Bairro da Saúde, escolhido um dos mais interessantes do planeta, mistura clima bucólico, cultura e memória ancestral

·8 minuto de leitura

RIO — Norrebro, em Copenhague, capital da Dinamarca, é um recanto famoso pela mistura de marcos históricos, arquitetura ultramoderna e prestigiados redutos de comes e bebes. À beira do Mar Báltico, o Station District, em Vilnius, capital da Lituânia, encanta turistas por sua concentração de obras de arte urbana. Com um pouco disso tudo, bares concorridos, arquitetura tradicional e contemporânea, além de arte ao ar livre, o bairro carioca da Saúde garantiu seu espaço entre esses e outros points internacionais na lista dos “49 bairros mais legais do planeta”.

Em 2021, a pesquisa para o ranking, montado anualmente pelo guia "Time Out", com sede nos Estados Unidos e na Inglaterra, contou com 27 mil participantes ao redor do planeta. No coração — e nas origens — da Zona Portuária, a Saúde garantiu uma honrosa 25ª colocação, além de texto elogioso. A verdade é que a gente já sabia, mas disfarçamos bem.

Entre o agito e o sossego

Na tarde da última quinta-feira, dia em que o ranking foi revelado, um homem de meia idade descansava sentado, com o tronco largado numa cadeira de plástico, e as pernas apoiadas em outra, na calçada da Ladeira João Homem, no Morro da Conceição. O ruído perceptível mais próximo era o do miado de um gato, que se esticava no meio da rua, ambos na mesma sintonia preguiçosa. Ao pé do morro, pessoas começavam a ocupar as mesas de bar no Largo da Prainha, pedindo os primeiros petiscos e começando a brindar o fim do expediente. Em um dos estabelecimentos, o futuro Pequeno Museu Carioca, funcionários montavam a exposição sobre Tia Lúcia, célebre moradora — falecida em 2018 — e ícone artística do Porto.

A harmonia entre o clima calmo nas estreitas vielas do Morro da Conceição, o agito cultural do seu entorno e a memória ancestral da região fez do Largo da Prainha um point mesmo durante a Pandemia. O movimento por lá chamou a atenção da “Time Out”. Segundo a publicação, o dia perfeito no bairro começa na subida da Ladeira João Homem, para se admirar a vista. Segue com almoço na Casa Omolokum, famosa por seus acarajés e caipirinhas, antes de terminar no clima festivo do Bafo da Prainha, atualmente o mais animado reduto do largo.

O desfile de atrações não para por aí. A revista também destacou o charme dos bares antigos e da arquitetura portuguesa, a herança africana, com referência ao samba e à Pedra do Sal, o Museu do Amanhã e o MAR (Museu de Arte do Rio), além dos painéis de grafite no Boulevard Olímpico. Antenada, a publicação também avisa sobre a chegada da Junta Local, feira de produtos sustentáveis, que passou a ocupar parte do histórico Moinho Fluminense e deve voltar a realizar suas concorridas feiras presenciais em janeiro de 2022.

A suspensão das rodas de samba durante a pandemia foi um baque, mas o sucesso do Bafo da Prainha também se deve ao cardápio original — um hit, a “macarronese” conquistou nomes como Jorge Aragão e ajudou a consolidar a “retomada da Saúde”, afirma Raphael Vidal. Dono do empreendimento, que derivou da Casa Porto, e morador do Morro da Conceição desde 2008, ele descobriu a notícia sobre o ranking da “Time Out" fazendo uma busca de notícias sobre seu negócio na internet.

— Isso é sensacional. É um bairro improvável, e virou o mais legal do Brasil. A cidade nos abraçou, agora estamos devolvendo o abraço. Abrimos em março e o fenômeno nos surpreendeu, fomos atropelados pelo público — conta Vidal, que, candomblecista, consultou os orixás antes de abrir o Bafo. — A resposta que tive é que só daria certo se eu respeitasse a tradição local afrodescendente. Nosso movimento respeita a memória, a gente sabe onde está pisando.

Ali bem perto fica o Cais do Valongo, patrimônio da humanidade e maior entreposto de africanos escravizados do continente. A Pedra do Sal, ao lado do Largo da Prainha, se tornou o coração da chamada Pequena África, e um dos berços do samba na cidade.

— Acho muito importante que a cultura volte para ali, é ancestralmente muito importante para o Rio — afirmou a sambista Teresa Cristina, que começou a frequentar a Saúde por causa do exinto Trapiche Gamboa, e recentemente deu canja num show na sacada do Bafo da Prainha.

Após a boa resposta do público, Vidal expandiu o negócio e adquiriu outros três imóveis no largo, que ainda conta com o histórico Angu do Gomes. Ao lado, no Beco João Inácio, o empresário abriu, há dois meses, o Tendinha, e em breve inaugurará o Tatuí, bar de frutos do mar. Outra novidade é a chegada de uma expansão do premiado Bar da Gema, que abrirá ao lado da Pedra do sal com o nome Bar da Pedra, na próxima terça.

Outro futuro empreendimento citado pela Time Out, a Junta Local montou sua base em um galpão do Moinho Fluminense. A ideia da Junta é, para além da realização das suas famosas feiras gastronômicas, criar um mercado de pequenos produtores no espaço.

— Tivemos oportunidades para ocupar a Zona Sul, mas acho que aqui conseguimos cumprir melhor o nosso propósito de democratizar a comida e a cidade — explica Thiago Nasser, um dos fundadores da Junta, que lançou financiamento coletivo para custear o projeto. — Queremos chamar produtores da região, valorizar a cultura local, que é muito forte aqui. Não só reproduzir o que já fazemos.

Em meio ao Porto Maravilha, o bairro da Saúde, assim como toda região portuária, viveu uma “montanha-russa” na última década, como definiu Raphael Vidal, entre esperanças e desolações.

Assim como ele, muitos outros moradores compartilham da opinião de que a prometida requalificação urbana não chegou por completo, e hoje citam, como problemas, a violência urbana e questões estruturais, a exemplo da recorrente falta d’água. A chegada de empresas não ocorreu como projetado, tampouco a ocupação residencial. Enquanto isso, com acentuação da crise econômica, cada vez mais prédios abandonados vêm sendo ocupados por pessoas em situação de rua.

Por isso, a eleição da Time Out serve também como um resgate do orgulho para a comunidade. O próprio prefeito Eduardo Paes publicou a notícia em suas redes sociais, como forma de valorizar o Porto Maravilha. “Tá aí para quem duvidava: a revitalização do Centro do Rio transformou a região e hoje lá fica um dos bairros mais legais do mundo, a Saúde”, escreveu.

Antigos moradores também se disseram orgulhosos com o "prêmio", como Rosieth Marinho, nascida e criada no Morro da Providência, ou Morro da Favela, como ela prefere, que fica ao lado da Saúde.

— A notícia me deu uma sensação de reconhecimento, de que estamos no caminho certo, um cobertor para aquecer nosso coração. Somos valorizados pela nossa cultura, de berço, não é algo de fora — celebra Rosieth Marinho, que é presidente da Liga de Blocos da Zona Portuária. — Nós antigamente vivíamos escondidos atrás de viadutos, principalmente da Perimetral. Não nos reconhecíamos, viam a gente de dentro do carro, como um bairro escuro e sombrio.

Celina Rodrigues, mais conhecida como a Mãe Celina de Xangô, por ter sido a mãe de santo responsável por reconhecer os objetos encontrados nas escavações do Cais do Valongo, se tornou uma porta voz da história do cais e promove palestras mundo afora. Também é gestora do Centro Cultural Pequena África e moradora da Sacadura Cabral, principal avenida da Saúde, desde 2008.

— Diante de tanta loucura que a gente viveu, é uma notícia muito gostosa e especial (a eleição) — conta ela, que, já transita na região há 40 anos e adora passear pelo Boulevard e comer no Angu do Gomes. — A descoberta do Cais Valongo valorizou muito o lugar, fortaleceu o sentido da cultura e da religiosidade. Cabe a nós contar sempre sobre essa história aos visitantes.

Apesar dos lançamentos imobiliários terem ficado aquém do prometido, novos moradores chegaram à Saúde nos últimos anos. Como foi o caso do casal Camila Santos e Ramon Procópio, moradores do Morro da Conceição desde 2019. A adaptação, contam, foi fácil.

— Aqui tem um clima de subúrbio, em três meses já conhece todo mundo — afirma Ramon, que é cantor e ex-morador de Cavalcante, e costuma se inspirar no novo bairro para composições e gravações de clipes, como no mais recente RL, gravado nas ruas do Porto.

Se para Ramon a identificação com o subúrbio foi um facilitador, para Camila a familiaridade já vinha de décadas, pois ela estudou no colégio ao lado da Pedra do Sal e seus pais moravam no Centro.

— Sempre gostei do clima, de ver crianças brincando na rua e frequentar os bares. É um oásis dentro do Centro. — explica ela, que adora divulgar os points da região. — Existe um certo choque de visões de mundo, entre a galera mais jovem, que veio para cá porque virou "cool", e aí tenta inserir ideias novas, e o pessoal que mora aqui há décadas. Mas todos se ajudam, e mantêm o clima familiar.

Um exemplo da coletividade dos moradores ocorreu recentemente, quando o padeiro que circula a região sofreu um acidente doméstico e, então, os vizinhos organizaram uma vaquinha para ajudá-lo.

Esse talvez seja um dos segredos do “25º lugar mais legal do planeta”. Outro é apontado pela escritora Zelma Rabello, criadora do “Observatório do Jogo da Bola”, em que grava, com voz de locutora de rádio, informações sobre o bairro divulgadas pelo WhatsApp.

— Se Gabriel García Marquez tivesse morado no Morro da Conceição, ele teria escrito 10 mil outros romances, essa região é diferentona — brinca a escritora.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos