Avó aprende a ler com o neto na pandemia por meio de aula virtual

VANESSA DA ROCHA
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FLORIANÓPOLIS, SC (FOLHAPRESS) - Sentado na mesa da sala, Eduardo Hinckel, 7, cumpria as tarefas online da escola sem perceber os olhares atentos da avó. Na medida que a professora avançava no ensino de juntar as sílabas, o interesse da matriarca aumentava. Na pandemia da Covid-19, a aula virtual do menino de São José, em Santa Catarina, foi o despertar de uma mulher para o processo de alfabetização. "Eu não estava indo para a escola, estava fazendo aulas online, e a minha avó foi me acompanhando", diz a criança. A aposentada Marlene Hinckel, de 63 anos, não teve acesso à escola. A infância na área rural de Bom Retiro, na serra catarinense, foi dedicada a cuidar dos oito irmãos enquanto os pais cuidavam da lavoura. "Eles trabalhavam na roça. Tinham um sítio grande. Então, nunca se importaram (para) a gente aprender a ler". O impacto de não ter sido alfabetizada foi sentido ao longo da vida. "Na minha infância, na minha adolescência. Eu ia ao mercado fazer compras e não conseguia comprar as coisas que eu queria. Não conseguia ler os rótulos", diz. "Cheguei muitas vezes em casa sem conseguir comprar o que eu precisava. Eu sempre tive muita tristeza sobre isso". Já na vida adulta, as tarefas de rotina dependiam da ajuda de terceiros. "Dificuldade para pegar um ônibus, para ir num laboratório. Eu estava na frente do laboratório, mas tinha que perguntar para as pessoas onde que era. Mostrava o papel do exame". Marlene conta que não saber ler produziu memórias que marcaram. "Muitos riam de mim: 'essa mulher está perguntando, mas está ali na frente'. Foi muito sofrido", diz. "Eu não conseguia me achar. A minha vida era sempre perguntando aos outros". Em 2019, Marlene percebeu que ainda era tempo de aprender e se matriculou no curso de EJA (Educação de Jovens e Adultos). "Eu sempre vinha procurando (formas de aprender). Eu tinha amigos que sabiam ler e eu nunca tive na vida aquele prazer". No início de 2020, ela já tinha aprendido o alfabeto e estava ansiosa para o próximo passo que era juntar as sílabas, mas a pandemia interrompeu o plano. "Eles ofereceram aulas online, mas eu não sei mexer no computador e não consegui acompanhar. Tive que parar". No primeiro mês de isolamento, em março de 2020, a filha e o neto ficaram na casa dela. O menino, que estava na primeira série do ensino básico de uma escola particular do município, passou a ter aulas no sistema remoto. "Eu ouvi a professora explicando como juntar as sílabas. Ela explicou que dava pra juntar três letras. Eu não sabia". "Eu fiquei olhando e pensei 'a minha aula parou, mas eu vou estudar junto com o meu neto pela internet. Ele tem 7 anos e está conseguindo, eu também vou conseguir' e através daquilo ali eu fui aprendendo", diz. As descobertas durante as aulas do neto motivaram Marlene a seguir em frente no aprendizado. Todos os dias de manhã, ela passou a acompanhar as aulas junto com a criança. Sentada ao lado do menino, ela realizava os exercícios no caderno. Para continuar com a rotina de aulas, Marlene foi para a casa da filha durante a pandemia. Hoje, já se considera alfabetizada. "Consigo ler a bíblia. Até para fazer um bolo, já consigo ler a receita. Antes eu não conseguia", diz. No convívio familiar, ela é incentivada. "Eu empresto meus livros pra ela", diz o neto Eduardo. Por saber das dificuldades de não estudar, Marlene destacou para os filhos a importância da educação, mas lamenta não ter conseguido ajudá-los nas tarefas da mesma forma que o neto está lhe ajudando. "Lá atrás, eu nunca tive a oportunidade de ajudar os meus filhos a ler, a escrever. Muitas vezes rodaram na escola por falta da ajuda da mãe". O neto de Marlene aprendeu a importância da leitura através das histórias de dificuldades relatadas pela avó. "É muito triste não saber ler. Todo mundo deveria ter a chance de ler", diz o menino. Segundo dados do IBGE, 11 milhões de brasileiros são analfabetos. A última pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Educação mostrou que em 2019 a taxa de analfabetismo atingiu 6,6%. Apesar do índice ser menor em relação aos anos anteriores, a taxa está acima das metas anuais do Plano Nacional de Educação (PNE) que prevê a erradicação do analfabetismo no Brasil até 2024. "Eu tive que aprender depois de vovó. Hoje, com a graça de Deus e do meu neto que está estudando online. Estou tendo aulas com ele. Eu vou no mercado hoje e já sei o que vou comprar. Consigo ler. Consigo ler trecho de música que passa na televisão e na internet. Um pedaço do sonho da minha vida eu já estou realizando. Então, eu aprendi. Tudo online. E vou aprender muito mais ainda", diz.