Aviões, navios e rádios: como será usado o fundo de € 100 bi para o setor de Defesa alemão

Dois dias depois de o Parlamento alemão dar sinal verde a um plano de € 100 bilhões para investimentos no setor de Defesa do país, documentos revelados nesta terça-feira mostram que quase metade do valor será investido em aeronaves e sistemas de defesa aérea. O plano foi anunciado em fevereiro, dias depois da invasão russa, e enfrentou dificuldades até sua aprovação, no domingo.

Segundo informações da Reuters, cerca de € 40,9 bilhões serão destinados à Força Aérea alemã, que deve comprar novos caças Eurofighter Typhoon e F-35, desenvolvidos pelos EUA — em março, a ministra da Defesa, Christine Lambrecht, revelou que seu governo queria comprar ao menos 35 unidades da aeronave, para substituir os hoje obsoletos Tornado, em operação desde os anos 1980.

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O fundo ainda prevê, de acordo com a Reuters, € 16,6 bilhões para o Exército, onde a lista de compras inclui um sucessor para o veículo de combate de infantaria Marder, em operação desde 1971. Em abril, o governo alemão foi criticado por se recusar a fornecer 100 desses veículos para a Ucrânia. Na época, o Ministério da Defesa afirmou que qualquer decisão do tipo precisaria ser referendada pela Otan, o que não aconteceu.

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Para a Marinha, foram designados € 19,3 bilhões, que devem ser usados para a compra de novas corvetas, fragatas e submarinos. Segundo informações da revista Der Spiegel, a lista inclui ainda um novo sistema de mísseis para os navios de combate e um sistema antiaéreo para submarinos.

Pouco mais de € 20 bilhões serão destinados a sistemas de comunicação ou, como afirmam os militares alemães, de “capacidade de liderança” das tropas: isso inclui novos modelos de rádios digitais, redes próprias de transmissão de dados para unidades de combate e a expansão do sistema de satélites de Defesa.

Outros € 422 milhões serão gastos em pesquisas de sistemas de navegação e no desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial, voltadas ao “monitoramento e segurança de grandes áreas”, segundo a Der Spiegel. Por fim, quase dois bilhões de euros foram destinados a equipamentos usados pelos militares, incluindo uniformes, capacetes e botas, uma promessa feita pela própria Christine Lambrecht.

'Ponto de virada'

No final de fevereiro, dias depois do início da invasão russa à Ucrânia, o premier alemão, Olaf Scholz, afirmou que o início de uma nova guerra no continente era um “ponto de virada” para a Europa, e que precisava de ações à altura.

— Uma coisa é clara: devemos investir significativamente mais na segurança de nosso país para proteger nossa liberdade e nossa democracia dessa maneira — disse Scholz, no dia 27 de fevereiro. — Este é um grande esforço nacional. O objetivo é uma Bundeswehr [Forças Armadas alemãs] eficiente, altamente moderna e progressiva que nos proteja de forma confiável.

Naquele mesmo dia, Scholz anunciou a intenção do governo de adotar o pacote de € 100 bilhões, e de elevar os gastos com Defesa para o equivalente a 2% do PIB até 2024, citando um compromisso acertado por todos os membros da Otan em 2006. Segundo números da aliança militar, em 2021 os gastos alemães foram de 1,53% do PIB.

— Também fazemos isso por nós mesmos, por nossa própria segurança, sabendo muito bem que nem todas ameaças futuras podem ser contidas com os recursos da Bundeswehr. Por isso precisamos de uma forte cooperação para o desenvolvimento — disse o chanceler.

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Em seguida, começaram as complicadas negociações entre a coalizão que comanda o governo e a oposição, liderada pela União Democrata-Cristã (CDU), que ocupava a liderança do país até 2021 com Angela Merkel. Um acordo veio no fim da noite de domingo, colocando fim ao impasse.

No Twitter, Olaf Scholz declarou que aquele era um “grande passo” para a segurança da Alemanha e da Europa, e a ministra das Relações Exteriores, Annalena Baerbock, afirmou, em entrevista à rádio estatal Deutschelandfunk, que se tratava de um “bom compromisso, através do qual poderemos garantir que a Otan pode confiar” na Alemanha.

Ao mesmo tempo em que celebra o acerto sobre o novo fundo bilionário, Scholz sofre ataques ligados a uma outra mudança política de seu governo: a autorização para o envio de armas a regiões em conflito, no caso, a Ucrânia, quebrando uma doutrina adotada há algumas décadas.

No início do conflito, o chanceler era acusado de não fazer sua parte para ajudar na defesa da Ucrânia. Em uma dessas críticas, o prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, chegou a perguntar se a Alemanha enviaria travesseiros para seu país — era uma resposta à oferta de cerca de cinco mil capacetes. Pouco depois, equipamentos como armas antitanque, metralhadoras e munição começaram a chegar aos ucranianos, mas Kiev e aliados na Otan dizem que não é o suficiente, e exigem que Berlim cumpra sua promessa relacionada a veículos blindados e tanques.

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