Que fim levou a CPI da Pandemia?

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BRASILIA, BRAZIL - JUNE 08: Health Minister Marcelo Queiroga speaks in the Parliamentary Inquiry Committee (CPI) to investigate government actions and management during the coronavirus (COVID-19) pandemic at the Federal Senate June 8, 2021 in Brasilia, Brazil. The CPI was ordered by the Supreme Court. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, fala a senadores na CPI da Pandemia. Foto: Andressa Anholete (Getty Images)

A CPI da Pandemia no Senado não é mais a mesma, dizem os espectadores.

Passado o frisson dos primeiros depoimentos, iniciados há um mês e meio, as atenções das redes sociais, as ágoras do pensamento contemporâneo, parecem migrar agora para outros perrengues da vida pública e privada.

A razão é um impasse. Alguns, na verdade.

Um deles era a ausência, até outro dia, de um dissidente disposto a ir ao sacrifício e entregar tudo o que sabe.

Como um ferrolho, governistas e opositores desenharam as suas linhas de defesa, muito bem treinadas, e mal avançaram no campo adversário —diferente do que fez Pedro Collor ao assumir a função de homem-bomba do governo do irmão. Aqui o temor do contragolpe inibiu qualquer passo em falso ou frase fora do tom.

Com raras exceções, caso de Luiz Henrique Mandetta, quem já deixou o governo não demonstrou disposição em entregar o antigo chefe.

Ao menos em público, eles se apresentaram como defensores fieis das ideias defendidas antes, durante e depois de a pandemia se converter em morticínio. Inclusive do tratamento precoce, os efeitos milagrosos da cloroquina e a procrastinação a respeito da vacina.

O resultado é que, apostando no assombro do público, a caixa de ressonância da comissão via redes sociais, os senadores produziram outro resultado. Deram palanque ao negacionismo —para o qual o relator, Renan Calheiros (MDB-AL), se negou a bater palma ao se retirar da sessão desta sexta-feira.

Uma ideia não é absurda se ela é vendida com convicção.

Se amanhã você subir em uma banqueta numa rua movimentada da cidade e começar a vender terreno na lua, certamente vai receber olhares indiferentes ou espantados com a audácia, mas provavelmente ao fim do dia terá vendido alguns hectares. E no dia seguinte, outro. E outro.

A certa altura, a CPI se converteu nessa banqueta para vendedores de terreno na lua.

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Isso tem efeito —ou melhor, não tem— na leitura política da cena, uma das missões da CPI. A ideia, afinal, é demonstrar o amadorismo do governo com as balas do processo penal e da disputa eleitoral que se avizinha. Quanto mais gente entender como chegamos até aqui, melhor para a oposição.

Mas há um detalhe. Com o jogo truncado, quem já não gostava do governo compartilhou até cair o dedo momentos-chave como a declaração da médica Luana Araújo relacionando tratamento precoce e borda da terra plana.

Mas quem defende Bolsonaro não mudou uma linha da opinião sobre ele.

Para um colegiado que prometia trazer novidades, existem poucas até aqui ao olhar do grande público.

O conjunto de erros (crimes?) cometidos pelo governo está documentado e registrado à luz do dia desde o primeiro momento da crise. Falta juntar pontos de sua história e entender as suas motivações.

No início dos trabalhos, quando estavam na fila dos depoimentos nomes como Fábio Wajngarten, Ernesto Araújo e Eduardo Pazuello, havia a expectativa de que ao menos um deles encarnasse o Pedro Collor da vez. No mínimo um Duda Mendonça, o publicitário que em 2005 contou em público como recebia dinheiro das campanhas petistas via caixa 2 e provocou ali mesmo uma implosão na legenda —parte migrou para o PSOL em um divórcio que perdura até hoje.

Compreensível, o desinteresse com os últimos capítulos fez repercutir menos do que deveria o caminho deixado pelo ex-governador do Rio Wilson Witzel em seu depoimento. Como Inês é morta, poucos franziram a sobrancelha diante do que poderia dizer um político decadente que já caiu da estrada e lá ficou ferido.

Só que, em sua fala, Witzel basicamente disse ter sido alvejado em seu estado por ordem de grupos milicianos incomodados com as investigações sobre eles e incrustados em organizações responsáveis pela gestão de hospitais. A declaração joga uma bomba sobre o atual governador, Cláudio Castro, e a família Bolsonaro, sua aliada no Rio.

Falta alguém levar o fósforo até lá.

A CPI tem os caminhos, mas este é um trabalho mais silencioso do que exigem os polos produtores de memes e os lacradores de redes sociais.

Ninguém a essa altura imagina que alguma peça-chave do atual governo chegue ao Senado dizendo “sim, erramos feio, apostamos no cavalo manco, muita gente lucrou com isso, e agora devemos perdão às famílias dos quase 500 mil mortos”.

Não será o empresário fujão, que terá de falar aos senadores por coerção, que fará isso. Ali a estratégia é ganhar tempo e desmoralizar a autoridade dos senadores.

Mas há conexões a serem fechadas com base em quebras de sigilo e trabalho de formiga. Uma das pistas é entender por que alguns laboratórios receberam tapete vermelho à entrada do Planalto e outros foram ignorados durante meses. E qual o papel do governo, afinal, ao fazer as vezes de garoto-propaganda de medicamentos ineficazes que explodiram em vendas durante a crise.

Seria bom que o espectador não desistisse desse reality. Agora é que pode ficar bom.

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