Ficção sigilosa narra cotidiano na Coreia do Norte

Andrés Sánchez Braun.

Seul, 27 mar (EFE).- "A Denúncia" é o primeiro livro de ficção sobre a dura realidade cotidiana da Coreia do Norte, tirado às escondidas do sigiloso país, e se tornou um fenômeno editorial apesar de a identidade de seu autor ser mantida em segredo para evitar as represálias do regime.

"Foi uma flechada", comentou à Agência Efe Luis Solano, da editora Libros del Asteroide, que publicará no final de junho em espanhol esta compilação de sete relatos escritos e ambientados nos últimos anos do reinado (1948-1994) de Kim Il-sung, fundador do país e da dinastia que dita o destino de suas 24 milhões de almas.

Nele são mostrados o drama de precisar de uma permissão até para se despedir de uma mãe doente, a colossal desmesura entre a vida dos líderes e dos norte-coreanos e o terror de ser acusado de traidor até pelo vizinho que faz da Coreia do Norte uma espécie de grande e paranoica obra teatral.

Esta obra - que chegou às livrarias do Reino Unido e Estados Unidos em março, e às francesas em 2016 - foi publicada originalmente em 2014 na Coreia do Sul pela editora do jornalista conservador Cho Gab-je.

O livro despertou um interesse global, apesar de se saber pouco do autor que usa o pseudônimo de Bandi ("vagalume" em coreano).

Bandi nasceu em 1950 e cresceu na região chinesa de Manchúria - onde seus pais se refugiaram da Guerra das Coreias - antes de retornar a sua cidade natal no nordeste norte-coreano, onde aos 20 anos estreou em uma revista literária, que, como todas no país, vinha a ser um compêndio de propaganda muito bem escrito.

No entanto, apenas 5% do que está escrito no livro é baseado na realidade. O resto é pura ficção, segundo confessou à agência que possui os direitos internacionais do livro Do Hee-yun, membro de uma ONG que vela pelos direitos dos desertores norte-coreanos e em cujas mãos caiu o manuscrito original antes de ser publicado.

Do só certifica que Bandi é norte-coreano e segue no país, que um familiar do autor que desertou ao Sul pegou o livro às escondidas e que o foco dos textos do autor mudou quando pessoas próximas a ele morreram pela crise de fome que começou nos anos nos quais se ambienta "A Denúncia".

Do achou necessário idealizar essa biografia para que o leitor não pensasse que o livro fosse um produto inventado de propaganda anti-norte-coreana pela editora de Cho, conhecido opositor ao regime de Pyongyang.

O silêncio em torno de Bandi procura proteger do regime a pessoa por trás de uma peça de ficção literária e guardada em segredo na Coreia do Norte durante uma década por sua feroz crítica aos Kim, e que é a primeira deste tipo que é publicada desde que a península coreana se partiu em duas há já 72 anos.

"Trata-se de proteger também seus familiares", lembrou Solano em relação a uma situação que é denunciada repetidamente no livro: pelo menos três gerações da família de um infrator devem pagar na Coreia do Norte por seu crime, em alguns casos com o envio aos "kwanliso", as temidas colônias penais.

Embora Solano considere que não se pode ter certeza de 100% da origem de "A Denúncia", ressalta que o duro trabalho de tradução revelou que a linguagem utilizada no texto é a de alguém que, pelo menos, passou muitos anos de sua vida na Coreia do Norte.

Mais de sete décadas de separação fizeram com que o coreano que se fala de um dos lados do paralelo 38 comece a ser parcialmente diferente do que se ouve ou lê na outra metade da península.

É o que pôde comprovar a equipe que traduziu o livro para espanhol e que na realidade nem sequer trabalhou com o original, mas com o texto da edição de 2004 publicada na Coreia do Sul.

Em qualquer caso, "A Denúncia" parece representar muito bem o triste e silencioso lamento de todos aqueles norte-coreanos que, como os protagonistas da obra, precisam enfrentar a cada dia o cúmulo de contradições gerados em um entorno tão excessivo.

E independentemente de sua identidade, dizem os críticos, o importante é que Bandi só parece querer lançar um pouco de luz sobre um país infestado de escuridão. EFE