A Bíblia entra no Palácio: poder político cristão ganha força na Bolívia

Por José Arturo CÁRDENAS
Jeanine Añez, presidente interina da Bolívia, exibe uma Bíblia em 12 de novembro de 2019 em La Paz

Jeanine Añez, a senadora de direita que na terça-feira se proclamou presidente interina da Bolívia após a renúncia de Evo Morales, exibiu orgulhosa não uma mas duas Bíblias ao assumir o cargo, prova da força dos cristãos no cenário político boliviano.

"Deus permitiu que a Bíblia voltasse a entrar no Palácio. Que Ele nos abençoe", afirmou no momento em que ingressava na sede presidencial em La Paz, exibindo um exemplar do livro sagrado aos gritos de "Glória a Deus".

Já com a faixa presidencial no peito, Añez exibiu uma Bíblia menor ao acenar da sacada do Palácio de Quemado.

Até a chegada de Morales ao poder em 2006 era frequente que os funcionários públicos na Bolívia prestassem juramento aos cargos "por Deus e a Pátria", diante de uma Bíblia.

Morales, um líder indígena esquerdista, admirador de Ernesto "Che" Guevara e ateu confesso, deixou os rituais de linha cristã de lado.

No Estado laico desde a Constituição de 2009, os novos funcionários começaram a prestar juramento com o punho esquerdo para o alto e a mão direita no peito, mas sem a obrigação. As menções a Deus deixaram de ser feitas.

E embora Morales tenha se declarado de "formação católica", nunca escondeu sua animosidade ao cristianismo, que acusou de promover o assassinato de nativos na colônia, para o mal-estar dos fiéis.

Mas desde as questionadas eleições de 20 de outubro, quando a oposição denunciou uma fraude de Morales para perpetuar-se no poder, o livro sagrado dos cristãos ganhou destaque no cenário político.

Luis Fernando Camacho, presidente do Comitê Cívico da próspera região de Santa Cruz, reduto da oposição, anunciou que levaria a Bíblia até a sede de governo para forçar a renúncia de Morales, que se declarou vencedor das eleições.

"Não estou indo com as armas, vou com a minha fé e minha esperança. Com uma Bíblia na mão direita e sua carta de renúncia na minha mão esquerda", afirmou Camacho em um comício no dia 4, diante do monumento do Cristo Redentor em Santa Cruz de la Sierra.

Com seus pedidos de enfrentar Morales, Camacho analisou o apoio de católicos e evangélicos, um setor que liderou a Bolívia nas últimas eleições.

Com o discurso de confronto a Morales, Camacho analisou o apoio de católicos e evangélicos, um setor que ganhou destaque na Bolívia nas recentes eleições.

Ele cumpriu a promessa no domingo passado, quando entrou no Palácio Quemado para colocar, de joelhos, uma Bíblia no salão principal, sobre uma bandeira boliviana.

Histriônico, eloquente e fundamentalista, Camacho foi fundamental para provocar a queda de Morales, ao convocar manifestações nas ruas, seguidas por uma revolta policial e pela decisão das Forças Armadas de abandonar à própria sorte seu comandante em chefe.

- O avanço do pastor coreano –

A Bolívia é predominantemente católica, mas os evangélicos ganharam força no cenário político na recente eleição graças ao candidato à presidência Chi Hyun Chung, coreano naturalizado boliviano, que é um pastor presbiteriano.

Aspirante à presidência pelo Partido Democrata Cristão (PDC), Chi substituiu em agosto o ex-presidente social-democrata Jaime Paz Zamora, que desistiu da candidatura depois de aparecer nas pesquisas de intenção de voto com menos de 1%.

Radical em suas críticas aos homossexuais e ao aborto, o pastor Chi subiu nas pesquisas e recebeu surpreendentes 8,8% dos votos na eleição presidencial, atrás apenas de Morales e do ex-presidente centrista Carlos Mesa.

O analista César Cabrera destaca que este 'outsider' conseguiu captar os votos de castigo e soube atrair jovens descontentes. "O fenômeno Chi reflete a existência de bolivianos conservadores e machistas", opina.

Uma pesquisa publicada pelo jornal 'Página Siete' em setembro mostrou que 74,9% dos bolivianos são católicos e 17,9% evangélicos.

Com diversas menções a Deus na Bolívia, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, pediu na terça-feira a ajuda da Igreja católica para a pacificação do país andino, durante uma sessão na sede do organismo em Washington.

Almagro, que defende a convocação de novas eleições, afirmou que são necessárias "instituições com legitimidade" para que as partes em conflito superem as divergências e por isto pediu aos bispos católicos que convoquem um diálogo.

"Por ser um ator plenamente respeitado, fazemos um apelo à Conferência Episcopal Boliviana para que convoque os principais atores políticos em torno de uma mesa de negociação e diálogo", afirmou.