Autoestima marca identidade da África pós independência de países europeus

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Foto: Eric Lafforgue/Getty Images
Foto: Eric Lafforgue/Getty Images
  • Orgulho e negritude são características dos países que romperam com o colonialismo europeu na segunda metade do século 20

  • O legado do conhecimento e da ancestralidade está presente na política dessas nações independentes

  • Com a independência, por exemplo, Moçambique resgatou costumes e práticas de ancestralidade que eram perseguidas na época do colonialismo e agora fortalecem sua identidade

Texto: Juca Guimarães

Nas últimas décadas do século 19, diversos países africanos conquistaram a sua independência do sistema colonialista europeu. A população abaixo dos 50 anos cresceu em um período de reconstrução e valorização das identidades locais, das culturas e tradições.

“Antes se a criança não falava o português na escola ou usava uma expressão em uma língua local, ela era castigada com a palmatória. Recebia pancadas na mão com um bastão de madeira. Hoje não, as escolas são bilíngues e a criança não apanha por falar a sua própria língua”, conta a psicóloga moçambicana Aida Binze, diretora adjunta pedagógica da Universidade Pedagógica de Moçambique e doutoranda pela USP (Universidade de São Paulo).

Além da repressão linguística, a educação universitária em Moçambique era exclusiva para os portugueses e seus descendentes. O país tem 24 línguas, as três mais faladas são Macua (na região de Nampula, no norte), Sena ( na região de Beira, no centro) e Changana (na região de Maputo, a capital, perto da fronteira com a África do Sul).

A independência de Moçambique aconteceu em junho de 1975, no mês seguinte, em julho, foi a vez de Cabo Verde. Em novembro do mesmo ano foi proclamada a independência de Angola, também colônia de Portugal. Na Guiné-Bissau, a independência aconteceu em setembro de 1973.

“Foi um período em que vários países se tornaram independentes e começou a surgir com força um sentimento tanto de união entre os países africanos como de valorização das identidades locais”, disse Aida, que nasceu em 1981.

O processo de independência de Moçambique teve apoio da vizinha Tanzânia, que já tinha conquistado sua independência em 1961, depois de ter sido colônia da Inglaterra e da Alemanha.

Com a independência, Moçambique pode resgatar costumes e práticas de ancestralidade que eram perseguidas na época do colonialismo e agora fortalecem a identidade. “Varia muito de região para região porque as identidades são muito diversas. Por exemplo, na região norte, homens e mulheres passam por uma preparação para a fase adulta, ambos eram treinados para cuidar da casa, diferentemente da cultura europeia”, disse Aida. Por outro lado, na região Sul do país, a tradição é o homem pagar um dote para a família da noiva.

A economia moçambicana, que é forte na agroindústria e mineração, também passou por várias mudanças após a independência. As empresas eram todas portuguesas e foram nacionalizadas depois de 1975. “Mais recentemente, começou um processo de privatização, mas os investidores são, em sua maioria, moçambicanos. O país está em um bom caminho e com planos para erradicar a pobreza e crescer”, disse Aida.

Origem do conhecimento

O escritor e filósofo camaronês Achille Mbembe, autor do livro “Crítica da Razão Negra”, de 2003, é um pensador contemporâneo que aborda o processo decolonial no continente africano e nas regiões da diáspora e a importância do resgate do conhecimento ancestral.

“Não há dúvida que a origem do conhecimento e da filosofia é na África. Muito tempo antes dos portugueses se lançarem no Atlântico ‘nunca antes navegado’, o mundo mesmo se resumia ao mar Mediterrâneo e havia uma troca muito intensa entre o Norte da África e o sul da Europa”, disse o pesquisador e escritor Abílio Ferreira, para explicar porque o resgate e valorização da cultura e da identidade africana é uma conexão direta com a origem do conhecimento mundial.

Ferreira que é especialista em Cidades, Planejamento Urbano e Participação Popular pela UNIFESP e mestrando no programa de Pós-Graduação Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades da FFLCH/USP, afirma que essa percepção sobre o papel de centralidade do conhecimento africano, que deu origem a toda a cultura europeia, já aparecia na obra do jornalista, escritor e advogado Luiz Gama, no século 19.

“No seu livro ‘Primeiras Trovas Burlescas de Getulino”, publicado em 1859, ele já fazia referência a Getúlia, região da antiga África do norte onde hoje fica a Argélia.

Em "Lá vai verso", um dos poemas do livro, ele se diz um "Orfeu de carapinha" (...), tornando-se a primeira pessoa na história a enegrecer o mito grego. Luiz Gama cita a influência negra na cultura grega, que troca a lira pela marimba.”, disse Ferreira.

Para apontar o desenvolvimento econômico, tecnológico e da identidade dos países africanos pós-independência, o doutor e professor Odair Marques da Silva lançou o livro “Atlas Geocultural da África”, em 2020, e o site África Atual com informações sobre temas socioeconômicos do continente.

Por exemplo, a expansão da classe média. Até 2025, o gasto do consumidor africano deve chegar a US $ 2,1 trilhões, aumentando para US $ 2,5 trilhões em 2030, de acordo com um estudo sobre mercados globais do Instituto Brookings. O aumento da classe média e da classe alta na África, até o final da próxima década, em quantidade de pessoas deve superar o dobro de toda a população norte americana.

A série “Consciência Africana” traz ao longo de novembro matérias que mostram as riquezas da África a partir de cinco eixos centrais: economia, cultura, gastronomia, identidade e tecnologia.

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