Bósnia segue dividida 25 anos depois da guerra

Nedim Hasic.

Sarajevo, 5 abr (EFE).- Um quarto de século após o começo da guerra da Bósnia-Herzegovina entre muçulmanos, sérvios e croatas, o país balcânico segue dividido e convive com a ameaça de uma possível cisão do ente autônomo servo-bósnio.

Os dois entes autônomos que formam a Bósnia segundo os acordos de paz de Dayton - o comum de muçulmanos e croatas, e o sérvio -, assim como os três povos, funcionam cada um por sua conta, e o inchado aparelho burocrático - com 130 ministérios de diferentes níveis - sufoca ainda mais o funcionamento da estrutura estatal compartilhada.

"O país se afoga em dívidas, economicamente se respalda em boa parte da entrada do dinheiro da diáspora", descreveu Satko Mujagic, um jurista e ativista a favor da paz em Prijedor, uma cidade do noroeste do país onde em 1992 foram cometidos crimes de guerra em massa.

"A qualidade de vida é ruim, o nacionalismo e populismo seguem sendo a melhor maneira para chegar ao poder", acrescentou o jurista em declarações à Agência Efe.

No meio desta situação, floresce o nacionalismo como nos tempos mais obscuros do país, sobretudo na chamada República Sérvia, o ente sérvio, que tem suas origens na limpeza étnica cometida durante a guerra.

"Os líderes políticos e militares servo-bósnios que foram condenados por crimes de guerra, e inclusive por genocídio, são glorificados, e seus crimes são negados ou relativizados", disse Mujagic.

Em sua opinião, para seguir adiante, a Bósnia deve "reviver" e promover um sério "reinício" em vários aspectos.

"Necessitamos de um debate público sério sobre as causas e consequências da guerra, um reconhecimento público e marcar os lugares dos maiores crimes, para que os jovens deixem de envenenar-se com o nacionalismo", ressaltou.

Em setembro do ano passado, a República Sérvia organizou um referendo qualificado pela Corte Constitucional da Bósnia, as autoridades centrais de Sarajevo e pela comunidade internacional como um "desafio" para a estabilidade do país.

A consulta, que se referiu a um feriado nacional sérvio, é considerada uma espécie de "prólogo" para um possível referendo sobre a secessão da República Sérvia, objetivo assinalado várias vezes pelo líder servo-bósnio, Milorad Dodik.

Segundo uma pesquisa divulgada no ano passado, o único objetivo nacional que conta com um apoio majoritário entre as três comunidades é uma futura entrada na União Europeia (UE).

Mas, apesar de ter em vigor o Acordo de Estabilização e Associação com a UE desde 2015 e de ter entregado formalmente a solicitação de admissão ao bloco comunitário, o país está estagnado.

Entre os políticos muçulmanos, sérvios e croatas não há consenso sobre as reformas necessárias para o funcionamento do país e sua integração euro-atlântica.

As autoridades servo-bósnias insistem na ampla autonomia de sua entidade e os muçulmanos defendem por atacado a centralização e até a abolição dos entes, enquanto os croatas se expressam com frequência a favor de uma terceira autonomia para eles.

As dissensões entre os muçulmanos e croatas na Federação comum paralisam cada vez mais o funcionamento de suas instituições.

Na República Sérvia, por sua parte, o poderoso presidente regional Dodik favorece a amizade com a Rússia, país que muitos sérvios consideram seu aliado histórico.

De fato, mais de um terço dos habitantes do ente sérvio se opõem à entrada na UE, embora mais da metade esteja a favor, enquanto entre os muçulmanos e croatas o apoio à entrada no bloco é massivo e supera 90%.

A cada ano emigram dezenas de milhares de jovens bósnios, enquanto no país mais da metade da população ativa está sem emprego, em um entorno no qual reina a corrupção.

"Muitos amigos no mundo nos deram as costas pela corrupção e nossa própria incapacidade", comentou à Efe Admir Cavka, um deputado regional do parlamento da República Sérvia.

"O fato de que a Turquia invista hoje dez vezes mais na Sérvia que na Bósnia já diz tudo", acrescentou com certa resignação.

A maioria dos analistas independentes considera que a Bósnia necessita, além disso, mudar sua complicada organização interna, respeitando os direitos de todos seus cidadãos.

Mas também para isso seria necessário um consenso, que, no entanto, 25 anos após o começo da maior tragédia europeia desde a Segunda Guerra Mundial, continua sendo inexistente. EFE