Babu Santana diz que 'Falas negras' é a coisa mais linda que viveu: 'Primeira vez em 20 anos que vi equipe preta'

Isabella Cardoso
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Foto: VICTOR POLLAK

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Foto: VICTOR POLLAK

Considerado o desportista do século 20 e o maior pugilista da história, Muhammad Ali foi um dos primeiros a aliar esporte e política. Assim como seus amigos Malcolm X e Martin Luther King Jr., o americano foi um grande defensor dos direitos civis dos negros. Os três ativistas e outras 19 pessoas que lutaram contra o racismo e a favor da liberdade serão homenageados no especial “Falas negras”, que vai ao ar na próxima sexta-feira na TV Globo, após “A força do querer”. Fã do boxeador, Babu Santana comemora ter sido escolhido para interpretá-lo num programa pensado para ser exibido no Dia da Consciência Negra.

— Ele foi um dos primeiros atletas a usar a fama politicamente. Você se posicionar de forma contundente exige muita coragem porque todo mundo tem medo de desagradar. Manifestar-se da forma e na época que ele fez... Perdeu milhões, mas não abriu mão da ideia. Sem contar que, como pugilista, reinventou o esporte. Era um cara fora de série — resume Babu.

O ator voltou a praticar boxe desde que deixou o “Big Brother Brasil 20”. Ele começou a treinar quando se preparou para viver Maguila num filme, que foi paralisado. Mas a ligação com os esportes vem de longa data...

— Boxe é o que faço para queimar as calorias porque não posso correr por conta do excesso de peso. É um exercício aeróbico formidável, sem contar o prazer e o alívio do estresse que dá — conta Babu, que completa: — Sou um atleta frustrado. Qual é o menino que nunca pensou em ser jogador de futebol? Tive aquele sonho de infância. Sou flamenguista fervoroso nas melhores e piores horas. Quando eu era moleque, joguei basquete, beisebol... Recentemente, comprei uma mesa de pingue-pongue aqui para casa, para jogar nas horas vagas, mas a gente já quase atrasou coisa aqui por causa disso, viu? (risos). O esporte é minha diversão número um.

Criado por Manuela Dias e dirigido por Lázaro Ramos, o “Falas negras” vai narrar a trajetória de negros e negras que são inspiração até os dias de hoje. Desde os relatos coloniais da rainha dos reinos do Dongo e Matamba Nzinga Mbandi, que datam de 1626, ao presidente sul-africano Nelson Mandela, que morreu em 2013. Lembrando acontecimentos recentes, o programa retratará Marielle Franco (Taís Araujo); Mirtes Souza (Tatiana Tiburcio), a mãe do menino Miguel Otávio, que morreu após cair de um prédio de luxo no Recife; Neilton Matos Pinto (Silvio Guindane), pai do adolescente João Pedro Matos Pinto, assassinado na favela do Salgueiro, em São Gonçalo; e a atriz Tulanih Pereira interpretará um misto de depoimentos de manifestantes da onda de protestos que mobilizou o mundo após a morte de George Floyd nos EUA.

— Algumas das histórias conheço por alto e quero, a partir desse especial, me aprofundar em quem foram essas figuras emblemáticas. É bacana para quem deseja ter mais conhecimento. Pode ser um grande ponto de partida para uma pesquisa riquíssima e gostosa — indica o ator.

Babu afirma que o “Falas negras” foi “a coisa mais linda que viveu nos últimos tempos”.

— Eu tenho 20 anos de profissão e é a primeira vez na minha trajetória que vi uma equipe majoritariamente preta. Que bom que vivi para isso. Um diretor preto que, além de competente, é uma referência. Tenho orgulho de ser amigo de Lazinho, de acompanhar seu crescimento e, nesse momento de tanta manifestação, trazer essas figuras de representatividade da história. Esse projeto traz a essência do Dia Nacional de Zumbi. É hora de a gente se unir, é quando a nossa voz ecoa. Funciona como se fosse a lua cheia do lobisomem, sabe? — compara o artista, dizendo que gravar o projeto foi emocionante: — Celebramos esse momento, que é raro até hoje. É um ponto de partida para que isso se repita mais vezes e que seja natural, não excepcional. Não acontecia por uma questão de preconceito. Cansei de ouvir quando era adolescente que não havia representantes pretos nas produções porque não tinha artista. Imagina crescer escutando isso? Hoje, essa balela não se sustenta mais.

Nascido Alexandre da Silva Santana e criado no Vidigal, o carioca, de 40 anos, fez história ao ir a dez paredões num “BBB” marcado por tocar em temas como protagonismo feminino e racismo. Fora dor eality, o ator eternizou sua participação fazendo uma tatuagem do robozinho do programa com um pente garfo no cabelo, como o que ele usou diversas vezes durante a vigésima temporada. Após sair da casa mais vigiada do Brasil, Babu encontrou outro mundo em confinamento, mas viu uma oportunidade para a reinvenção e não pensa em parar para descansar tão cedo.

— Em 2019, a cultura desse país sofreu um ataque terrível. Muita gente não conseguiu produzir, muita verba não chegou. Ano passado, fiquei parado, só fiz dois trabalhos. Quando eu saí do “BBB 20” e vi a situação da pandemia, fiquei desesperado. O que der para fazer, eu vou fazer, amiga. Eu fico chateado porque tenho que dormir oito horas por dia. Queria dormir só duas para ter mais tempo. Eu estou querendo trabalhar mesmo. Sou pau para toda obra. O que a Rede Globo botar na minha fita, eu faço.

Em 2021, o artista volta às telinhas estreando como o policial Nanico em “Salve-se quem puder" e deixa no ar que pode ter um programa na televisão. Ele também espera estar nas telonas em cinco filmes que já rodou e estão para ser lançados. Em seu canal no YouTube, Babu ainda comanda entrevistas no “Fechado com o paizão”, que este mês tem uma programação voltada para a Consciência Negra e o Novembro Azul, que chama atenção dos homens sobre a prevenção na saúde.

— Comecei a me embrenhar nas mídias sociais e estou gostando. O YouTube é muito legal, tudo o que eu sonhava quando era jovem. Estou me realizando com meu canal. Já gravar a novela tem sido diferente, mas estou dominando bem. No começo, eu ficava desesperado porque tinha que me maquiar sozinho, tinha medo de sair todo borrado. Agora já posso até fazer um tutorial de maquiagem qualquer dia desses — brinca ele.

Apesar do ano difícil coletivamente, 2020 marcou uma virada na vida de Babu. E o ator só quer agradecer.

— Toda vez que o fim do ano se aproxima, eu fico muito reflexivo. Na reta final do ano passado, eu estava desesperado. Só de pensar que o meu Natal agora vai ser todo mundo junto e eu vou ter motivos para comemorar... Eu devo ser um dos poucos seres humanos que gostou de 2020 — pontua o carioca, que diz ter aprendido com os altos e baixos: —A vida melhorou, mas a gente tem que ter sempre o pé no chão. Então, mantenho uma rotina simples na certeza de ter dignidade por mais tempo. Espero que essa prosperidade possa refletir nos meus netos e bisnetos.