Babá diz que mãe de Henry pediu que ela mentisse e apagasse mensagens

ROGÉRIO PAGNAN E JÚLIA BARBON
·5 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP, E RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A babá Thayná de Oliveira Ferreira, 25, confirmou em novo depoimento à Polícia Civil do Rio que escondeu o histórico de violência praticada pelo vereador Dr. Jairinho contra o menino Henry Borel, morto aos 4 anos, a pedido da própria mãe da vítima, a professora Monique Medeiros. Nesse novo depoimento, Thayná contou ter presenciado três ocasiões em que a criança foi levada ao quarto do casal pelo padrasto, quando supostamente foi agredido, e não só o episódio do dia 12 de fevereiro, como veio a público no dia da prisão do casal, em 8 de abril. Ainda segundo a versão da babá, foi Monique quem pediu que ela excluísse as mensagens de seu celular quando foi chamada ao escritório do advogado do casal, André França Barreto, dias antes de seu primeiro depoimento à polícia. Nessa conversa inicial, estariam presentes somente ela e a ex-patroa. "Que Monique então começou a falar para a declarante que quando ela fosse depor em sede policial era para ela falar que nunca havia visto nada, nunca havia ouvido nada e que era para apagar todas as mensagens", diz trecho do novo relato da funcionária concluído na madrugada desta terça (13). A polícia solicitou que Thayná voltasse à delegacia após a descoberta de trocas de mensagens entre ela e Monique que indicaram que a criança foi agredida dentro do quarto do casal um mês antes de morrer. Na primeira vez em que foi chamada pelos policiais, em 24 de março, nada disso foi contado. As mensagens só foram recuperadas porque os investigadores usaram um programa especial insraelense que resgata o histórico dos aparelhos celulares. No novo depoimento, a ex-funcionária do casal disse ter concordado em sustentar a falsa versão por medo. "A declarante respondeu que mentiu por medo, já que, por ter visto o que Jairinho tinha feito contra uma criança, ficou com medo que algo também pudesse acontecer com ela própria", diz trecho do depoimento. Thayná conta ainda que seu noivo, seu tio, sua tia e sua mãe trabalham para a família ou arranjaram empregos na Prefeitura do Rio de Janeiro na gestão de Marcelo Crivella (Republicanos) por intermédio do vereador, que foi líder do ex-prefeito na Câmara Municipal. Além da suposta agressão sofrida em 12 de fevereiro, a babá conta que outra situação anormal ocorreu dez dias antes, na manhã de 2 de fevereiro, quando a mãe saiu para jogar futevôlei. Ela diz que Henry estava no quarto dele quando passou a chamar pela mãe. Jairinho então se irritou, disse que o menino era mimado e o chamou para uma conversa no quarto do casal. Ele então ficou cerca de 30 minutos trancado com a criança ali dentro. Ao ser questionado pela babá sobre o que havia ocorrido com o padrasto, Henry teria dito que "tinha esquecido, que estava com soninho". Na tarde desse mesmo dia, a babá o levou para a brinquedoteca, onde ele não quis brincar com outras crianças por sentir dores no joelho. Thayná disse que não associou as queixas do menino ao episódio com Jairinho pela manhã, mas que contou todos esses detalhes para a mãe dele. A terceira vez em que a criança foi supostamente agredida pelo vereador ocorreu em data em que ela não se recorda ao certo, possivelmente na última semana de fevereiro. Nesse dia, ainda segundo a babá, Jairinho chegou "excepcionalmente mais cedo do trabalho" e, sem nenhum motivo, chamou Henry para o quarto do casal, trancando novamente a porta. Thayná disse ter batido e solicitado para que abrissem. Quando isso aconteceu, percebeu o menino "visivelmente intimidado". Ao questionar o que havia ocorrido, ele inicialmente negou mas, com a insistência, afirmou ter caído da cama. Jairinho negou à babá que o menino tivesse sofrido a queda, mas não apresentou nenhuma outra explicação para a situação. Nesse mesmo dia, Henry reclamou de dores de cabeça e, segundo a babá, também tinha marcas roxas no braço. Henry então foi morto na madrugada do dia 8 de março. A babá relatou que ficou sabendo pela irmã de Jairinho, Thalita, que disse por telefone que o sobrinho passou mal e faleceu. "Como assim, passou mal e morreu? É uma criança", teria questionado a funcionária, mas Thalita confirmou e logo desligou. ENTENDA O CASO Henry passou o fim de semana anterior à sua morte com o pai, que o deixou no condomínio da mãe e do namorado na noite do dia 7 de março, um domingo, sem lesões aparentes. Na mesma madrugada, Monique e Jairinho levaram o garoto às pressas para o hospital, onde ele já chegou morto. Um exame de necropsia concluiu que as causas do óbito foram "hemorragia interna" e "laceração hepática" (lesão no fígado), produzidas por uma "ação contundente" (violenta). Ele tinha outras diversas lesões e hematomas pelo corpo. Em depoimento, a mãe afirmou que estava assistindo a uma série com o namorado em outro quarto e despertou de madrugada com a TV ligada. Acordou Jairinho, que havia tomado remédios para dormir, e foi até o quarto do casal onde Henry estava dormindo. Chegando lá, teria visto o menino caído no chão, com os olhos revirados, as mãos e pés gelados e sem respirar. A polícia ouviu dezenas de pessoas durante as investigações, entre elas a faxineira que limpou o apartamento no dia da morte (antes da perícia), uma ex-namorada do vereador que o acusou de agressões contra ela e sua filha, na época criança, a psicóloga do menino e as pediatras que o atenderam. Mais de dez celulares foram apreendidos em diferentes endereços ligados à família da criança e à babá. Após o conhecimento das mensagens trocadas entre Thayná e Monique, os policiais pediram a prisão temporária do casal, que foi aceita pela Justiça. Com essa medida, a Folha apurou que a polícia também quer que testemunhas criem coragem para relatar o que viram.