Auxílio emergencial de 1000 dólares? Governo Bolsonaro usa matemática alternativa e ainda erra o cálculo ao tentar explicar a conta

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 (AP Photo/Silvia Izquierdo)
(AP Photo/Silvia Izquierdo)

Por Taís Seibt

Na abertura da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em setembro, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse que seu governo concedeu “auxílio emergencial em parcelas que somam aproximadamente 1000 dólares para 65 milhões de pessoas”. A agência Fiquem Sabendo questionou a contabilidade do presidente via Lei de Acesso à Informação (LAI), mas o governo errou a conta ao tentar explicar a matemática usada para chegar ao valor citado no discurso.

Pelas contas do governo, o valor investido dividido pelo número de beneficiados em cada fase resulta em uma “média por beneficiário” de R$ 5.067,00. Na conversão de moeda com dólar cotado a R$ 5,43 (que é o valor de referência citado na tabela, sem especificar a data de câmbio considerada), o resultado seria de US$ 933,15 por cidadão.

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O cálculo da Presidência é difícil de entender, pois estabelece duas médias, uma para cada fase do programa, e soma essas duas médias para chegar ao valor de R$ 5 mil por beneficiário. “É errado somar essas médias porque há uma diferença de 6 milhões de beneficiários, ou 10% do total, é uma parcela significativa”, explica o economista Gustavo Inácio de Moraes, coordenador do curso de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Para obter uma média mais coerente, o mais indicado seria somar o valor total pago e dividir pelo conjunto de beneficiários.

De acordo com informações sobre o auxílio emergencial no Portal da Transparência, foram pagos R$ 182 bilhões a 67 milhões de pessoas até outubro, uma média de R$ 2,7 mil por cidadão, equivalente a 500 dólares - metade do valor citado pelo presidente na ONU, seguindo a mesma taxa de câmbio considerada pelo governo na tabela enviada via LAI.

O próprio Portal da Transparência contrapõe a “média aproximada” da Presidência: em um mapa, é possível consultar a média por beneficiário no ano, sendo que a maior faixa de valor recebido vai até R$ 3 mil e somente quatro Estados alcançam essa média - Alagoas, Maranhão, Piauí e Sergipe. A quantia paga irá aumentar com a integralização das parcelas adicionais de novembro e dezembro, mas não deve chegar ao patamar médio de R$ 5 mil por cidadão, até porque o benefício foi reduzido pela metade ao ser prorrogado.

Ao analisar o documento, Moraes observou ainda que, além de ser equivocado somar as duas médias, a conta não fecha. Na fase 1, o valor de R$ 254 bilhões dividido por 67 milhões de beneficiários daria R$ 3.791, e não R$ 3782, como mostra a tabela. Na fase 2, os R$ 79 bilhões entre 61 milhões de pessoas, resultaria em R$ 1.295 - e não R$ 1.285.

A tabela do governo também não é clara quanto ao número de cidadãos que receberam o auxílio. Considerando o valor total das duas fases (R$ 333 bilhões) dividido por 67 milhões de beneficiários, o resultado fica mais próximo do anunciado pelo governo: R$ 4.970. Moraes pondera que a diferença pode ser explicada pelo uso de valores redondos na descrição do total investido, mas a informação é imprecisa, na avaliação do economista, por tratar de universos diferentes de beneficiários, o que inviabiliza a soma das médias, como foi feito pelo governo.

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