Avó de meninos desaparecidos relata drama vivido há 18 dias, pistas falsas e até tentativa de extorsão: 'Não consigo mais dormir, nem comer'

Vera Araújo
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Cléber Júnior / Agência O Globo

RIO — Os passos são lentos, mas firmes. Nem o ferimento no joelho esquerdo, consequência de um acidente de carro, no último dia 5 — quando foi verificar uma das dezenas de denúncias que recebeu sobre falsos paradeiros dos netos, Lucas, de 8 anos, e Alexandre, de 10 — deixa Silvia Regina da Silva, de 58, em casa. Avó de duas das três crianças desaparecidas há 18 dias em Belford Roxo, ela não permite que o cansaço a vença. É para ela que chegam as principais informações por aplicativos de mensagens e ligações, vindas de vizinhos e amigos do Morro do Castelar, onde fica o condomínio onde mora.

— Não tem cansaço. Só sossego quando vir as minhas crianças em casa. Recebi muitas notícias falsas. Até dinheiro me pediram para entregar meus netos de volta, mas a pior notícia (falsa) eu recebi na noite do último domingo. Contaram que meus netos morreram picotados — relata Silvia, com voz pausada.

A notícia teria vindo de um enteado do homem levado para a delegacia pelos moradores do Morro do Castelar, na noite de segunda-feira. No entanto, a polícia não encontrou provas do envolvimento dele no sumiço dos meninos. No entanto, ele foi preso em flagrante por armazenar conteúdo pornográfico no celular que usava. Havia um vídeo em que os enteados dele sofriam abuso sexual.

— Depois disso, veio a história de que o Fernando Henrique (o terceiro menino desaparecido, de 11 anos) foi roubar um passarinho e o mataram a pauladas. Lucas e Alexandre teriam corrido e levado tiros pelas costas. Em seguida, jogaram os corpos num rio, no Babi (localidade de Belford Roxo). Passo tudo para o delegado — conta a avó das crianças.

Nesta terça-feira, depois de um tumulto na porta da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF), em Belford Roxo, por conta da prisão do vizinho com conteúdo pornográfico, Silvia recebeu uma mensagem por aplicativo com uma dica sobre um local onde os netos e o coleguinha Fernando poderiam estar. A situação era tensa. Um ônibus tinha sido inclusive incendiado num protesto quase em frente à delegacia. Ela atravessou o pátio da DHBF e foi passar a informação ao delegado titular, Uriel Alcântara. Imediatamente, as buscas foram feitas, mas nada foi encontrado.

Silvia lembra do dia 27, quando viu os netos pela última vez:

— Eu estava fazendo o almoço. Estranhei, porque eles não voltaram do futebol, por volta de 13h. Eles só viviam no campinho do condomínio. Os três estavam sempre juntos. Deste dia em diante, não tive mais sossego. Já perdi as contas dos locais que percorri atrás deles. Fora os que meus filhos e amigos foram checar. Aqui na Baixada Fluminense e no Rio (capital). Não consigo mais dormir, nem comer.

No dia em que sofreu o acidente de carro, no dia 6 de janeiro, Silvia tinha ido checar a informação de que Lucas, Alexandre e o amigo Fernando foram vistos numa sorveteria no bairro Jardim Tropical, em Nova Iguaçu, também na Baixada Fluminense. No retorno, o pneu do carro em que viajava estourou e o veículo capotou. Ela e o vizinho foram socorridos pelo Corpo de Bombeiros e levados para o PAM (Posto de Assistência Médica) em Duque de Caxias e liberados depois de atendidos. Ela continua tomando antibióticos caros por causa do ferimento no joelho.

A avó das crianças acredita que elas ainda estejam presas em algum local.

— Minhas filhas vieram fazer o registro no último dia 27, mas a polícia orientou que elas voltassem no dia seguinte, porque tinha que completar o prazo de 24 horas como desaparecidos. Desde este dia, temos feito as buscas por conta própria. O registro foi feito no dia 28. A DHBF está fazendo operações, temos ido em algumas com eles. Não paramos de procurar. Tenho esperanças de que iremos encontrá-los. Eles são alegres. Só querem brincar. Meu coração de avó diz que eles estão vivos — diz Silvia, que vai continuar indo à delegacia, como faz todos os dias.