Guerra do Iêmen completa 3 anos e provoca maior crise humanitária de 2017

Khaled Abdalá.

Sana, 25 mar (EFE).- A guerra do Iêmen completa três anos nesta segunda-feira, uma data que marca o início da intervenção da coalizão árabe no país, um movimento que ampliou o conflito e causou a pior crise humanitária do mundo em 2017, segundo a ONU.

Os três anos de guerra foram "realmente doloroso", avaliou em entrevista à Agência Efe o subsecretário do Ministério de Relações Exteriores do governo dos rebeldes houthis, Faisal Amin Abu-Ras.

"Todas as partes estão se dando conta que a única solução (para o conflito) é política", disse o diplomata.

A guerra começou no fim de 2014, quando os rebeldes houthis, apoiados pelo Irã, tomaram a capital do Iêmen. Os confrontos só se espalharam por todo o país, porém, a partir de 26 de março de 2015, com o início da intervenção militar da aliança de países árabes sunitas, liderada pela Arábia Saudita.

Desde o início dessa ofensiva, mais de 10 mil pessoas morreram nas zonas controladas pelos rebeldes. Os dados foram divulgados em janeiro pelos houthis, e não confirmados por outras fontes.

Entre as vítimas, mais de 5 mil seriam crianças. Além disso, quase todos os menores de idade no país - cerca de 11 milhões - precisam de ajuda para sobreviver, de acordo com um relatório divulgado pelo Unicef, também em janeiro deste ano.

A ONU afirma que 20 milhões de pessoas, do total de 26 milhões que vivem no país, precisam de ajuda humanitária emergencial. Sete milhões de iemenitas dependem exclusivamente dos alimentos fornecidos pelas organizações internacionais para sobreviver.

"Tínhamos a esperança de que a guerra terminasse dois ou três meses depois do início da intervenção. Tínhamos a esperança de voltar para as casas", disse o iemenita Saed Zabet Shaya, que fugiu da província de Saada, no nordeste do país, em abril de 2015.

Desde então, Saed vive com seis familiares em uma pequena barraca de um acampamento de deslocados, sem atendimento médico ou escola, criado há 30 quilômetros ao norte de Sana, a capital do Iêmen.

"Antes da guerra, eu trabalhava em uma fazenda. Mas a guerra destruiu tudo", disse Saed.

No mesmo local, o também iemenita Abo Yaher sobrevive junto com outros oito parentes e só deseja que a guerra acabe. "Ela destruiu o país. Todos, inclusive os houthis e a Arábia Saudita, são os responsáveis pela devastação do Iêmen", afirmou.

Apesar dos pedidos de paz da população, o diplomata houthis ressalta que a guerra continuará. No entanto, o representante do grupo diz que os rebeldes estão dispostos ao diálogo para preservar a dignidade e a honra do Iêmen.

"A resistência do povo iemenita é lendária. Esse povo aguentou o que ninguém neste mundo pode aguentar. E, apesar do alto custo que foi pago, continuará aguentando", disse Abu-Ras.

Para tentar solucionar o conflito, a ONU nomeou em fevereiro o britânico Martin Griffiths como novo enviado especial do Iêmen.

"Pedimos às partes que participem ativamente e aproveitem a oportunidade da chegada do novo enviado da ONU para avançar no processo de paz", disse a embaixadora da União Europeia para o Iêmen, Antonia Calvo Puerta, sobre a indicação de Griffiths.

As declarações foram dadas pela diplomata espanhola na última quarta-feira, após ter se reunido com os houthis e lideranças do partido Congresso Popular, legenda que foi presidida pelo ex-presidente do país Ali Abdullah Saleh.

Saleh foi assassinado pelos houthis em dezembro depois de ter sido acusado de traição.

Calva Puerta disse que ouviu "palavras encorajadoras" para solucionar a disputa na reunião, mas pediu que os discursos sejam transformados em prática nos territórios em conflito.

A grave situação humanitária no país piorou desde novembro, quando a coalizão árabe decidiu fechar todos os portos e aeroportos do Iêmen em resposta ao lançamento de um míssil balístico por parte dos houthis contra a Arábia Saudita.

Além disso, o Iêmen sofre uma grande epidemia de cólera, que se espalhou nos últimos meses, afetando 1,1 milhão de pessoas. Segundo a ONU, mais de 2,2 mil pessoas morreram por causa da doença.

A ONU alertou em dezembro que mais de 8 milhões de pessoas poderiam morrer de fome se não recebessem ajuda urgentemente no Iêmen. Existe um grande risco de uma crise de fome generalizada nos próximos meses caso a Arábia Saudita não suspenda o bloqueio. EFE