Avião cai em Belo Horizonte e deixa ao menos três mortos

FERNANDA CANOFRE
BELO HORIZONTE, MG, 21.10.2019 - QUEDA-AVIÃO-MG - Avião de pequeno porte, prefixo PR-ETJ, caiu na esquina das ruas Minerva com Belmiro Braga, no bairro Caiara, na região noroeste de Belo Horizonte, na manhã desta segunda-feira (21), deixando ao menos três mortos. (Foto: Alex de Jesus/O Tempo/Folhapress)

BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - Um avião de pequeno porte caiu sobre carros em uma rua do bairro Caiçara, em Belo Horizonte, na manhã desta segunda-feira (21). O local da queda fica nas proximidades do aeroporto Carlos Prates.

Até o momento, o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais confirmou três mortos e três feridos no acidente aéreo.

Segundo o coronel Erlon Dias do Nascimento Botelho, subcomandante do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, o avião tinha quatro ocupantes. Entre os três mortos, um deles seria ocupante do avião, outro estava em um veículo atingido e outro era, provavelmente, um pedestre.

Já os três sobreviventes, segundo Botelho, estavam dentro da aeronave. Todos são homens e sofreram queimaduras de 2º e 3º graus em várias partes do corpo. O quadro de saúde deles é considerado grave.

A aeronave era um Cirrus SR 20, prefixo PR-ETJ, e estava apta a voar, de acordo com a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). A empresa paranaense Helicon Taxi Aéreo confirmou que era a proprietária da aeronave, mas que a vendeu, em julho deste ano, para Israel Campas dos Santos.

O monomotor decolou do aeroporto Carlos Prates, por volta das 8h15, e tinha com destino final a cidade de Ilhéus (BA), a 1.135 km de Belo Horizonte, segundo plano de voo repassado pela Infraero (estatal que controla os aeroportos brasileiros).

O aeroporto, que fica a 7 km do centro da capital mineira, é usado especialmente para escolas de aviação, aviação desportiva, construção de aeronaves e aeronaves de pequeno porte.

Com início das atividades em 1944, segundo o site da prefeitura de Belo Horizonte, o Carlos Prates foi criado para atender ao Aeroclube do Estado de Minas Gerais, voltado para formação de quadros da aviação civil e da militar.

Por meio de nota, a Infraero disse que mobilizou toda a sua estrutura de emergência para atender o acidente e destacou que o aeroporto Carlos Prates "opera dentro de requisitos de segurança estabelecidos nas normas da aviação civil brasileira."

GRATIDÃO POR ESTAR VIVA, DIZ ADVOGADA

A advogada Zélia Paiva, 68, estava na cozinha de casa, preparando o café da manhã quando ouviu um estrondo. Ela começou a procurar a chave para sair de casa, onde estavam ainda o marido e a secretaria do lar. “Sensação é de gratidão a Deus por estar viva, e triste pelas pessoas que perderam a vida. Tem que ser feito um estudo amplo sobre [essa situação], porque o aeroporto é no meio das casas”, diz ela.

Zélia contou que já teve medo com o acidente que ocorreu na mesma rua, em abril. Ela ficou sem energia elétrica por dois dias. Os moradores começaram a organizar um grupo de WhatsApp após o acidente para cobrar providências, mas ela não conseguiu entrar porque lotou.

A professora Dardânia Oliveira, 32, estava no terceiro andar da academia onde dá aulas quando viu o paraquedas do avião abrindo e ele se aproximando. O carro dela, um Etios, que estava estacionado em frente ao prédio, foi um dos queimados pelas chamas.

“Se tivesse chegado fogo no prédio, poderia ter matado todo mundo. Porque o piso é todo de borracha”, conta ela. “Perdi tudo que estava no carro, documentos, notebook e mercadorias que meus pais vendem”.

Uma aluna dela, que estava descendo de um Logan, do outro lado da rua, no momento da queda, conseguiu escapar pela porta do passageiro. Ela foi para o hospital em estado de choque.

O motorista Guilherme Henrique Fonseca, 32, também disse ter ouvido um estrondo, por volta das 8h20, e correu para a rua que fica acima da locadora de veículos onde trabalha.

Chegando ao local, viu um homem em chamas e pedindo socorro. Ele tirou a camisa para tentar abafar as chamas no corpo do homem, que ele não sabe se saiu do avião ou de um dos carros atingidos. É uma cena que nunca vou esquecer. Ele estava muito quente, o chão, asfalto, tudo", disse.

Em abril deste ano, outro avião de pequeno porte caiu no mesmo bairro. A aeronave ficou destruída pelo fogo e, segundo os bombeiros, foi encontrado um corpo, carbonizado.

O bairro Caiçara é um polo comercial da capital mineira, conhecido pelo Espigão (apelido do alto Edifício Jardim Caiçara) e pelo Shopping Del Rey.

O Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, do governo federal) informou que investigadores estão a caminho do local do acidente para coletar dados e material para análise da causa. Não há previsão para o fim da investigação, mas o órgão afirma que o trabalho será realizado no "menor prazo possível".


AS INVESTIGAÇÕES DE ACIDENTES AÉREOS NO BRASIL:

​Quem pode ajudar com informações?

- Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), com licenças e certificados;

- Fabricante da aeronave, com dados sobre o avião;

- Sindicatos e outras entidades de classe, com informações sobre as empresas aéreas.


Qual é o protocolo seguido?

NSCA 3-13 (Norma do Sistema do Comando da Aeronáutica), que consiste em:

1) Cenipa forma uma comissão de investigação

2) Preserva o local e indícios

3) Verifica os danos causados à/pela aeronave

4) Coleta e confirma dados

5) Faz um exame detalhado imediatamente após as ações de resgate

6) Gravadores de voo são enviados o mais rápido possível ao Cenipa

7) Cenipa conclui o relatório final da investigação

8) Autoridade aeronáutica o aprova

9) Cenipa deve torná-lo público em sua página na internet


Quem faz o quê?

O investigador:

- Tem controle e acesso irrestrito à aeronave, aos destroços e a outros materiais, como gravadores de voo;

- Deve estabelecer a coordenação com outros órgãos, como polícia, Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, Anac, Decea (Departamento de Controle do Espaço Aéreo), entre outros.


A autoridade policial:

- Deve isolar o local até a liberação pelas autoridades aeronáuticas e pelos agentes da perícia criminal.


O operador ou proprietário da aeronave:

- Deve prestar todas as informações e documentações solicitadas; se necessário, pode auxiliar na análise de dados.


O Cenipa:

- Deve fornecer informações relevantes às famílias e sobreviventes.


O que acontece quando uma aeronave está desaparecida?

Assim que as buscas acabam, é iniciada uma investigação com os dados conhecidos. Se o avião não for encontrado 12 meses após a ocorrência, a investigação é concluída com os dados existentes.


O que é a caixa preta?

É o conjunto de gravadores de áudio e de dados embarcados na aeronave e que em caso de acidente podem fornecer informações sobre o voo.


O que é o gravador de voz?

É um dispositivo que capta e registra todos os áudios da cabine de uma aeronave. Com ele, pode-se saber, por exemplo, o que o piloto e o copiloto conversaram, o que o piloto disse à tripulação ou aos passageiros e até eventuais ruídos da aeronave que podem ser importantes na investigação de um acidente, como falhas mecânicas.


O que o gravador de dados de voo registra?

A depender do modelo do avião, ele pode registrar dados técnicos como altitude, velocidade, pressão, aceleração, posição do avião, entre outros.