Avião gigante simboliza esperança e fracasso na retirada do Afeganistão

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Se você não esteve na clausura de um monastério de uma ilha isolada nas duas últimas semanas, certamente já viu ao menos uma imagem dele.

Provavelmente duas: uma associada ao fiasco americano em sua retirada do Afeganistão e outra como símbolo da esperança de milhares de civis que tentam fugir da volta do grupo fundamentalista islâmico Talibã ao poder no país asiático, agora temperada pelo terror do Estado Islâmico.

Trata-se do Boeing C-17 Globemaster 3, o avião de transporte gigante que está no centro da operação dos Estados Unidos que já tirou mais de 100 mil pessoas da capital afegã desde a noite do dia 14, quando a chegada dos extremistas era iminente.

No dia seguinte, um domingo, materializou-se a cena de desespero que, ao mesmo tempo, virou inspiração para o esforço de retirar não só ocidentais, mas principalmente civis afegãos que temem o retorno das práticas brutais aplicadas pelo Talibã em seu reino de terror de 1996 a 2001.

Naquele dia, um C-17 da principal base americana no Oriente Médio, Al Udeid (Qatar), voou para Cabul. A pista estava tomada de pessoas que haviam passado a noite no aeroporto da cidade, e nada menos que 823 deles se apinharam no compartimento de carga do avião.

Foi o recorde mundial de transportes de pessoas em um só voo, incluindo na conta 183 crianças que foram no colo dos pais.

Em configuração normal, o C-17 pode levar cerca de 140 pessoas com segurança, cintos afivelados, em torno de cargas. Em relação ao peso, foi fácil: o avião pode transportar 77,5 toneladas de carga.

Na segunda-feira (16), uma imagem que rivaliza com a dos americanos tentando pegar o último helicóptero na Saigon invadida por comunistas em 1975: civis afegãos cercando um C-17 em decolagem, desesperados e se agarrando à fuselagem e trens de pouso.

Resultado, ao menos duas pessoas foram esmagadas pelas portas fechando ou caíram dos céus, numa cena de horror que colará na gestão de Joe Biden.

Desenvolvido pela antiga McDonnell Douglas, comprada pela Boeing em 1997 e trazendo o nome de dois outros aviões de transporte clássicos, o C-17 voou pela primeira vez em 1991.

Introduzido em serviço quatro anos depois, hoje ele é o esteio da aviação de transporte estratégico dos EUA, atuando virtualmente em todos os cantos do planeta. Há 157 deles em atividade na Força Aérea, 47 com a Guarda Nacional em estados americanos, e 18, em reserva técnica.

Outros oito países operam o modelo, inclusive alguns que o usaram em Cabul, como Reino Unido, Canadá e Índia. Ele não é o maior cargueiro do mundo nem dos EUA: o título americano fica com o venerado C-5 Super Galaxy e seu compartimento para 127 toneladas. Há 52 deles no inventário do país.

Já o campeão mundial é o Antonov An-225, mas este é um filho único da fabricante soviética que hoje luta para sobreviver na Ucrânia. Ele transporta até 360 toneladas.

Mesmo seu irmão menor, o Antonov An-124 usado pela Rússia, leva até 188 toneladas. Mas só há 12 deles voando para Vladimir Putin, ante as duas centenas à disposição de Joe Biden.

Essa é uma das medidas do poderio militar americano, potência que gasta quatro vezes mais no setor do que a segunda colocada no ranking do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (Londres), a China. Ainda que o custo de aquisição chinês seja bem menor, potencializando seu orçamento, a diferença é gritante.

Única potência realmente global, os EUA têm 686 aviões de transporte pesados ou médios, como o C-130 Hércules (19 t de carga). Os russos têm 190, e os chineses, 113.

O C-17 pode voar até 8.000 km vazio ou 4.500 km com 70 t, pilotado por dois aviadores e levando um operador de cargas.

É um monstrengo de 53 m de comprimento, 51,7 m de envergadura e 16,8 m de altura -para comparar, um Boeing 737-800 comum no Brasil tem 39,5 m, 34,3 m e 12,5 m, respectivamente.

Pode levar helicópteros, como no caso dos dois C-17 que estão no Brasil para um exercício conjunto com a Força Aérea Brasileira, ou até um tanque pesado M-1A2 Abrams.

Durante o trabalho de retirada de ocidentais e colaboradores afegãos de Cabul, outras estrelas do transporte de carga militar também participaram, particularmente o popularíssimo C-130, um quadrimotor a hélice operado por 66 países.

Também frequentaram a infame pista de Cabul o grande cargueiro europeu Airbus A-400M (37 t de capacidade de carga), o japonês médio Kawasaki C-2 (26 t, da categoria do brasileiro Embraer KC-390) e o russo Iliuchin Il-76 (60 t).

Aviões de uso múltiplo derivados de modelos civis, como o Airbus A330-MRTT (45 t), também estiveram por lá, assim como diversas aeronaves comerciais usadas por governos.

Nenhum, contudo, foi tão empregado quanto o C-17. Nos dias de auge da operação, houve até 25 voos com o modelo deixando a capital afegã, na operação que agora vive seus estertores sob a sombra do ataque terrorista que matou quase 200 pessoas na quinta (26).

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