Bélgica condena ex-funcionário ruandês por 'genocídio' em 1994

Por Matthieu DEMEESTERE
O ruandês Fabien Neretsé fotografou em 4 de novembro de 2019 em Bruxelas. A promotoria exigiu 30 anos de prisão contra os acusados de "genocídio" em Ruanda em 1994

A Justiça da Bélgica declarou nesta quinta-feira culpado do "crime de genocídio" o ex-funcionário ruandês Fabien Neretsé, por participar do massacre de membros da etnia tutsi em 1994.

Neretsé, um hutu de 71 anos que se declarava inocente, foi condenado por nove assassinatos cometidos em Kigali em abril de 1994, e outros dois realizados semanas mais tarde, na zona rural da capital.

O réu permaneceu impassível durante a leitura do veredicto, no Palácio de Justiça de Bruxelas. A pena será decretada nesta sexta-feira.

A acusação de crime de genocídio foi baseada no fato de Fabien Neretsé ter atacado um número indeterminado de pessoas com o objetivo de "destruir" a etnia tutsi nesta antiga colônia belga.

Neretsé, um engenheiro agrônomo que fundou uma escola em Mataba (norte de Ruanda), dirigiu entre 1989 e 1992 o escritório nacional de promoção da cafeicultura, um posto-chave envolvendo um dos principais produtos de exportação do país.

Segundo a promotoria, Neretsé era uma espécie de "senhor" da região, cuja influência derivava de sua posição no MRND, partido único fundado pelo presidente Juvénal Habyarimana.

Detido em 2011 na França, onde havia retomado sua vida profissional sob o status de refugiado, Neretsé passou apenas alguns meses em prisão preventiva antes de ir a julgamento.

A condenação se deve em grande parte aos esforços da belga Martine Beckers, cuja irmã, cunhado tutsi e sobrinha de 20 anos foram assassinados em 9 de abril de 1994 em Kigali.

Neretsé era um dos vizinhos da família em Kigali e segundo a promotoria, determinou que homens armados impedissem a fuga dos parentes de Beckers e de outros tutsis da capital quando começaram os massacres.

Os incidentes ocorreram três dias após o assassinato do presidente hutu Habyarimana, o que desencadeou um genocídio que matou, segundo a ONU, mais de 800 mil pessoas, essencialmente tutsis.

No verão de 1994, Martine Beckers levou o caso à polícia belga e com a ajuda de testemunhas ruandesas e ativistas dos direitos humanos, conseguiu chegar aos responsáveis.