Fechamento da prisão de Rikers Island acabará com décadas de terror

Ruth E. Hernández Beltrán.

Nova York, 12 abr (EFE).- O anunciado fechamento da prisão nova-iorquina de Rikers Island, que ao longo de 85 anos foi o pior pesadelo para muitos, provocou surpresa e incredulidade, mas também a esperança de pôr fim a décadas de terror.

O anúncio do fechamento desta prisão foi feito em 31 de março pelo prefeito de Nova York, Bill de Blasio, em um processo que se estenderá por uma década a fim de transferir os detentos para penitenciárias menores que serão construídas.

"É um bom primeiro passo" na direção correta para reformar o sistema de justiça criminal e "devolver a dignidade" a mulheres, homens e adolescentes que esperam ali por seu processo nos tribunais e para cumprir uma sentença, disse à Agência Efe Glen Miller.

Miller, que em 2016 lançou uma campanha pedindo o fechamento da prisão e foi parte do comitê nomeado pelo conselho da cidade que recomendou o fechamento, sabe perfeitamente como é "o pesadelo" de estar em Rikers.

Trata-se do maior complexo carcerário do país, composto de dez edifícios, dos quais nove estão em uso e abrigam, separadamente, homens, mulheres e adolescentes, uma usina elétrica e uma padaria.

"Quando fui a Rikers (por roubo à mão armada), tinha 16 anos e uma fiança de US$ 1.500", contou Miller, que, em seu segundo dia na prisão, foi apunhalado em quatro ocasiões.

"Isso acontece o tempo todo. Há 30 anos, eu tinha 16, e isso aconteceu durante 30 anos", indicou o agora ativista, que esteve por um ano em Rikers e, após cumprir cinco anos em uma prisão do estado, onde estudou Ciências Humanas, saiu em 2000 com a intenção de fechar a nefasta prisão.

Rikers tem cerca de 10 mil detentos, que sofrem com a carência de serviços básicos, além de humilhações e até brutalidade impactante, segundo o relatório de uma comissão que recomendou o fechamento da prisão.

Do total de internos, 40% sofrem de problemas de saúde mental. Além disso, 54,6 % são negros, 33,7% latinos e 7,2% brancos.

A maioria passa o dia todo em suas celas ou ao redor destas, "sem recreação, sem biblioteca, nada", ou em confinamento solitário durante 23 horas, afirmou Miller.

Por volta de 85% dos que estão em Rikers foram acusados de algum crime, mas estão à espera do início de seu processo judicial, muitos com uma fiança que não podem pagar, mesmo que seja baixa.

São muitos os que, como Jairo Pastoressa, estiveram durante seis anos em Rikers, sem fiança e uma data marcada para seu julgamento, o que em seu caso, nunca ocorreu.

Jairo terminou se declarando culpado em 2016 e foi sentenciado a quatro anos de prisão, porque já tinha cumprido seis na ilha.

"Uma pessoa que espera seis anos por seu julgamento não sabe qual será seu futuro", disse à Agência Efe sua mãe e agora ativista Anna Pastoressa.

"Eles o deixaram em um lugar tão horrível como Rikers, com violência, corrupção, acontecia de tudo ali; havia brigas todos os dias, que eu ouvia por telefone quando ele me chamava", acrescentou Anna, que lembrou que seu filho foi agredido por outros detidos.

"A cada dois ou três meses ia ao tribunal e diziam que não havia data para julgamento. Ele se deteriorou muito mentalmente, com oficiais que lhe diziam que era mau, que seria condenado à prisão perpétua. Eles brincam com a mente dos prisioneiros", relatou.

Anna garantiu que ficou "em choque" quando soube da proposta de fechamento de Rikers e que seu filho, agora em uma prisão do estado, não podia acreditar.

Miller, por sua vez, destacou que, mesmo que a pessoa não tenha enfrentado um julgamento, "pode ser mantida ali até que decidam o que querem fazer" e, enquanto isso, "podem matá-lo ou feri-lo".

Miller afirmou que o fechamento da prisão significará uma redução das 14 mil celas que, em conjunto, existem nas diversas instituições da cidade, das quais cinco mil estão em Rikers.

"Isto significa que os juízes não enviarão mais gente por crimes não violentos à prisão. Neste momento, enviam todo mundo (...), violentos, não violentos, com problemas de saúde mental...", lamentou Miller. EFE