Bailarinas da Cidade de Deus pedem ajuda em sinal de trânsito para bancar curso de dança em Nova York

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RIO — Incontáveis movimentos de "plié" em um cômodo de sete por três da Academia de Dança Valéria Martins, na Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio, levaram as bailarinas Giovanna Mendes, de 12 anos, Kemilly Lacerda, de 15 anos, e Luana Amara, de 18, à aprovação em um curso de balé de 50 dias em Nova York, nos Estados Unidos. Na última semana, as três passaram cerca de três horas por dia no sinal da Rua Edgard Wernerck, na altura do número 1.601, debaixo de chuva e sol, com uma faixa estendida pedindo ajuda financeira por meio de PIX para conseguir custear a viagem ao país. A meta era R$ 40 mil, e foi atingida em oito dias.

A aprovação para a Companhia Ajkun Ballet Theatre aconteceu por meio de uma audição on-line, devido à pandemia. A viagem está marcada para o dia 12 de janeiro. Até o momento, as passagens já foram compradas e o passaporte já foi emitido, mas o visto ainda está sob análise, correndo risco de atrasar a viagem pelo tempo curto até a emissão.

A ideia de pedir ajuda no semáforo partiu do trio em conjunto com a professora de balé Valéria Martins, responsável pela academia, que atende 105 alunos da comunidade, e que ainda tem crianças na fila de espera. No sinal, elas que conseguiram R$ 39 mil. Outros R$ 900 foram arrecadados por ajuda dos próprios familiares. Agora, parte da quantia também está vindo por meio de divulgação das redes sociais, após uma imagem das bailarinas na rua ter viralizado na internet.

— A gente sabia que daria certo, sempre acreditamos, mas não que aconteceria tão rápido — diz Luana Amara, uma das alunas.

A aprovação veio após a sua terceira tentativa para ingressar no curso, que já era um sonho desde 2014, quando entrou na academia:

— Fiquei muito realizada. Quando eu não passei pela segunda vez, eu desanimei. Fiquei muito mal. Duas semanas antes da terceira audição eu descobri que tinha uma hérnia, fiquei de cama por uma semana, mas persisti e fui. Foi maravilhoso saber que passei.

As dificuldades não são poucas. As roupas para apresentação são confeccionadas pela mãe de Luana, que é costureira e também faz para as outras duas amigas de palco. Por causa disso, as peças saem por R$ 300 reais cada. Se fossem mais trabalhadas, sairiam por, em média, R$ 1.500. Sapatilhas? Nenhuma das três tem. No dia da apresentação, elas arrumaram pares de última hora. Atualmente, o treino é descalço.

— Tudo no balé é caro. Se não fosse a ajuda, não sei se conseguiríamos. A maior dificuldade para conseguir algo nesse meio é a falta de dinheiro para roupa, sapatilha e afins. Nossa sorte é o apoio da Valéria e o esforço da nossa família, que nos incentiva — conta Kemilly.

Para ela, que treina há cinco anos, e Giovanna, que treina há seis, foi a primeira tentativa. Mas nem por isso foi menos especial. Com um suspiro profundo ao lembrar, Giovanna diz que tirou um peso das costas ao ser aprovada:

— Eu senti alívio. Cumpri o que eu mais queria, que era entrar para uma companhia de fora. Eu já sonhava há muito tempo. Foi uma realização sem tamanho.

Um passaporte para os próximos sonhos

A aprovação para o curso foi como um incentivo para a projeção de todo o futuro que elas têm pela frente. A passagem de 50 dias pode vir a dar uma oportunidade de continuar, por tempo indeterminado, trabalhando pela companhia. Para isso, elas passarão por avaliações durante todo o período.

— Se eu conseguir ficar, vai ser perfeito. Vai mudar minha vida, vou morar fora, vai ser uma experiência maravilhosa. Caso não dê certo, eu volto e vou tentar ir para outras companhias, e vou tentar de novo ir para lá. Daqui a cinco anos, me vejo com contrato com uma grande companhia — projeta Luana.

Kemilly tem a esperança de que nem vai precisar pensar no plano B. A fé dela a avisa que ficará por muito tempo:

— Eu nem digo que vou voltar, prefiro acreditar que eu vou ficar. Quero estar lá construindo minha casa, dançando e viajando com meu trabalho. Consigo me ver lá.

Giovanna pensa em um plano B tão alto quanto o A. Segundo ela, se não for aprovada, quer tentar ingressar na Royal Balé, uma academia russa renomada no meio da dança.

— Eu sempre sonhei. Acredito que vai dar certo.

Valéria, que incentivou todas as três, fica realizada, mas também reflete sobre a falta de apoio para projetos como o dela:

— Eu fico muito feliz, mas ao mesmo tempo fico pensando no motivo de não termos apoio, sabe? Nosso espaço precisa de reformas, não temos uma estrutura direita para os alunos. Como que um projeto que dá essas oportunidades não consegue ter uma ajuda? Por que precisamos ir para o sinal conseguir custear a viagem?

Apesar da meta já ter sido atingida, ela não é suficiente para outros custos de permanência em Nova York. A estadia será disponibilizada pelo próprio curso, e os R$ 40 mil custearão o voo, a passagem e o visto das três, mas não serão capazes de suprir outros gastos, como alimentação e necessidades especiais. Por isso, a vaquinha continua recebendo.

Do dia 10 até terça-feira, as meninas já tinham arrecadado R$ 7 mil a mais, que será dividido entre as três. Para contribuir, basta fazer um PIX, de qualquer valor, para 21 97079-1912.

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