Auxílio Brasil: último dia de recadastramento tem longas filas. Mas inscrição pode ser feita a qualquer tempo

Passados dez meses da implantação do Auxílio Brasil, a desinformação continua levando pessoas a dormirem ao relento na expectativa de conseguir fazer o recadastramento no programa de transferência de renda. Outros, sem saber que o prazo anunciado pelo Ministério da Cidadania — a se encerrar nesta sexta-feira (dia 11) — se referia apenas à revisão cadastral, correram aos Centros de Referência e Assistência Social (Cras) do município e unidades do Rio Poupa Tempo para fazer a inscrição no Cadastro Único (CadÚnico), que é a porta de entrada de programas sociais do gverno federal. O Ministério da Cidadania esclarece que a "inscrição no CadÚnico não tem prazo. O cidadão pode fazer a qualquer tempo".

Segundo a pasta, até o momento, 234,4 mil pessoas convocadas para a revisão cadastral continuam com o procedimento pendente em todo o país. Quem perder o prazo terá o benefício bloqueado nas duas folhas seguintes. Se o interessado não regularizar as informações no cadastro, o auxílio será cancelado na terceira. Após esse período, a família terá de fazer o pedido de benefício novamente, informou o Ministério da Cidadania.

Ao longo dos últimos meses, famílias inteiras, inclusive com crianças pequenas, pessoas idosas e portadores de deficiência madrugaram nas calçadas, expostas a risco e mau tempo. Esse foi o caso de Cátia Simone Corrêa de Azevedo, de 53 anos, moradora do Catiri, em Bangu, na Zona Oeste do Rio. Ela conta que chegou ao Cras Olímpia Esteves, em Bangu, por volta de 22h30 desta quinta-feira para se inscrever no CadÚnico.

— Fiz minha inscrição no Rio Poupa Tempo de Bangu em agosto, só que quatro meses depois não tinha entrado nada no Caixa Tem. Dormi de novo na fila e, quando chegou a minha vez, o atendente disse que se não tinha nada na conta era porque eu não teria direito. Saí de lá muito chateada e vim direto aqui no Cras. A pessoa que me atendeu pediu meu documento e constatou que não tinha sido feita a minha inscrição. O jeito foi vir dormir de novo para guardar um lugar na fila — disse Cátia: — Acho tudo muito absurdo, sabe? Tratam a gente como se fôssemos nada. Sem contar que dão informação errada! Todo mundo que está aqui na fila achava que hoje era o último dia para fazer a inscrição, quando na verdade (o último dia) é só para o recadastramento.

Tainá Semeão Valente, de 29 anos, moradora da Vila Kennedy, deixou os três filhos em casa e foi pernoitar na porta do Cras para fazer o recadastramento.

— Recebi o aviso pelo aplicativo do Auxílio Brasil e vim fazer para não ficar sem o benefício. Como meus filhos mudaram de escola (o que exige a atualização do cadastro), tive que vir dormir na calçada para ser atendida — explicou Tainá, que chegou ao Cras às 21h de quinta-feira.

A falta de resposta também levou Daniela de Souza Fraga, de 44 anos, moradora da Vila Kennedy, a buscar o Cras Olímpia Esteves. Ela fez o recadastramento em junho passado, quando excluiu o filho, que tinha conseguido um emprego, e a mãe, que se aposentou por idade, do seu cadastro. No entanto, o Auxílio Brasil de Henry Cristian Fraga, de 20 anos, filho de Daniela, não foi concedido.

— Logo depois que pedi a exclusão, ele fez o requerimento e até agora nada de auxílio nem de uma resposta. Por isso, cheguei aqui às 18h de ontem (quinta-feira) para ver se consigo dar uma solução. Meu filho perdeu o emprego e mora de aluguel. A situação ficou muito difícil pra todos nós — afirmou Daniela.

Sentadas na calçada as pessoas dividem o pouco que tem: uma leva café, outra biscoito, e uma terceira fica responsável pela água. Na madrugada insone no meio da rua, elas dividem também esperança e histórias de vida.

No Rio Poupa Tempo

Mais adiante, no Rio Poupa Tempo de Bangu, que fica no shopping, três mulheres estavam no início da fila aguardando a unidade abrir. Thaís Lisboa, de 34 anos, moradora de Inhoaíba, na Zona Oeste, oi enfática ao ser perguntada sobre a hora em que chegou ao posto:

— Chegamos 23h58! E estamos aqui uma cuidando da outra.

Ao lado de Thaís estava a jovem Thamiris Lima, de 16 anos, mãe de um bebê de 7 meses. Moradora de Inhoaíba, ela queria fazer a primeira inscrição, como tantos outros que aguardavam na fila, acreditando que esta sexta-feira seria o último dia para fazer o CadÚnico.

— É a primeira vez que fico longe do meu filho. Deixei com minha avó, porque não tem condição de dormir na calçada com um bebezinho — contou a jovem.

Rosilene Lisboa, de 54, moradora de Campo Grande, mãe de Thaís, estava na fila para fazer o recadastramento.

— Fiz o último dois anos atrás e recebi um comunicado pelo aplicativo de que teria que refazer o recadastramento. É com esse dinheiro que consigo colocar comida dentro de casa — explicou.

Um erro no cadastro realizado no Rio Poupa Tempo levou Paulo Henrique do Nascimento, de 50 anos, morador de Senador Camará, de volta à calçada da unidade:

— Estou desempregado desde março, não tenho de onde tirar dinheiro. Faço um bico aqui, outro ali, mas a situação está ruim para todo mundo, e o dinheiro é pouco. No dia 19 do mês passado, fiz minha inscrição, mas o dinheiro não saiu. Resolvi ligar para o telefone 121 e, depois de ficar tentando por mais de uma hora, consegui atendimento. Fiquei sabendo que minha renda era superior à exigida pelo programa. Só que o valor que estava lá no cadastro é diferente do que eu informei. Como pode? — questionou Paulo, que chegou meia-noite ao Rio Poupa Tempo.

Marido doente

Patrícia Alves de Moraes Kaye, de 45 anos, que mora em Campo Grande, acreditava que nesta sexta-feira seria a última oportunidade para fazer a inscrição no CadÚnico. Casada com Bruno Kaye, de 40, e mãe de dois filhos, ela tem lutado para manter a família e cuidar do marido, diagnosticado com câncer. Ele se recupera de uma cirurgia no cérebro para a retirada de nódulos. Nos exames realizados durante a internação, a equipe médica descobriu que os nódulos na cabeça eram metástase de um câncer de pulmão. Ele vai passar por todo o procedimento cirúrgico novamente.

— Meu marido não anda mais, está com um lado do corpo paralisado. Toda saúde e vitalidade foram embora. Vim correndo hoje porque consegui uma pessoa para ficar com ele em casa — contou Patrícia, que às 4h já estava na fila.

Ticiane Cristina de Souza Tavares, de 25 anos, moradora de Campo Grande, e Vanessa Souza, de 32, que vive em Santíssimo, também correram ao shopping para fazer a primeira inscrição no CadÚnico, temendo que fosse o último dia.

— Por que não informam direito? É um desespero só! — reclamou Ticiane.

Em Madureira

Em Madureira, no Cras Zózimo Barroso do Amaral, Maria Antônia Paulino, de 54, que mora em Quintino, na Zona Norte, estava sentada na calçada, desolada, à espera da abertura do portão para fazer o recadastramento. Vítima de uma enxurrada que destruiu parte de sua casa em 2011, ela deixou de receber o aluguel social, implantado somente em 2018, há dois anos. O dinheiro, dizem, está creditado em uma conta que ninguém sabe qual é.

— Recebo o Auxílio Brasil porque a assitente social aqui do Cras conhece a minha situação. Tenho dois filhos e estou desempregada. A minha casa foi inteditada pela Defesa Civil e tenho que pagar aluguel, que é o valor do auxílio (R$ 600). Para comer, faço uma faxina aqui, outra ali, mas o dinheiro não dá. Minha conta de luz tem o desconto da Tarifa Social de Energia, mas mesmo assim estou com três em atraso — disse Maria Antônia.

Segundo ela, o aluguel social — que levou sete anos para ser concedido — era de R$ 450:

— Com ele, eu pagava meu aluguel. Mas nos dois últmos anos, duas coisas aconteceram: o aluguel da casa em que moro subiu, e o social deixou de ser pago. Já andei por tudo que é canto, e ninguém sabe me dizer o que houve com o dinheiro — reclamou Maria Antônia: — Perdi minha casa porque ocuparam um terreno da prefeitura que ficava atrás dela, construíram moradias e, com a enxurrada de 2011, tudo veio abaixo e derrubou meu muro e partes da casa, que ficou interditada. Os barracos foram reconstruídos, estão todos morando lá. E eu, que dependo desse aluguel social para pagar onde morar, fico sem saber como vou me virar.