Bale deixa o Real Madrid como um vaga-lume que brilhou na hora certa

A saída de Gareth Bale do Real Madrid ainda não é oficial, mas seria mais fácil ver o técnico Zinedine Zidane voltar aos gramados, aos 47 anos, do que pensar na continuidade do galês – que tem grandes chances de jogar na China. Recentemente, o próprio treinador disse que uma despedida, um ponto final, seria o melhor para todas as partes. O discurso que coloca o camisa 11 como uma peça descartável impressiona se analisarmos os seus feitos pelos merengues. A impressão é de que, tendo feito o que fez, Bale seria ovacionado em qualquer clube. Mas o Bernabéu possui uma lógica própria que geralmente não é das mais afeitas ao carinho em despedidas.

Os seus feitos falam por si só, e é importante destacar não apenas os 14 troféus conquistados [incluindo quatro Champions League]: Bale fez gols decisivos em finais. Considerando decisões de Champions, foram três bolas nas redes – menos apenas do que os sete que tanto Di Stéfano quando Puskas somaram, e em relação aos cinco de Cristiano Ronaldo, todos eles lendas do Real Madrid. Deixará o estádio Santiago Bernabéu por baixo, como já aconteceu com outras lendas madridistas antes dele, mas seus números são dos mais altos. Em todos os sentidos.

Maior contratação da história

Gareth Bale Real Madrid
Gareth Bale ainda é a contratação mais cara na história do Real (Foto: Getty Images)

Bale chegou ao Real Madrid, em 2013, como maior contratação do futebol em todos os tempos. O clube espanhol gastou 101 milhões de euros para tirá-lo do Tottenham. Na época, até se especulava se a grana investida levantaria ciúmes ou inveja de Cristiano Ronaldo, algo que nunca chegou a ser efetivamente comprovado. Até hoje, o galês ocupa o topo como jogador mais caro já comprado pela equipe merengue.

Decisivo nos momentos certos

O investimento valeu a pena e trouxe consigo uma imagem marcante. Logo em sua primeira temporada pelo Real, 2013-14, Bale pôde comemorar algo que os torcedores merengues não faziam desde 2002: um título de Champions League. Nos gramados de Lisboa, a tão sonhada décima conquista veio tendo o galês como um dos protagonistas. Depois que Sergio Ramos levou aquela final, contra o Atlético de Madrid, para a prorrogação, foi do camisa 11 o tento que fez o 2 a 1, abrindo de vez espaço para as redes colchoneras balançarem outras duas vezes. Uma das fotos daquele título mostra galês em contraposição à placa de publicidade do cartão de crédito que dizia “Priceless”. Não tem preço.

Mas aquela que foi sua temporada mais goleadora [foram 22 bolas nas redes] pelo Real Madrid também ficou marcada, semanas antes, pelo golaço que garantiu o título de Copa do Rei contra o Barcelona. A finalíssima estava empatada por um gol até os minutos finais, mas Gareth parecia ter um fôlego infinito ao ter disparado, como se fosse um corredor olímpico, ganhando uma disputa com Marc Bartra antes de dar prosseguimento ao lance, garantindo o 2 a 1 e o troféu sobre o maior rival. Também naquele ano, estufaria as redes do San Lorenzo na decisão do Mundial de Clubes da FIFA.

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O golaço do título europeu em 2018, sobre o Liverpool (Foto: Getty Images)

Dentre suas 65 assistências pelo Real Madrid, uma delas foi para Sergio Ramos fazer um dos gols em outro título europeu sobre o Atleti, em 2016. Dentre o total de 102 gols marcados, dois deles cravaram a última das quatro conquistas de Champions League dos Blancos, em 2018: primeiro aproveitando falha bizarra de Loris Karius, goleiro do Liverpool, mas depois fazendo o que talvez seja o maior golaço das finais de Champions League – acertando uma bicicleta espetacular no ângulo, finalizando a vitória por 3 a 1 sobre os ingleses – rivalizando, quem diria, justamente com o gol feito por Zidane, técnico que o descarta agora, no título madridista da Champions em 2002.

Exagero nas lesões

Gareth Bale
(Foto: Getty Images)

Para o azar de Bale, contudo, um de seus números mais marcantes também foi o de lesões. O ponta perdeu mais de 70 partidas – quase um terço no seu total de 231 jogos oficiais – para ficar no departamento médico. É uma das razões que explicam como o galês sempre dava a impressão de brigar para reconquistar uma vaga entre os titulares. Uma sensação constante de “agora, vai”.

Vaga-lume, mas de luz forte

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(Foto: Getty Images)

Talvez Bale fosse mais valorizado se não fosse comparado com um monstro como Cristiano Ronaldo? Impossível responder. O próprio galês iniciou a sua última campanha madridista, após a saída do português para a Juventus, rotulado como líder de um novo Real Madrid, mas, assim como toda a equipe, não apresentou um bom desempenho, inclusive recebendo vaias das exigentes arquibancadas madridistas.

Gareth Bale foi um jogador irregular dentro do alto nível que dele era esperado no Bernabéu. Mas, para a felicidade do torcedor merengue, apresentava uma regularidade incrível em momentos de decisão. Um vaga-lume, mas cuja luz se intensificava na hora certa. Futuramente, quando o tempo sarar as lesões deixadas pela mágoa, provavelmente a última das lesões do galês dentro do Bernabéu, ele talvez seja mais bem tratado pelo torcedor do clube e pelo Real Madrid em si.