Autor de 'Dahmer', Ryan Murphy justifica a fama de 'rei do streaming' com série sobre canibal

Quando tinha 14 anos, Ryan Murphy fez uma cigarrilha com clipes de papel para poder fingir ser a personagem Norma Desmond e fumar ao estilo " Crepúsculo dos deuses". "Ela era um dos meus ídolos", diz Murphy sobre a icônica personagem, a decadente (e homicida) atriz do cinema mudo.

Murphy, o produtor mais atuante da América, que gosta de dizer que se reinventou tantas vezes como a Madonna, reinventou a paisagem televisiva com sucessos que perturbam as normas. Explorando tabus e tentações, Murphy, conhecido por êxitos como as séries "Glee" e "American Horror Story", mistura sorrateiramente mensagens de justiça social com espetáculos lascivos e macabros.

Na noite em jantamos por cinco horas no Hotel Mercer, em Nova York, a Netflix o telefonou para dizer que ele estava numa competição feroz consigo mesmo: seu último projeto, a minissérie "The watcher", sobre um casal de New Jersey atormentado por um amizade à distância que se torna ameaçadora, competia com o seu 'Dahmer: Um canibal americano' pelo o primeiro lugar no topo dos programas de televisão.Ambos os programas foram criados com o seu colaborador de longa data, Ian Brennan.

Murphy, que está escrevendo uma série para o FX sobre o escritor Truman Capote, ouviu em Hollywood, nos últimos quatro anos, muitos sussurros (nem sempre tão baixos) de que seus melhores dias ficaram para trás, o colocando como perdedor no concurso Ryan Murphy X Shonda Rhimes ("Grey's Anatomy", "Inventando Anna"), que conseguiu um acordo de US$ 100 milhões com a Netflix em 2017. No ano seguinte, Murphy conseguiu um acordo de US$ 300 milhões e foi chamado de "O rei do boom do streaming' pela Time e "o homem mais poderoso da TV" pela New Yorker.

Muitos acompanharam seus projetos de perto, com a esperança de que fracassassem. Murphy então teve avaliações de programas como "The politician", "Hollywood" e "The prom" como sendo de baixo desempenho, enquanto Shonda Rhimes alcançava mais um sucesso com "Bridgerton" (2020).

A resposta veio em setembro deste ano, com "Dahmer", sobre o assassino em série que predou jovens homossexuais de 1978 a 1991, e tornou-se o maior sucesso da sua carreira e o segundo maior na história de Netflix, após a quarta temporada de "Stranger things".

- A razão pela qual eu queria fazer este acordo (de US$ 300 milhões) com Ryan é porque há muito poucas pessoas capazes de fazer o que ele acabou por fazer na Netflix, produzindo algo neste nível de repercussão como "Dahmer" - avalia Ted Sarandos, co-CEO da Netflix, que não culpa Murphy por um começo irregular: - Não creio que seja possível, não só para o Ryan mas para qualquer pessoa, atingir o nível em que chegou enquanto descobria como adaptar suas narrativas a esta plataforma (streaming).

Murphy disse nunca ter perdido a fé em si mesmo, apesar de todo o schadenfreude (termo alemão que designa a satisfação pela infelicidade do outro) tão comum em Hollywood. Por dois anos, no entanto, ele fez terapia intensiva para descobrir o que poderia ajustar e quais eram os seus próprios padrões de comportamento que poderia mudar para obter um resultado melhor.

Perfeccionista a ponto de usar uma régua ao arrumar a cama para se certificar de que os lençóis estão iguais, se ele fica obcecado com algo, ele vai fundo.

- Todos na minha vida pensam que sou louco. Penso que é uma forma de TOC, claramente. É meditação, e a mesma razão pela qual eu ainda entro por vezes numa igreja. Gosto de estar perdido numa tarefa - comenta.

Um dos seus psiquiatras o fez entender que é permitido falhar:

- Penso apenas que houve uma rigidez para mim como artista e como pessoa que foi embora - conta Murphy. - Muito disso tem a ver com a paternidade, de lidar com os problemas de saúde do meu filho.

Murphy e o seu marido, o fotógrafo David Miller, têm três filhos, Logan, 9, Ford, 8, e Griffin, 2.Ford foi diagnosticado com neuroblastoma quando tinha 18 meses de idade (e mais tarde, diabetes), e foi operado para remover o tumor.

- Entrar e ver seu bebê que ainda não está falando ligado a tubos foi muito, muito perturbador e difícil - diz o produtor, que em 2018, Murphy doou US$ 10 milhões para o Hospital Infantil de Los Angeles, em nome de seu filho.

Ele pensou que a experiência da doença do filho o faria desacelerar. Mas ao invés disso, aconteceu o oposto:

- Percebi, tipo, uau, você tem uma vida, você tem uma chance. As pessoas sempre me perguntam: "Como você faz tantas coisas"? Fico acordado até as 2 ou 3 da manhã, depois de colocar meus filhos na cama às 9. Sinto-me culpado por dormir, como se houvesse algo que eu deveria estar fazendo.

Murphy tem a reputação de ser taciturno e exigente. Ele diz que, por conta da timidez, ele prefere trabalhar com os mesmos colaboradores e estrelas.Nos anos 90, quando ainda era jornalista, Murphy viveu por seis anos com Bill Condon, um diretor 10 anos mais velho que fez "Deuses e monstros", "Dreamgirls" e dois filmes da saga "Crepúsculo". Quando começou a escrever em 1995, deparou-se com dificuldades e preconceitos.

- Aqueles primeiros anos foram muito, muito difíceis, porque queria escrever sobre personagens gays ou outros grupos marginalizados, e me diziam: "Não, as pessoas não querem ver isso" -recorda. - A regra da minha carreira tem sido: Quanto mais específico você for, mais universal você pode se tornar. Eu também não acho que todas as histórias gays tenham que ser histórias felizes. Houve um momento na Netflix em que removeram tiraram a indicação de LGBTQIAP+ de "Dahmer", e eu não gostei. Perguntei por que fizeram isso e disseram que as pessoas estavam chateadas por ser uma história perturbadora. Sim, mas era a história de um homem gay e, mais importante, de suas vítimas gays.

Sobre o fenômeno que a série se tornou, chegando ao ponto de o eBay proibir as vendas de fantasias de Jeffrey Dahmer para o Halloween, Murphy pondera:

- O mundo é um lugar cada vez mais escuro, e as pessoas estão procurando um lugar para colocar suas ansiedades.

Nas redes sociais, as críticas vieram rápido em acusar o programa de explorar o trauma que as famílias das vítimas haviam sofrido. Murphy disse que ele fez a história para lançar luz sobre o racismo e a homofobia que permearam o caso e que a série demonstra "como é fácil escapar das coisas graças ao do privilégio branco".

- Quais são as regras agora? Então não deveríamos mais fazer um filme sobre um tirano? - questiona, informando que a pesquisa durou três anos e meio e que falaram com pelo menos 20 amigos ou familiares das vítimas. - Acho que quando você faz algo assim, você tem uma obrigação para com a história.

Ele teve um sucesso comercial ao dirigir Julia Roberts em "Comer, rezar, amar", mas diz que não quer fazer mais filmes:

- Gosto da energia das séries de TV de longa duração - destaca, falando de planos hipotéticos para o futuro. - Poderia me aposentar e lançar uma linha de produtos de cera de abelha". Não me surpreenderia se eu me mudasse para a Costa Leste e mudasse minha vida completamente. Acabei de comprar uma fazenda e sempre quis ser um fazendeiro. Eu cresci em Indiana. Meu quintal era um campo de milho. Você sempre acaba sendo a pessoa de quem você fugiu - diz, sorrindo.