Autora do best-seller que deu origem à série 'A serpente de Essex' relembra traumas que viveu enquanto escrevia o livro

A cena se dá no segundo dos seis episódios de “A serpente de Essex”. Protagonizada por Claire Danes e Tom Hiddleston, a série se passa na era vitoriana e é inspirada no best-seller da inglesa Sarah Perry, vencedor do British Book em 2016, finalmente lançado no Brasil mês passado, em meio a um revival global da literatura gótica. Viúva recente, Cora (Claire Danes) observa o filho, Frankie (Caspar Griffiths), que sofre de transtorno do espectro autista, brincar com Stella, sua anfitriã no vilarejo em que o monstro mítico do título é apontado por moradores como responsável pela morte de uma adolescente. Mas a personagem de Clémence Poésy é casada com o pastor Will Ransome (Tom Hiddleston), que acende o desejo da protagonista.

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— Claire consegue, em um olhar, demonstrar alegria pelo filho estar interagindo com alguém, tristeza, pois isso não aconteceu com ela, e ciúme de Stella — diz a autora do livro. — Quando vi, pensei: e daí se ela não tem traços similares à Cora que imaginei? O que importa é que o conflito criado por mim foi traduzido com exatidão.

“A serpente de Essex” ganhou o Waterstones e foi indicado aos prêmios Dylan Thomas, Folio, Costa Books e Bailey Women’s. O êxito do segundo romance de Perry a levou para as páginas do New York Times, da London Review of Books e do Guardian, para onde escreveu um texto tocante sobre sua visita ao set da série da Apple+.

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No entanto, justamente quando escrevia seu livro mais celebrado, a autora de 41 anos foi diagnosticada com uma doença autoimune responsável por perdas ósseas e musculares. Passou por cirurgia delicada na coluna vertebral e sofreu queimaduras de terceiro grau após cochilar de cansaço ao lado de uma chaleira com água fervendo.

—Vivi por três anos com muita dor. Estou melhor, mas a série me obrigou a voltar no tempo. E a entender que o livro foi produto de uma mulher mais otimista, ainda inocente do trauma que seria uma de suas heranças pétreas — conta Perry. — É algo para mim inacreditável e assustador, assim como a literatura gótica.

Dilemas morais

Com doutorado sobre o gênero literário que nos deu “Frankenstein”, de Mary Shelley, e “Drácula”, de Bram Stoker, a escritora é um dos nomes mais lembrados, ao lado de Andrew Michael Hurley (“Loney”), Ahmed Saadawi (“Frankenstein em Bagdad”) e Hilary Mantel (“Fludd”), do ressurgimento do gótico em língua inglesa (leia na página 2 texto sobre o gênero revisitado no Brasil). Criada por família batista tradicional, ela lembra que o mergulho no fantástico foi menos escolha do que resultado de sua interação com o real tal qual o percebia.

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— Cresci com noções específicas sobre pecado, castigo, vida eterna e um diabo muito tangível, o que me aproximou da sensibilidade gótica, da percepção de que há algo além do palpável — diz a escritora.

“A serpente de Essex” começa com o fim do sujeito poderoso que violentava, física e psicologicamente, a mulher, Cora, que se vê independente após um dos dilemas morais propostos pela autora — o marido, descrente da ciência, não quer ser operado, sua única possibilidade de salvação.

Apaixonada por História Natural, a viúva deixa Londres e parte para os cafundós de Essex decidida a resolver o mistério da serpente marinha que desafia a lógica e a fé dos moradores locais, orientados pelo pastor vivido na série, com a habilidade habitual, por Hiddleston.

Os embates intelectuais dos dois evoluem para um triângulo amoroso ao pé da letra, com mais amor e menos culpa, em cenário fantástico povoado por personagens subitamente incapazes de falar, em transe no meio da sala de aula, moldados para explorar as fronteiras da medicina com o absurdo em um mundo em transição.

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— O que faz o gótico ser tão especial é a liberdade que oferece para se pensar e sentir o inexplicável sem o refúgio das religiões. Tudo é monstruoso, maravilhosamente assustador e sem dogmas— pontua Perry.

A recente onda de retorno do interesse pelo gótico nas artes, cujo marco inicial é “O castelo de Otranto”, de Horace Walpole, de 1764, está diretamente relacionado, observa Sarah Perry, às convulsões do presente.

— O gótico diz a seus leitores: as coisas estão de pernas pro ar, não são o que parecem, precisamos dissecá-las. “Drácula”, “A ilha do Dr. Moreau” e tantos outros questionam o status quo da religião e da razão, em espelho singular — explica Perry. — Quando o leitor se depara com seu reflexo, enxerga a imagem e semelhança do Criador ou as bestas e monstros de onde deveríamos ter evoluído?

A escritora revela ainda que o mal-estar contemporâneo a fez duvidar até do sentido do ofício pelo qual é celebrada:

— Desde que escrevi o livro, fiz muitos amigos médicos, enfermeiros e assistentes sociais. Eles passaram os últimos anos às voltas com decisões de vida ou morte enquanto eu pesquisava no conforto de casa. Eles fizeram diferença, enquanto minha existência parecia de pouca importância. Larguei a pena e decidi ser voluntária num posto de saúde, me dediquei a vacinar desconhecidos contra a Covid-19 — conta a escritora. — Me forcei a acreditar que oferecer prazer estético, consolo e até mero escapismo com o que escrevo também tem alguma virtude moral. Idealmente, desejo oferecer uma reflexão original sobre os tempos góticos em que vivemos. Sobrevivemos à peste, seguiremos respirando, mas para quê? Caço respostas.

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