demanda de energia, causando estragos no meio ambiente: entre 1991 e 2012, o PIB do país cresceu 315%, enquanto as emissões de gases de efeito estufa subiram 937%.

Além das 26 centrais de carvão em funcionamento, o regime comunista planeja construir outras seis até 2020 e ter pelo menos 51 operando em 2030, quando espera gerar mais da metade da energia consumida queimando 129 milhões de toneladas de carvão por ano.

Uma das mais potentes está em construção na província de Long An, muito perto de Ho Chi Minh, a cidade mais povoada do país, onde a contaminação do ar também cresce de forma alarmante.

O GreenID calcula que, se estas previsões se cumprirem, o volume de cinzas no ar em algumas regiões se multiplicará por 11, o de óxido de enxofre por sete e o de óxido de nitrato por quatro em relação aos níveis de 2014, o que dificulta o compromisso do Vietnã de reduzir suas emissões em 25% até 2030.

A propagação de centrais térmicas de carvão também provocará, segundo um estudo publicado há um ano pelo Greenpeace e pela Universidade de Harvard, um forte aumento das mortes prematuras no país.

O relatório calcula que em 2030 morrerão 20 mil vietnamitas ao ano por culpa da contaminação gerada por estas usinas, cinco vezes mais do que em 2011 e acima do número médio dos países vizinhos.

O presidente do Banco Mundial (BM), Kim Yong Kim, já advertiu em uma conferência em 2016 que, se o Vietnã continuar com seus planos e os países da região seguirem o mesmo caminho, será "um desastre para o planeta".

O BM, que financiou várias usinas de carvão na Ásia nos últimos anos, cancelará todas as ajudas a partir de 2019, mas o Vietnã recorre ao financiamento de países como China, Japão e Coreia do Sul, onde o carvão perde terreno e as exigências ambientais são muito mais estritas para as empresas.

O Vietnã reforçou sua prioridade nas energias fósseis após descartar no final de 2016 a construção de uma central nuclear, que teria sido a primeira ativa no Sudeste Asiático.

A alternativa verde reivindicada por grupos ecologistas e o BM pela abundância de horas de sol e o potencial eólico de algumas regiões não parece uma prioridade para o regime de Hanói, apesar do tímido avanço dos últimos anos.

O vice-ministro de Indústria vietnamita, Hoang Quoc Vuong, justificou em uma recente conferência "o impulso da energia gerada com carvão" pelas dificuldades técnicas e a falta de estabilidade do sol e do vento no país. EFE