Autointitulado amigo dos judeus, governo Bolsonaro se cerca de referências e inspirações nazistas

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SAO PAULO, BRAZIL - JUNE 20: Brazil's President Jair Messias Bolsonaro speaks alongside of Israel's ambassador Yossi Shelley during their participation  at March for Jesus on June 20, 2019 in Sao Paulo, Brazil. (Photo by Rebeca Figueiredo Amorim/Getty Images)
Presidente Jair Bolsonaro com a bandeira de Israel na Marcha por Jesus, em 2019 (Foto: Rebeca Figueiredo Amorim/Getty Images)

Nesta segunda (26), a deputada alemã Beatrix von Storch compartilhou uma foto com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A parlamentar faz parte de um partido conservador alemão, conhecido por falar xenofóbicas e negacionistas. Além disso, von Storch é neta de Lutz Graf Schwerin von Krosigk, ministro nazista das Finanças.

No entanto, o encontro entre Jair Bolsonaro e a neta do ministro das Finanças de Adolf Hitler está longe de ser a primeira associação entre o governo brasileiro e o regime nazista.

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Roberto Alvim, ex-secretário da Cultura, foi demitido do governo após grande pressão da sociedade. Ele gravou um vídeo reproduzindo a estética nazista, usada por Joseph Goebbels. Além disso, membros do governo, como o assessor Filipe Martins, já foram acusados de gestos supremacistas – este nunca deixou o cargo.

Roberto Alvim foi demitido após vídeo citando ministro nazista - Foto: Reprodução/Twitter
Roberto Alvim foi demitido após vídeo citando ministro nazista - Foto: Reprodução/Twitter

Bolsonaro, por sua vez, praticou revisionismo histórico ao dizer que o nazismo era uma ideologia de esquerda quando, por óbvio, trata-se de uma ideologia de extrema-direita.

Ainda assim, desde a campanha eleitoral, Jair Bolsonaro se posiciona como amigo dos judeus e apoiador de Israel, estado judeu criado após o Holocausto, quando cerca de 6 milhões de judeus foram assassinados pelo regime nazista.

Para o pesquisador Michel Gherman, diretor acadêmico do Instituto Brasil-Israel e coordenador do Núcleo de Estudos Judaicos da UFRJ, explica há dois pontos importantes a serem considerado para entender a associação de Bolsonaro a Israel e aos judeus.

O primeiro ponto é que o presidente faz uma tentativa de se afastar da extrema-direita e, para isso, usa a associação aos judeus. “Tem a ver com uma higienização da imagem de Bolsonaro. Bolsonaro sempre teve vínculos fortes com a extrema-direita e com a supremacia branca, com grupos neonazistas e grupos eventualmente antissemitas no mundo”, afirma.

“No Brasil, a base de apoio de Bolsonaro conta com o apoio de grupos neonazistas. O presidente tem um apoio cada vez maior de integralistas”, aponta. “Com todas essas questões, Bolsonaro precisa, simbolicamente, ter uma posição de aliado dos judeus, porque quando ele aparece com uma bandeira de Israel, a imagética determina que ele não pode ser nazista ou antissemita. É claro que isso é um equívoco.”

O segundo aspecto ressaltado por Gherman, que pesquisa o antissemitismo no mundo atual, é o conceito de uma “Israel imaginária”, endossado por Bolsonaro e pelos apoiadores do presidente. “É uma Israel branca, armada, cristã e ultracapitalista. Essa Israel imaginária é o vincula eles a uma espécie de Israel do reino de Salomão e de Judá.”

Michel Gherman lembra de uma frase dita por Filipe Martins, assessor da presidência para Relações Internacionais, que se disse “judeu, porém cristão”.

Deysi Cioccari, doutora em Ciência Polícia pela Cásper Líbero, aponta que o presidente Jair Bolsonaro tem uma disparidade entre as palavras e as atitudes. “Bolsonaro cruza uma linha sem volta. Quando defende Israel com as palavras, nas atitude mostra o contrário”, afirma.

Ao citar casos como de Filipe Martins e Roberto Alvim, Cioccari acredita que a sociedade brasileira está sendo levada ao colapso. 

“Como nosso maior líder nacional, é inadmissível que banalize ou no mínimo coloque como aceitável um dos períodos mais sombrios da história (o Holocausto). Eu definiria isso como um discurso do ódio.”

O discurso do PR ganha existência concreta e torna-se disponível àqueles a quem visa denegrir e também àqueles que querem agredir. A verbalização não precisa ser direta...o PR a faz com criação de estereótipos, a substituição de nomes, a seleção exclusiva de fatos favoráveis ao seu ponto de vista, a criação de “inimigos”, o apelo à autoridade e a afirmação e repetição. Cruzamos umna linha que não deveríamos ter cruzado.

É possível relacionar bolsonarismo e nazismo?

Muitos tomam cuidado ao fazer associações entre o bolsonarismo e o nazismo. Deysi Cioccari e Michel Gherman acreditam que há, sim, elementos suficientes para fazer essa relação.

“Quando todos os fatos relacionados ao nazismo ocorreram em seu governo, o presidente nunca demonstrou qualquer constrangimento ou atitude mais enérgica para repudiar esses fatos”, lembra Cioccari.

“Precisamos lembrar que em nenhuma circunstância e sob nenhum pretexto, de forma expressa ou velada, é dado a qualquer pessoa o direito de trazer à tona momentos sombrios como foi o nazismo – sobretudo ao titular de um mandato eletivo, que tem um eco muito maior na sociedade”, avalia a cientista política.

Michel Gherman, por sua vez, afirma que o nazismo é produto de uma “política de valores morais”.

“O nazismo tem pouca coerência ideológica, você vai ter grupos de extrema-direita nazifascistas húngaros, romenos, alemães, italianos... Cada um acredita em uma coisa. O que você tem por trás disso é um profundo ressentimento, uma ideia de que esses povos são povos escolhidos e têm minorias desafiando o fato de eles serem escolhidos, tem um profundo ressentimento com os intelectuais, porque os intelectuais pensam em coisas que eles não conseguem alcançar e eles reagem a isso, tem ressentimento às esquerdas. São ressentindos. E tem uma dimensão imagética que eles acionam, em cima de cavalos, em cima de motocicletas, frases... Isso os coloca no mesmo lugar”, descreve.

“Aqui, o bolsonarismo não é próximo disso, o bolsonarismo é isso. O bolsonarismo aciona frases que estão dentro do nazismo de maneira muito importante”, explica. Gherman cita, inclusive, o slogan de campanha de Bolsonaro: Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. Outra frase que aparece com frequência na narrativa bolsonarista é a mesma que está nos portões de Auschwitz: o trabalho liberta.

O pesquisador afirma que o bolsonarismo que está na superfície é cheio de referências nazistas. “Bolsonaro não é um governo com práticas nazistas, porque os nazismos não têm práticas, mas é um governo com inspiração e referências nazistas, porque é profundamente ressentido, antiintelectual, antiesquerdista, antimodernidade, antiminorias”, conclui.

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