'Baiana' nascida na Paraíba faz sucesso com acarajé

Regiane Jesus
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RIO — Natural de João Pessoa, na Paraíba, Ellen Cunha é uma baiana arretada. Como Gabriela, personagem icônica de Jorge Amado (1912-2001), esta moradora da Tijuca, criadora do Acarajé da Ellen, nasceu assim, cresceu assim e vai ser sempre assim. Dona de um encanto (e de um tempero) que Deus deu, ela roda a baiana e coloca a mão na massa toda vez que a vida lhe prega peças. E não foram poucas! Curiosamente, o bolinho que se come rezando sempre salva a também designer de moda e esteticista das situações mais desafiadoras que lhe são apresentadas.

Foi desse jeito quando chegou ao Rio, vinda de sua terra natal, em 1997, depois que o pai morreu e ela viu a família perder o conforto de que até então desfrutava. Durante a viagem de carro para o Rio, de carona, vislumbrava realizar o sonho de se tornar aeromoça. Mas a realidade se mostrou cruel. Num primeiro momento, o máximo que conseguiu foi um emprego na agência dos Correios do Aeroporto Internacional, vizinho à casa onde morava de favor. A demissão também não tardou, já que uma grave pneumonia a derrubou por dois meses, deixando-a impossibilitada de trabalhar. Mas como levantar a poeira e dar a volta por cima está no seu DNA, o quitute preparado com feijão-fradinho e banhado no azeite de dendê entrou em ação para mudar o rumo dessa história.

Não foi diferente com a chegada da Covid-19. Sem poder fazer eventos para vender a iguaria nordestina e convencida de que os ramos de estética e de vestuário também não garantiriam a sua sobrevivência em tempos de epidemia, abriu o seu próprio estabelecimento, exclusivo para serviço via delivery ou take away.

Empreendedora nata, a paraibana fã de carteirinha da Bahia sabe que a propaganda é a alma do negócio. Então, para vender o seu peixe, ou melhor, o seu cardápio recheado de delícias da culinária nordestina, começou a fazer lives, em abril. Nas transmissões ao vivo que acontecem todos os sábados, às 11h, no perfil @acarajedaellen no Instagram, ela se veste com roupa típica para cozinhar, homenagear uma personalidade e convidar os seguidores a fazerem as suas encomendas, claro.

— Eu tenho o axé da Bahia dentro de mim. Amo a culinária, a música, o astral... Mas sem deixar de ser apaixonada pela minha Paraíba e pela Tijuca, o lugar onde vivo há cinco anos e que me trouxe muita sorte. Na porta da minha casa, quando o cliente vem buscar o pedido, apareço a caráter, vestida de baiana. Quem pede via delivery sempre ganha uma fitinha do Senhor do Bonfim. Além disso, toda semana produzo um figurino diferente para as lives. Eu me renovar é uma forma de agradecer tudo o que a vida me deu, apesar dos altos e baixos — diz.

Voltando aos anos 1990, Ellen garantiu sua permanência no Rio, após ficar desempregada, graças ao acarajé e a uma mãozinha divina. Quem sabe de São Salvador?

— Com o pouco dinheiro da indenização que recebi, resolvi fazer acarajé na intenção de homenagear os orixás e todos os santos, já que sou espírita. Um amigo, sabendo que eu estava fazendo o bolinho, levou a dona de um restaurante baiano até a minha casa. No dia seguinte, comecei a trabalhar com ela, na Cobal do Humaitá, e um mês depois a minha patroa me chamou para morar no apartamento dela, no Alto Leblon, porque eu vivia na Ilha do Governador e era complicado ir e voltar todo dia para lá. Só saí do emprego e desse endereço quando precisei voltar para João Pessoa para cuidar da saúde da minha mãe — recorda.

Tempos depois, de volta ao Rio, era preciso começar de novo. O jeito encontrado para garantir o sustento foi vender acarajé nas ruas de Botafogo. Outra vez, ao que tudo indica, os deuses deram uma forcinha. Uma cliente perguntou se Ellen fazia eventos. A resposta foi positiva, apesar da sua completa inexperiência:

— Essa senhora morava em uma cobertura na Avenida Atlântica, em Copacabana, era rica. Ela perguntou se eu fazia festas para muitas pessoas, se tinha como montar decoração... Eu disse que tinha tudo, mas não tinha nada. Só que havia feito amizades quando eu trabalhei no restaurante, então muita gente me ajudou. Além do bufê e da decoração, levei baianas e um grupo de capoeira. A festa fez um sucesso tão grande que ela me pagou em dobro. A partir daí, vieram convites para eu fazer réveillon em alto-mar, além de eventos para famosos, como Gilberto Gil.

Paixão pela culinária falou mais alto que moda e estética

Uma nova ida para a Paraíba, também para cuidar da mãe, fez com que os clientes de Ellen Cunha desaparecessem. Era hora de mudar de ramo. Ao chegar novamente ao Rio, estudou estética e design de moda. Ganhou dinheiro com as novas profissões. Mas o seu “sangue” baiano falou mais alto.

— Eu me dei bem trabalhando com moda, fosse criando peças ou costurando, e também me sustentava com uma certa tranquilidade fazendo depilação, drenagem linfática, limpeza de pele... Nunca fiquei parada. Apesar de gostar dessas áreas, meu prazer em cozinhar me fez querer retomar minha antiga atividade. Logo recomecei a rotina de fazer eventos vendendo acarajé. Nessa época, fiz o curso da Abam (Associação Nacional das Baianas de Acarajé) para me profissionalizar. Só que, mais uma vez, larguei tudo para cuidar da minha mãe, que morreu em 2018. No ano passado, sofri de depressão, fiquei meio perdida. Mas não me entreguei — frisa.

A pandemia também não foi capaz de minar sua garra:

— Agora o meu sonho é abrir um restaurante!

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