Bairro de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, poderá receber festa anual da laranja

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Em 1910, aos 13 anos, o imigrante Annibal Ayo Monteiro desembarcou no Rio após desistir de ser padre no Distrito da Guarda, em Portugal. Aqui no Brasil, casou-se em 1917 e, ao lado do sogro, foi pioneiro no cultivo de laranjas em Campo Grande, Zona Oeste da então capital do país. Por quase 30 anos, o bairro foi um dos maiores produtores e exportadores da fruta. A região chegou a ser conhecida como “Citrolândia” e a enviar toneladas para Estados Unidos, Inglaterra e outros países europeus. Mas a crise gerada pela Segunda Guerra Mundial fez com que o próspero ciclo chegasse ao fim.

A partir de um debate na página do Facebook “Campo Grande — o maior bairro do Brasil”, o funcionário público Wallace Monteiro Postiga, de 32 anos, bisneto de Annibal e administrador da página, teve a ideia de propor a criação da Festa da Laranja no dia 7 de outubro, para valorizar a memória cultural e incentivar o turismo local. Segundo ele, o bairro tem um vasto patrimônio histórico. A proposta foi aceita pelo vereador Jorge Felippe (DEM), que apresentou o projeto na Câmara Municipal do Rio para incluir a data no calendário oficial da cidade. O texto aguarda votação do plenário.

— Muitos não conhecem esse destaque mundial que Campo Grande teve. Pesquisei e, após debates sobre o tema nas redes sociais, tivemos a ideia da comemoração. Encaminhamos para as associações de moradores, que levaram a proposta até o vereador, que abraçou a ideia — detalha Wallace, que explica a escolha da data para a festa: — O número 7 representa a perfeição, e outubro era o mês de maior produção.

Segundo o projeto de lei, os locais de produção chegaram a empregar 300 pessoas e a exportar até 140 mil toneladas por ano. Os laranjais se estendiam pelos bairros vizinhos, como Paciência e Bangu, e iam até Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, outro grande produtor da época.

— Celebrar a data representa a história da região e o quanto a produção da laranja teve importância econômica para Campo Grande — justifica o vereador Jorge Felippe, que nasceu em Bangu e tem forte atuação na Zona Oeste. — Queremos também movimentar a economia local.

O pesquisador Rafael Mattoso lembra que hoje o bairro abriga três esculturas que fazem referência ao produto que se tornou base da economia durante boa parte do século 20. As obras foram instalados dentro do programa de intervenção urbana Rio Cidade, na década de 1990.

— Tão grande era a importância que foram inauguradas esculturas enormes de laranjas descascadas em frente à rodoviária de Campo Grande, na Avenida Cesário de Melo, e no calçadão comercial do bairro.

Segunda Guerra pôs fim ao ‘ciclo de ouro’

A decadência da época de ouro da laranja começou quando a economia dos países importadores se voltou para a produção de armamentos na Segunda Guerra Mundial. Além disso, o bloqueio continental feito pelos submarinos alemães prejudicou ainda mais a exportação. Os laranjais ficaram carregados, as frutas estragavam, e logo surgiram pragas. Os donos venderam as terras. Houve, então, a transformação das propriedades rurais em loteamentos, que levaria a região de Campo Grande a registrar nas décadas seguintes um dos mais altos aumentos populacionais.

Hoje, não há mais produtores de laranja no bairro, restando apenas a memória afetiva. Wallace recorda que sempre ouviu as histórias da família contadas pelo avô Olintho Monteiro, de 86 anos, filho de Annibal, que chegou a trabalhar quando criança capinando a vegetação em torno dos laranjais.

— Meu bisavô Annibal era dono de uma fazenda na Estrada da Posse, onde hoje é o subbairro Del Cima. Depois, arrendou terras do senador Augusto de Vasconcelos para expandir os negócios, onde hoje fica a Estrada Professor Daltro Santos. Além disso, meu bisavô paterno, José de Mattos, tinha uma pequena produção na Estrada do Cantagalo, e minha bisavó Idalina trabalhou como chefe de seção num barracão de laranja.

O jornalista e pesquisador André Mansur, autor do livro “Crônicas históricas da Zona Oeste carioca”, explica que esses barracões eram espaços imensos onde era feito o armazenamento das laranjas, embaladas em papel de seda finlandesa e organizadas, antes de serem levadas para o Centro do Rio e exportadas. Hoje, só um desses imóveis se mantém de pé, em Inhoaíba, e abriga uma igreja evangélica.

Duelo com marca de refrigerante

Segundo o pesquisador André Mansur, “Laranja no pé, dinheiro na mão” era o slogan publicitário que dominava o comércio da fruta. No auge, um curioso embate: foi produzido em Campo Grande um suco de laranja chamado “A nossa”, iniciativa de um químico industrial e seu sócio. Com o sucesso, houve negociações para exportação da bebida, que poderia até competir com a Coca-Cola.

— Algumas dificuldades técnicas e a forte concorrência do refrigerante, que começava a se espalhar pelo mundo, acabaram com o sonho patriótico e romântico dos sócios. Há autores que citam o assombroso marketing da Coca-Cola, que distribuía o refrigerante nos colégios e festas.

Segundo o pesquisador, a escolha do nome da bebida mostra o valor que era dado ao fato do processo produtivo, de ponta a ponta, ser local.

— O nome oficial era “Suco natural de nossa laranja”, mostrando todo o orgulho do produto ser de Campo Grande, da safra até a distribuição.

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