Autor do pedido de impeachment de Dilma diz que Brasil trilha o ‘caminho do bolivarismo’

Reale questionou o que Bolsonaro fará caso haja outra ação contra ele ou aliados. (Foto: AP Foto/Eraldo Peres)

O jurista Miguel Reale Júnior, um dos autores do pedido que resultou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), acusou o presidente Jair Bolsonaro de praticar “um populismo de segunda linha” ao tensionar publicamente a relação com o poder Judiciário, em especial com o STF (Supremo Tribunal Federal), e afirmou que o Brasil caminha “rumo ao bolivarismo” .

Reale Júnior citou na resposta a fala indignada feita por Bolsonaro ao ser questionado sobre a operação da PF (Polícia Federal) que cumpriu mandados de busca e apreensão contra aliados no inquérito das fake news.

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“De repente ele cria isso ‘não são traficantes’, mas quem falou que são traficantes quem tá fazendo fake news? A acusação não é essa. Ele faz um jogo de palavras, sempre um populismo de segunda linha, para querer envolver o povo. Mas o povo tem que estar alerta, por que é o caminho do bolivarismo que estamos assistindo”, disse o jurista, durante uma entrevista ao programa CNN 360, da CNN Brasil, na tarde desta quinta-feira (29).

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O termo “bolivarismo” origina-se do nome do general venezuelano Simón Bolívar, do século 19, líder de movimentos de independência da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia, e é uma das bases ideológicas de governos de esquerda na América Latina como do ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez, de seu sucessor, o atual presidente Nicolás Maduro, e do ex-mandatário da Bolívia, Evo Morales.

Em frente ao Palácio da Alvorada, ao falar com apoiadores nesta manhã, Bolsonaro afirmou que “as coisas têm limite” e questionou a ação contra deputados e blogueiros aliados, dizendo que os mesmos não são traficantes ou criminosos. Segundo o presidente, ordens absurdas não se cumprem. “Repito, não teremos outro dia igual ontem. Chega”.

“Ontem foi o último dia e eu peço a Deus que ilumina as pessoas que ousam se julgar melhor e mais poderosas que os outros, que se coloquem no seu devido lugar (...) E dizemos mais: não podemos falar em democracia sem um judiciário independente, um legislativo também independente para que possam tomar decisões. Não monocraticamente por vezes, mas questões que interessam ao povo como um todo, que tomem de modo que seja ouvido o colegiado”, afirmou o presidente. No fim, o presidente subiu o tom: “Acabou, porra”, gritou.

Reale ressaltou que o presidente cria “crises artificiais” ao esgarçar a relação institucional entre os poderes da República e questionou qual será a resposta de Bolsonaro diante de uma nova ação do STF que o desagrade.

“É uma fala que cria uma crise artificial, não tem nenhum fundamento de criar uma crise deste tamanho. É inacreditável que o presidente diz que ‘temos que por um limite nisso’. Impor um limite no Supremo Tribunal Federal? Impor um limite na Justiça? ‘Hoje é o último dia triste’, porque? O que ele fará se o STF tomar uma decisão que lhe desagrade? Vai fazer o que? Desrespeitar a decisão? Afrontar a Justiça? O que ele pensa que pode ser o presidente da República? Um ditador que decide por si?”, indagou o jurista.