Bacia do São Francisco perdeu metade da superfície natural nas últimas três décadas

Formosa do Rio Preto/BA, 29.mai.2019 - Plantações em em Formosa do Rio Preto, no oeste do estado da Bahia, utilizam sistema de pivô central para irrigação. Expansão descontrolada do sistema em uma área com secas prolongadas é uma das causas da queda na vazão da bacia do rio São Francisco (Nelson Almeida/AFP via Getty Images)
Formosa do Rio Preto/BA, 29.mai.2019 - Plantações em em Formosa do Rio Preto, no oeste do estado da Bahia, utilizam sistema de pivô central para irrigação. Expansão descontrolada do sistema em uma área com secas prolongadas é uma das causas da queda na vazão da bacia do rio São Francisco (Nelson Almeida/AFP via Getty Images)

A bacia do rio São Francisco perdeu metade da sua superfície natural de água natural entre 1985 e 2020. Essa redução ocorreu apesar do acúmulo de água em reservatórios como Sobradinho, Xingó e Três Marias, provocado em parte pela expansão da agricultura irrigada no cerrado.

Os dados são parte de um estudo lançado nesta sexta-feira (3) pelo MapBiomas para marcar o Dia Nacional de Defesa do Rio São Francisco, a pedido do Plano Nordeste Potência, iniciativa de um conjunto de organizações que trabalham pelo desenvolvimento verde e inclusivo da região.

Somando o aumento na superfície de água em 13% pelas barragens para abastecimento humano ou usinas hidrelétricas, a queda foi de 4%, chegando a 21% na região mais próxima à foz. Entre as barragens está a da usina de Três Marias, parte da ‘caixa d’água energética’ do país e que no ano passado, em meio à crise hídrica, baixou a um terço de sua capacidade.

Nascendo e morrendo na Mata Atlântica, a Bacia do São Francisco é a terceira maior do país e corresponde a cerca de 8% do território nacional, cruzando sete estados e outros dois biomas altamente dependentes de suas águas, o cerrado e a caatinga.

A bacia do Rio São Francisco ocupa 8% do território nacional, atravessando três biomas em sete Estados.
A bacia do Rio São Francisco ocupa 8% do território nacional, atravessando três biomas em sete Estados.

A tendência de queda na sua superfície é clara e já vinha sendo observado. Um estudo feito em 2013 pela extinta Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência já indicava que poderia haver uma perda de até 65% da vazão até 2040, com base no registro de 2005.

Ao menos parte desse fenômeno é explicado pela expansão da agricultura com alto índice de irrigação no cerrado, na região do Matopiba – sigla para a região no entorno da divisa entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – grande fronteira agrícola do país, além da divisa baiana com Goiás.

Nesta região, a área para agricultura aumentou 6,5 vezes no período estudado, sobretudo para o cultivo de soja – fenômeno que se intensificou a partir dos anos 1990 com políticas do governo FHC que isentaram as exportações de commodities e a importação de agrotóxicos de ICMS (algo que continua vigente), e se aproveitando da tecnologia desenvolvida pela Embrapa entre os anos 1970 e 1980.

É também nestas regiões que a bacia do São Francisco perdeu 4,6 milhões de hectares de vegetação para a agropecuária, o equivalente ao Estado do Rio de Janeiro inteiro. Isso é 65% dos 7 milhões de hectares perdidos em toda a bacia.

Mapa e gráfico da evolução da irrigação na bacia do rio São Francisco e sua localização. O uso de irrigação cresceu mais de 1.000% em uma área que já sofre naturalmente com secas prolongadas
Mapa e gráfico da evolução da irrigação na bacia do rio São Francisco e sua localização. O uso de irrigação cresceu mais de 1.000% em uma área que já sofre naturalmente com secas prolongadas

Além da diminuição das áreas de savana e floresta, que contribuem com a infiltração das águas e recarga dos lençois freáticos que abastecem os rios, essa agricultura ocasionou o aumento de 1024% da área irrigada por pivôs – sistema com uso massivo de poços artesianos e grandes quantidades de água. Exploração semelhante acabou causando a queda vertiginosa dos reservatórios do sudeste no ano passado.

“Entendo que essa agricultura extensiva é ao mesmo tempo afetada pela seca e causadora dela”, diz Roberto Atarassi, doutor em recursos hídricos e agrometeorologia e professora da UFU (Universidade Federal de Uberlândia). “Com menos chuvas, temos menor recarga dos aquíferos, enquanto é justamente a época que a agricultura depende mais da irrigação; o resultado é um desequilíbrio dessa reserva do país que acaba muitas vezes indo para o exterior”, comenta.

Queda nos reservatórios

O estudo do MapBiomas mostra como quatro grandes reservatórios apresentam tendência de queda na superfície de água nos últimos 35 anos. A maior das quedas é registrada na hidrelétrica Luiz Gonzaga (ex-Itaparica), entre Pernambuco e Bahia, seguida por Sobradinho, Três Marias e Xingó.

“Esses números refletem o que nós podemos ver na prática. A bacia do São Francisco sofre com o uso intenso e sem planejamento, seja dos recursos hídricos quanto do seu solo. Hoje existem populações que vivem nessa região e que já sofrem com essas variações. Precisamos implementar soluções como a recuperação das áreas degradadas o mais rápido possível, além de promover uma boa gestão dos recursos”, afirma Renato Cunha, coordenador executivo do grupo ambientalista Gambá.

Mapa mostra o avanço da agricultura no oeste da bacia entre 1985 e 2020. A região do Matopiba, assim como divisa Bahia e Goiás, é uma dos grandes fronteiras do agronegócio
Mapa mostra o avanço da agricultura no oeste da bacia entre 1985 e 2020. A região do Matopiba, assim como divisa Bahia e Goiás, é uma dos grandes fronteiras do agronegócio

Outros dados do MapBiomas mostram que o uso da terra na bacia se intensificou no período. Atualmente, a cobertura de vegetação nativa nessa área é de 57%, mas chega a somente 30% no Baixo e 37% no Alto São Francisco.

“A bacia do São Francisco está sob pressão, tanto pela agricultura quanto pela geração de energia, que coloca em risco milhares de pessoas que vivem na região”, complementa Washington Rocha, coordenador da equipe Caatinga no MapBiomas.

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