Avô peregrina com neta por cinco hospitais do Rio para retirada de objeto no mariz

Gustavo Goulart
Lívia Pacheco está desde segunda com suspeita de trombose

Dois casos envolvendo crianças em unidades da rede municipal de Saúde mostraram, na manhã desta terça-feira, a gravidade da crise no Rio de Janeiro. No Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro, o aposentado Sérgio Motta, de 67 anos, torcia para que sua peregrinação tivesse fim na nesta manhã.

Morador de Seropédica, na Baixada Fluminense, ele já tinha estado, desde segunda-feira, em cinco unidades hospitalares com a neta Keveyn Vitória, de apenas 3 anos, para tentar a retirada de um peça de metal que se alojou no nariz da criança durante uma brincadeira.

– Minha neta me procurou chorando muito. Estava saindo muito sangue do nariz e percebi que havia um objeto. Corri com ela de carro para a UPA de Seropédica. Mas não havia atendimento. Depois fui para o Hospital Pedro II. Isso era por volta de 18h de ontem. Não tinha atendimento e nem otorrino laringologista, que é a especialidade de que ela precisa – conta o aposentado.

– De lá vim para o Hospital Souza Aguiar. Cheguei aqui por volta de 19h. Mas informaram que o otorrino já tinha ido embora. Fui para o CER (coordenação de emergência regional) Centro, mas lá disseram que não tinham condições de atender. Corri para o Hospital Miguel Couto. Alegaram que não havia instrumentos para a retirada do objeto. Resolvi desistir e fui embora para casa onde cheguei à meia-noite. Voltei para o Souza Aguiar agora pela manhã. Minha neta está lá dentro mas, eu não sei o que está acontecendo – contou, aflito, o avô da criança.

No Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, uma situação inusitada comoveu várias pessoas pelo fato de envolver um bebê de 3 meses e a sua mãe, Gisele de Souza Bouças, de 34 anos, que se acidentou. Arthur chorava de fome enquanto a mãe estava há duas horas sendo atendida por causa da queda de uma pedra de mármore no dedão do pé esquerdo.

O menino queria mamar e sua avó, Maria Inês de Souza, de 65 anos, foi barrada na porta do hospital ao tentar entrar com o neto. Foi preciso a intervenção de pessoas próximas para sensibilizar o porteiro da necessidade do bebê encontrar sua mãe. Depois de muita conversa, o porteiro permitiu a entrada.

– São uns insanos. Isso demonstra a que ponto chegou o nível de estresse desses funcionários que, parece, perderam a sensibilidade. Será que nenhum deles têm filhos? Deixar um bebê com fome é muita maldade. E o prefeito fala que está tudo bem com a saúde. Acho que é porque a família dele é tratada em clínicas particulares – desabafou Gisele ao deixar a emergência com o bebê no colo com a boca grudada em seu seio esquerdo.

Também no Hospital Salgado Filho, Djanira Mariano Vieira, de 67 anos, fez o sinal de negativo com as mãos ao deixar a unidade com seu irmão, Valdecir Vieira Mariano, de 60 anos. Vítima de um AVC no dia 11 de outubro, Valdecir foi internado na unidade e ficou com sequelas. Por causa de seu peso e da fraqueza num dos lados do corpo, ele torceu um dos pés ao pisar em falso. Teve alta no dia 27 de novembro. Mas retornou rapidamente após sofrer uma fratura de fêmur.

Nesta terça-feira, depois de duas semanas de internação, ele foi transferido para o Hospital da Lagoa, já que não havia condições de operá-lo no Salgado Filho.

– É uma sensação horrível que estamos tendo. Estamos perdidos no mundo. Ninguém cuida de ninguém. Como pode um hospital desse não ter condições de fazer uma cirurgia tão importante como essa? – questionou de Djanira enquanto embarcava numa ambulância municipal sem ar condicionado.

Formanda em técnica de enfermagem, Lívia Pacheco, de 24 anos, está há um dia no CER Centro aguardando para fazer um exame de eco doppler por causa de suspeita de trombose na perna direita. Ela e uma amiga, a DJ Lyris Ferreira, de 30 anos, deixaram o Jardim América por volta de 11 horas de segunda-feira e chegaram ao Hospital Municipal Souza Aguiar pouco antes de meio-dia. Foi orientada a procurar o CER, onde chegou às 12h de segunda-feira.

– Tem que mudar tudo estou desde o meio-dia de ontem aqui aguardando para fazer esse exame pode mostrar uma trombose. Minha perna está doendo muito e a musculatura muito rígida. Os sintomas são de trombose. É um exame que precisava ser feito com rapidez. Mas até agora aguardo o pedido será encaminhado ao Hospital Souza Aguiar. Estou me alimentando de lanches e essa noite eu consegui uma maca para dormir – disse a mulher enquanto aguardava o pedido de exame ser encaminhado.