Por que grandes bancos não querem dar crédito a beneficiários do Auxílio Brasil?

BRAZIL - 2021/11/23: In this photo illustration the Auxílio Brasil logo seen displayed on a smartphone, alongside Brazilian real money bills. (Photo Illustration by Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)
Ilustração: Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket (via Getty Images)

Junto com o aumento do Auxílio Brasil, que durante as eleições passará de R$ 400 para R$ 600, o governo editou uma medida provisória, já aprovada no Senado, para que os bancos possam oferecer crédito consignado equivalente a 40% do valor do benefício.

Numa conta rápida, quem anda com o nome sujo na praça poderá sacar o dinheiro, correr para uma instituição financeira próxima e sair de lá com R$ 840 no bolso. O prazo para quitar o valor é limitado a 24 meses e não há limite para a cobrança da taxa de juros.

É aí que está o nó.

Oficialmente, os R$ 600 só serão pagos até o fim do ano. Ninguém será eleito, é claro, se disser em voz alta, durante a campanha, que a primeira medida a ser assinada em janeiro será reduzir o valor do benefício.

Mas, até lá, o que está em jogo é uma conta que não fecha: um prazo estendido para a quitação do financiamento pago com um benefício com hora para acabar.

Uma análise apressada pode sugerir que Bolsonaro, que anda às turras com os bancos privados por conta do endosso de suas lideranças às cartas em defesa da democracia, está dando para os pobres com uma mão e acenando para os ricos com outra.

Não é bem assim.

O Bradesco, por exemplo, já pediu para ser incluído fora dessa.

A justificativa de seu presidente, Octavio de Lazari Júnior, é que o Auxílio Brasil é um benefício a pessoas em dificuldade, e não uma fonte de renda perene, a exemplo da pensão ou da aposentadoria. “Estamos falando de pessoas vulneráveis. Em vez de ser uma boa operação para o banco e para o cliente, entendemos que a pessoa terá mais dificuldade quando o benefício cessar e, para isso, preferimos não operar”, disse o executivo na semana passada.

Ao menos dois outros grandes bancos fazem cálculos parecidos e ainda avaliam se vão aderir ou não.

Nenhum deles pode ser acusado de associação a um suposto projeto socialista em oposição ao atual governo.

Como bons banqueiros, o que eles não querem é rasgar dinheiro. E, para que isso não aconteça, é preciso ter um pouco mais de visão de médio prazo. Quem enxerga para além do óbvio vê logo à frente uma fatura considerável a ser paga com o pacote de benefícios ao fim da eleição.

É provável que os beneficiados de agora terminem a temporada de benesses mais pobres e mais endividados. É uma bomba relógio que o topo da pirâmide já mostrou que não quer ativar.

Bolsonaro segue com sua conversa fiada de que provocou a ira dos grandes bancos privados por instituir o Pix no Brasil. Mas a ferramenta começou a ser criada oito meses antes de sua posse, ainda sob Michel Temer.

O que a elite financeira, aquela que não rasga dinheiro, está reivindicando em notas e cartas de aviso é que precisam de mais previsibilidade para operar no país. A bronca é com o déficit de normalidade encarnada pela atual gestão, que ameaça botar fogo no parquinho enquanto picota o ideário liberal apresentado ainda na campanha de 2018. A poda final é o destroço do arcabouço fiscal e das regras eleitorais para beneficiar seu presidente.

Sem os grandes bancos, caberá a instituições menores, além dos bancos públicos a mando do presidente, capitanear a agiotagem institucionalizada.

Os recursos podem aliviar momentaneamente o aperto financeiro de quem ficou no esquecimento nos últimos três anos e meio – e só recebeu vacina e auxílio emergencial no pico da pandemia por insistência do Congresso, quando o calendário eleitoral não tocava o coração do presidente e de sua equipe econômica.

Só que a conta uma hora estoura.