Avanços da medicina aumentam as chances dos prematuros extremos

Foi entre sorrisos e lágrimas que a gaúcha Maressa Vieira Fauth, de 37 anos, pegou o filho Klaus no colo pela primeira vez. Nascido com 22 semanas e 5 dias — quase metade do tempo de uma gestação —, e pesando apenas 510 gramas, o bebê desafiava os limites da ciência, a equipe médica que o atendeu no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, e a fé da família. A mãe só conseguiu colocá-lo nos braços quando ele completou um mês na UTI. Ao todo foram cinco meses e meio de cuidados intensivos até que, enfim, veio a alta. Com seis anos completados mês passado, Klaus é exemplo de uma nova geração de bebês extremamente prematuros que sobrevivem graças aos avanços da medicina, algo impensável anos atrás.

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— Quando estava com 22 semanas de gravidez, tive um sangramento e entrei em trabalho de parto — lembra Maressa. — Ele nasceu tão pequeno, frágil, vermelhinho, olhinhos fechados, os dedinhos ainda não estavam separados. Senti muita emoção e medo. Eu sabia que era difícil que bebês tão prematuros sobrevivessem. E tinha o risco de sequelas. Foi uma luta que parecia sem fim, mas ele foi muito guerreiro.

Klaus passou por cirurgias no coração, nos olhos, enfrentou uma grave enterocolite (infecção no sistema digestivo), infecções na pele. A família o visitava diariamente.

— Hoje ele leva uma vida normal, é uma criança feliz, ativa, que corre, pula, brinca. Não ficou com sequelas, só uma miopia, que não é nada perto do que poderia ter sido. É o xodó da casa — diz Maressa.

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No Brasil, são considerados prematuros os bebês que nascem antes de 37 semanas de gestação (a contagem média da gravidez é de 40 semanas). São cerca de 320 mil bebês nessas condições por ano, o equivalente a 877 prematuros por dia, segundo o Ministério da Saúde. De acordo com dados do Sistema Único de Saúde (SUS), 12,2% dos nascidos vivos ano passado vieram ao mundo antes das 37 semanas.

Nos últimos anos, os hospitais começaram a se movimentar para dar conta dos bebês prematuros extremos e orientar corretamente as famílias. O Grupo Santa Joana, por exemplo, passou a considerar o limite de investimentos em bebês extremamente prematuros a partir das 22 semanas — o que não muda exatamente os protocolos de cuidados, mas ressalta a necessidade de que os médicos falem com os pais sobre as possibilidades de sua sobrevivência (e possíveis implicações de saúde).

Há alguns anos, essa delicada conversa não ocorreria, dada a impossibilidade de sobrevivência. O desenvolvimento de novas tecnologias, contudo, permitiu que um bebê tão precoce tivesse possibilidades de cuidado: desde incubadoras que mantêm a hidratação no ponto correto — uma pele sem fissuras é menos propensa a sofrer infecções — até o uso de medicamentos que agem no sistema imunológico.

— Das 22 às 24 semanas há uma zona cinzenta, tudo pode acontecer. Por isso orientamos as mães. O que muda é que agora observamos a necessidade de orientar as famílias, pois antes os bebês não sobreviviam — diz a obstetra Suelly Dornellas, do Grupo Santa Joana. — Aqui no Brasil, estima-se que essas crianças extremamente prematuras sejam 5%, com chance de 50% de sobrevivência.

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Futuro luminoso

Os neonatologistas observam, impressionados, a ruptura de barreiras que pareciam intransponíveis há pouco tempo.

— Há 20 anos, falávamos da dificuldade da sobrevivência às 26 semanas, agora voltamos à mesma discussão para as 22 semanas — diz a neonatologista Maria Augusta Gibelli, da Maternidade São Luiz Star. — Na década de 1970, com incubadoras mais desenvolvidas, o limite da viabilidade dos bebês começou a cair. Anos depois, aprendemos a importância dos medicamentos específicos.

Romy Zacharias, coordenadora médica de neonatologia no Hospital Albert Einstein explica que, em geral, as famílias brasileiras pedem que se invista no bebê independentemente de sequelas.

— Diante de qualquer dúvida, investimos. Antes das 23 semanas, ainda há desenvolvimento de diversos órgãos em andamento, mas cada bebê é um e evolui diferente. O que mais nos preocupa, em geral, é a função pulmonar e neurológica.

Cada dia dentro do útero da mãe conta muito para o amadurecimento cerebral e o desenvolvimento dos órgãos. Na ausência dessa incubadora perfeita, os médicos tentam reproduzir na UTI o ambiente uterino. Há “ninhos” especiais para aconchegar os bebês, onde sons, umidade, luz, tudo é pensado.

— Hoje a tecnologia garante um atendimento mais gentil. Há técnicas de suporte ventilatório e de alimentação menos invasivas, cateteres adequados ao tamanho desses bebês extremos — diz Desirée Volkmer, chefe do serviço de Neonatologia do Hospital Moinhos de Vento. — E a equipe que atende tem de ser multiprofissional, com terapeuta ventilatório, fonoaudióloga para que o prematuro tenha sucção e deglutição adequadas mais tarde, nutricionista, psicóloga. É preciso atuar antes do bebê apresentar alguma dificuldade. É alta complexidade, mas com extremo amor.

Dan Farine, médico e professor adjunto da Universidade de Viena, explicou ao GLOBO que uma dificuldade são os diversos problemas de saúde no futuro, ams reconhece, que os prazos começam a reduzir cada vez mais:

— Talvez em 20 anos possamos falar em gestações possíveis que acabam em 20 semanas. Eu pensava que haveria um limite, talvez as 22 semanas por conta dos pulmões, mas ainda não sabemos.